Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (12)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 12).

Mapa da Alemanha, Bélgica, França e Áustria - Terras por onde andou o Franklim - Capeia Arraiana

Mapa da Alemanha, Bélgica, França e Áustria – Terras por onde andou o Franklim

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

Verão de 1968

>> De 2.7.1968 a 23.9.1968 – A mãe de todas as viagens e aventuras à boleia <<

Lisboa – Espanha – França – Bélgica – Holanda – Alemanha – Dinamarca – Suécia – Noruega (até ao Cabo Norte) – Finlândia – Rússia – Polónia – Checoslováquia
Alemanha Oriental e Ocidental – França – Espanha – Quadrazais

4.ª parte – Da saída da Checoslováquia ocupada até Quadrazais

Bilhete do comboio de Praga para Berlim - Capeia Arraiana

Bilhete do comboio de Praga para Berlim

3.9.1968 – Comprei o bilhete de Praga para Berlin na véspera da partida. Meti-me na bicha. Chegada a minha vez, apenas disse: Berlin, no jeito que havia ouvido aos outros. Entreguei o dinheiro trocado. Havia, certamente, perguntado antes qual era o preço e tinha cambiado dinheiro para o efeito, se é que o dinheiro checo proveniente dos 10 dólares que havia cambiado em 1 de Setembro já o tinha gasto. Por trás do bilhete está escrito 4.9, como dia da partida (Ver bilhete).

4.9.68 – O comboio partia para Berlin pelas 11 horas. Fui uma meia hora antes à estação, peguei no bilhete, olhei para os comboios parados na estação e palpitou-me qual seria o meu. Não ousei perguntar a ninguém qual era, não fosse denunciado pela voz ou gestos. Entrei no que me pareceu ser o correcto. Foi um alívio quando o comboio começou a andar.

Visa (vistos) e carimbos da RDA - Capeia Arraiana

Visa (vistos) e carimbos da RDA

Cerca de umas duas horas depois, parou em Decin, na fronteira com a Alemanha Oriental. Entraram dois polícias. Um russo e um checo. O meu coração batia forte. Eu já os conhecia pelas estrelas no barrete. Antes que mo pedissem, saquei do meu passaporte e entreguei-o ao checo. Este percebeu a minha atrapalhação, pôs-lhe o carimbo e entregou-mo de imediato, sem dar alvitre ao russo. O russo dirigiu-se a uma senhora velhota que ia à minha frente. Eu encostei a cara à janela a olhar para fora para não encarar o russo. Chateou a senhora ao máximo com mil e uma perguntas, que eu não compreendi, claro. Levou-a e não mais a vi.

Não será fácil acreditarem no que vou contar sobre o que se passou a seguir. Mas acreditem, que é a pura verdade. Por baixo do comboio ladravam cães-polícias que farejavam tudo. Na minha carruagem e, certamente, também nas outras, os polícias desaparafusaram todo o tecto e pesquisaram tudo. – Imaginem com estava o meu coração! – Angustiado pelo que pudesse acontecer e ansioso por partir. Finalmente, após bem mais de uma hora parado, o comboio pôs-se em movimento. Foi um alívio para mim, embora receoso que voltassem. Pelo menos já não havia o perigo de os russos me prenderem por estar ilegal na Checoslováquia. Os alemães não tinham razão para me fazerem mal, já que tinha visto de entrada e não era proibido a permanência de estrangeiros documentados.

Fui olhando a paisagem e as terras por onde passámos. Lembro-me de ter passado por Dresden e não sei se também por Leipzig.

A cada vez que o comboio parava, era um novo aperto de coração. Finalmente, cheguei a Berlim Oriental. Procurei albergue, mas não havia. Procurei uma pensão mas não me deixaram dormir em Berlin Oriental. Creio que almocei por lá. Tive de ir para Berlin Ocidental e dormi no albergue da juventude de Berlin, no bairro ou distrito de Charlottenburg, no n.º 36 de Bayernalles.

A saída da Alemanha Oriental para a Ocidental foi uma aventura. Mostrei o passaporte a um polícia. Mirou-o, remirou-o, tornou a mirá-lo e a remirá-lo e passou-o a outro, que executou os mesmos procedimentos. Este passou-o a outro com as mesmas cenas. Passaram-no depois por uma máquina, até que, finalmente, mo entregaram e o meu coração sossegou.

Na parte ocidental, no check-point Charlie na Friederichstrass, soldados franceses, ingleses, americanos e pareceu-me também belgas, estavam sentados e nem olharam para o passaporte. Estavam sentados e sentados ficaram. Fizeram aceno com a mão para que passasse.

5.9.68 – No dia seguinte, regressei a Berlim Oriental para visita. Tinha de pagar 3 ou 5 marcos alemães (já não sei precisar) para entrar. Não houve problemas de maior. À entrada para a Ópera ainda se viam senhoras com casacos de pele já safados. Visitei a cidade, ainda bastante destruída. Estive junto ao Muro de Berlin, protegido com arame farpado e com um espaço de protecção, onde ninguém podia penetrar. Mas ainda tinha um guarda armado de metralhadora dentro duma cabina no alto duma pequena torre, a cada 100 metros (não sei precisar a distância exacta). Era, de facto, quase impossível saltar o muro (ver foto). Como não sabia alemão e lá não sabiam inglês, foi difícil contactar com as pessoas, mesmo que fosse fácil contactá-las. Tirei fotografias mas não consigo identificar casas ou ruas porque não escrevi nada por trás. O mesmo cerimonial de verificação de passaportes da véspera para sair. Dormi novamente em Berlim Ocidental, no albergue.

Igreja Maria Regina Martyrum - Capeia Arraiana

Igreja Maria Regina Martyrum


Igreja ainda destruída em Berlim Ocidental - Capeia Arraiana

Igreja ainda destruída em Berlim Ocidental


6.9.68 – No dia seguinte fui outra vez a Berlim Leste. Passei para Berlim Oriental por uma saída em obras. Perguntei na rua, junto da paragem do eléctrico se estava em Ost Berlin ou na West Berlin. Responderam-me que na Ost. Fiquei atrapalhado e voltei por onde tinha saído. Dirigi-me a outro corredor e fui parar à bilheteira onde se pagavam os 3 ou 5 marcos. Fiquei aliviado. Quem dera aos alemães orientais ter descoberto essa saída! Sair para Berlim Ocidental foi semelhante ao dia anterior, um pouco mais aligeirado. Ainda hoje fico parvo quando penso ter entrado clandestino em Berlin Oriental. Voltei ao albergue para almoçar e dormir. Visitei, no entanto, a parte ocidental, onde tudo era já moderno. Lembro-me de uma igreja ainda por reconstruir na zona ocidental, ao lado de um arranha-céus. Seria para relembrar os bombardeamentos? (ver postais).

Muro de Berlin - Capeia Arraiana

Muro de Berlin


7.9.68 – Segui à boleia para Colónia, a 573 quilómetros, onde dormi no albergue em 7, 8 e 9.9.

Já à noitinha, perguntei a um polícia pela morada do ManelZé Ginjo, na Unter Kahlenhausen, n.º 42, e levaram-me lá. Verifiquei que a polícia alemã era simpática.

Em conversa com os Ginjos, duvidando eles que eu não precisasse de trabalhar durante a viagem para me sustentar, ou até que passasse necessidades, acabei por mostrar-lhes os trinta mil escudos (trinta contos) que trazia numa bolsinha por dentro da camisa e pendurada do pescoço, que eram a minha reserva em caso de necessidade de regressar de comboio ou avião a Portugal.

Parque de Marchenwald-Altenberg - Capeia Arraiana

Parque de Marchenwald-Altenberg


Parque de Marchenwald-Altenberg - Capeia Arraiana

Parque de Marchenwald-Altenberg


8.9.68 – Domingo. Fui com o ManelZé Ginjo e família (esposa e dois filhas) e o Zé Agusto Rito a Marchenwald-Altenberg, perto de Colónia, visitar o parque onde os contos de fadas são contados, com reprodução de personagens, tal como a Branca de Neve e os sete anões.

9.9.68 – Continuei em Colónia, dormindo no albergue.

10.9.68 – Por já ter ficado três noites no albergue, fui dormir no quarto do ti Ginjo, ausente, numas habitações para emigrantes junto do cais do rio Reno. Num centro comercial, cawcofo como diziam, Comprei um casaco impermeável preto que durou anos.

11.9.68 – Parti para Liège, onde dormi no albergue.

Praça de S. Lambert, em Liège - Capeia Arraiana

Praça de S. Lambert, em Liège


Palácio dos Príncipes Bispos em Liège - Capeia Arraiana

Palácio dos Príncipes Bispos em Liège


12.9.68 – Visitei o Palácio dos Bispos Príncipes, Praça S. Lambert (ver postais) e a cidade em geral. Visitei a Jacqueline Habsch, uma colega que conhecera na Universidade de Valência, moradora no n.º 91 da Rue Saint Nicolas. Fui para lá no autocarro 53, que apanhei na Place Lambert. Conheci a mãe dela e tomámos um lanche. Dormi em Liège, no albergue da juventude.

O Atomium à noite - Capeia Arraiana

O Atomium à noite


13.9.68 – O Sr. Albert Wetzel levou-me de Liège para Bruxelas, com o Atomium à entrada, símbolo da Expo/58, que aí ocorreu, monumento com 103 metros de altura (ver postais). Dormi no albergue de Bruxelas.

14.9.68 – Sábado. Continuei em Bruxelas, visitando a cidade.

La Grand'Place de Bruxelas - Capeia Arraiana

La Grand’Place de Bruxelas – Capeia Arraiana


15.9.68 – Dormi ainda em Bruxelas. Visitei la Grand’Place mais uma vez à noite e de dia La Grand’Place tem semelhanças com as espanholas. Vi ainda o Palácio do Centenário, o recanto do Manequel (Maneken) Pilsen. e a rua dos restaurantes. Almocei num deles.

16.9.68 – Segui para Antuérpia, Anvers em Francês. Numa vila onde parara, perguntei num café a direcção de Anvers e não queriam dizer-me por eu falar Francês e estar em zona flamenga. Quando viram que era estrangeiro, indicaram-me amavelmente o caminho. Visitei a cidade e segui para Bruges, onde dormi.

Brugges - Capeia Arraiana

Brugges


Bordadeiras de bilros em Brugges - Capeia Arraiana

Bordadeiras de bilros em Brugges


Visitei a Veneza do norte com seus canais, Palácio do Governo, La Grande Place, capela de Jerusalém e les dentellières. Vi fazer rendas de bilros, como haveria de ver, anos mais tarde, em Peniche (ver postais).

17.9.68 – Desci para a França por Lille até Paris.

Estive em Paris com o Sono e o Zé Bicho, tendo bebido uns copos juntos, a ponto de termos ficado todos com um grão na asa. Acabei por ir dormir na casa do Zé Bicho, na rue Carnot, 33. A mãe deste, a ti Patrocina, lavou-me a camisete cinzenta já suada de tanto carregar o saco às costas. Que Deus a tenha em bom descanso por esta boa acção, bem como ao filho, meu colega de escola!

18.9.68 – Continuei em Paris. Fui visitar a Leotina Borrega em Montesson la Borde e o Odemiro em Route d’Argenteuil, Corneilles-en-Parisis e não sei se dormi lá.

19.9.68 – Continuei em Paris. Dormi na casa do Quim Moira, que estava ausente, para onde me levou a Senhora Marquinhas, que eu fui visitar na sua casa em Ivry para buscar a pele de rena que tinha pedido ao sueco que ia para Israel, que deixasse lá.

20.9.68 – Segui para Poitiers, a 350 quilómetros, onde dormi no albergue já meu conhecido.

Carimbos dos albergues de Liège, Bruges, Bruxelas e Koln - Capeia Arraiana

Carimbos dos albergues de Liège, Bruges, Bruxelas e Koln


21.9.68 – Segui para Angoulême a 115 quilómetros. Estava a chuviscar. Eu tinha coberto o meu saco com um plástico branco grande. O Zé Vidalegre, que ia para Portugal numa Peugeot 404 com o Quim Sapateiro, ambos emigrantes quadrazenhos, apanhou-me à saída de Angoulême. Rolámos todo o dia e durante a noite. Colhemos uns cachos numa vinha no meio de Espanha. Devemos ter parado algumas horas para descansar no meio de Espanha.

22.9.68 – Continuámos em direcção a Portugal. Almoçámos callos, espécie de tripas à moda do Porto, num tasco em Ciudad Rodrigo. Entrámos em Vilar Formoso, rumando para Quadrazais. Cheguei a Quadrazais com 84 dias de viagem e, pelo menos, 15.100 quilómetros percorridos. Digo, pelo menos, porque nem sempre fui em linha recta, como estou a contar a quilometragem. Deu tempo para me crescer o cabelo a tamanho que nunca havia tido, a ponto de minha mãe me chamar «lanudo». Também deu tempo para conhecer gentes e culturas diferentes em terras bem distantes, passando por experiências inolvidáveis, assistindo a factos históricos importantes e satisfazendo o meu espírito aventureiro, ultrapassando situações incríveis e arriscando até a própria vida.

Quem, de entre os leitores, conseguiria passar por estas aventuras?

Leiam as crónicas seguintes, que outras incríveis aventuras se acrescentarão a estas, percorrendo mais uns milhares de quilómetros à boleia.

Já em Portugal, em Lisboa, escrevi à Intourist da Rússia a reclamar ter pago muito em transportes e hotéis, sendo estudante e não me terem deixado fazer boleia, e ter sido obrigado a pagar o táxi em Leninegrad. Enviaram-me dinheiro. já não sei quanto, pois não encontro o recibo.

(Fim da Etapa 12.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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