Os expostos na estrutura socioeconómica

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

Durante séculos grande parte a existência dos criados, mão-de-obra barata, provenientes dos grupos mais carenciados da população, sendo grande parte de expostos ou abandonados, contribuiu para a manutenção das estruturas económico-sociais tradicionais até meados do século XX.

Carregando molhos de centeio durante a ceifa

Ouvi muitas vezes algumas expressões, às pessoas mais velhas, que atestam a importância deste grupo social na preservação das estruturas sociais e económicas (agrárias) tradicionais:

– “Já não há quem queira trabalhar como antigamente”; “antigamente todas as casas tinham um criado para guardar o gado”; “as senhoras ricas de Sortelha tinham quantas criadas quisessem”.

A miséria era tanta que qualquer família pobre tinha interesse que os filhos fossem servir, significava menos um encargo. Devido à falta de propriedades e pobreza dos solos de pouco valia ter uma prole abundante! Estes nem sempre eram úteis para o enriquecimento do agregado familiar.

Durante séculos grande parte dessa criadagem foi proveniente dos miseráveis expostos ou abandonados. Ou seja, as estruturas agrárias tradicionais mantiveram-se, durante vários séculos, em parte devido à abundância desta mão-de-obra barata, tornando-se um obstáculo à sua modernização. A extinção das Rodas, na segunda metade do século XIX, não significou o fim da miséria.

Província da Beira – D. Luiz Caetano de Lima, 1736 (1)

O século XIX foi caraterizado pela miséria que aqui se viveu, tendo continuidade até meados do século XX. As estruturas sociais e económicas (baseadas numa agricultura de subsistência de características medievais) eram próprias do Antigo Regime. Só a emigração, sobretudo na década de 1960, permitiu alterar este estado de calamidade social. Exemplo desta triste realidade são os textos seguintes:

-“Pedem subsídios Maria dos Anjos Soares, viúva do Souto, para seu filho Germano, de idade de seis meses, por ser pobre e ter mais dois filhos menores, Maria Libânia, viúva de Pousafoles para seu filho António Marques, nascido em um de janeiro último, por ser pobre e ter mais quatro filhos de idade; e José Feliz, casado, proprietário em Sortelha, para os três órfãos de pai e mãe, filhos de Joaquim Carvalho e Alice de Jesus Barata, com os nomes de Manoel de Carvalho, nascido em 13 de setembro de 1913, Américo Carvalho, nascido em 30 de setembro de 1915 e Adília da Conceição Barata, nascida em 21 de setembro de 1918, por serem pobres. A Comissão deliberou conceder a Germano do Souto o subsídio por um ano, a António Marques, de Pousafoles até que complete doze meses e aos três órfãos de Sortelha até completarem dez anos, visto serem pobres.”(2)

Venda de açúcar: – “Deliberou a Comissão anunciar a venda de açúcar para a próxima segunda-feira, dia dois do próximo setembro, à razão de sessenta centavos o quilo, em quantidade de duzentas e cincoenta gramas, quinhentas gramas e quilo, segundo as necessidades e condições económicas dos requisitantes. A venda terá lugar das dez às dezasseis horas por meio de senhas que podem ser requisitadas na administração do concelho.” (3)
Vemos, pelo exemplo citado, que o racionamento de bens existiu na altura da primeira Grande Guerra (1914-1918). Recordo histórias de infância, contadas pelo meu avô, de ir a Sortelha buscar bens alimentares. Ia de burro e os alforges traziam o que era permitido! Hoje associo esses relatos à segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ou seja, também nesta época houve racionamento.
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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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1. Esta descrição da Província da Beira está integrada no tomo segundo da “Geografia Historica”, uma obra dedicada por D. Luiz Caetano de Lima «á Sacra, Real, Augusta Magestade Del Rey D. João V» (in D. Luiz Caetano de Lima, “Geografia Historica de Todos os Estados Soberanos de Europa, com as mudanças que houve nos seus Dominios…”, Lisboa Occidental, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, M.DCC.XXXVI).
NOTA: Alfaiates e Vilar Maior pertenciam à Correição de Pinhel; Sabugal, Sortelha e Vila do Touro (nesta época surge só Touro) pertenciam à Correição de Castelo Branco.
2. Arquivo Municipal de Sabugal, Livro de Actas da Comissão Administrativa Municipal, sessão de 17 de março de 1919.
3. Arquivo Municipal de Sabugal, Livro de Actas da Comissão Administrativa Municipal, sessão de 28 de agosto de 1918.

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