É verdade! Também fiz Tropa!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Ainda sou do tempo do Serviço Militar Obrigatório (SMO). E ao contrário da maioria dos rapazes da época fiz questão de o cumprir. Como tudo na vida tem bom, e mau, mas para mim acabou por ser um pesadelo. Mas mesmo assim achei que valeu a pena!

Afinal também fiz tropa - Capeia Arraiana

Afinal também fiz tropa

Estando em recuperação de uma maleita, tive a visita do meu irmão escuteiro António Alves Fernandes. Conversa atrás de conversa, quando estamos juntos há sempre algo para dizer. O António foi um combatente no Ultramar e tem memórias, algumas em crónicas muito bem escritas pelo que passou. E aquela tarde foi passada a recordar a tropa de cada um.

No meu caso pouco tenho para dizer. Com a minha incorporação o tempo do Serviço Militar Obrigatório (SMO) começou a ser reduzido. Dos 16 meses previstos entrei na disponibilidade após 15 meses. Tal como o António cumprimos o nosso dever na arma de Engenharia, tendo eu tirado a especialidade de sapador (mais conhecida por minas e armadilhas) e o António de responsável pela área administrativa. Eu andei por Tancos e pela Pontinha e o António pela Guiné-Bissau.

Mas mesmo sem amarguras da incerteza dos tiros e do combate, tive alguns episódios que gostaria de partilhar com os meus leitores, por serem situações sem dúvida peculiares. Uma delas foi o chumbo no Curso de Geral de Milicianos, mais conhecido por CGM, mas reconheço que pouco ou nada me prejudicou em parte devido ao comando da altura.

Mas que raio terei feito para tal proeza?

Quem andou pela instrução militar deve-se lembrar da famosa vala. E nesse tempo a passagem da vala era efetuada em passo de corrida. Até aí tudo bem, só que eu era míope e simultaneamente estrábico, e, por precaução, não usava os óculos durante a instrução.

Só me lembro de ter caído no vazio e, por instinto, colocar o braço direito para me amparar a queda. O aparato do acidente levou à suspensão do período de instrução e fui evacuado de ambulância para o Hospital Militar de Tomar, instituição já desativada.

Já lá vão 32 anos e não me recordo se esperei muito pelo transporte, mas o facto é que tinha dores insuportáveis.

A entrada num edifício centenário fez-me lembrar os cavaleiros templários que regressavam cheios de feridas após duras batalhas. Embora não fosse bem o caso, iria, no entanto, travar uma pequena contenda que ficou registada na minha memória.

Fui recebido por dois aspirantes médicos, rapazes sensivelmente da minha idade, mas que não me deixaram de tratar por soldado e por «você», ilustrando que nessa época já havia filhos e enteados. Mas sinceramente essa parte não tem importância em face do que se passou a seguir.

Chegadas as radiografias, os dois jovens médicos olhavam fixamente o meu antebraço e cotovelo e insistiam que não tinha nada. Tudo normal. Como uma fruta acabada de colher da árvore!

Porém as dores eram insuportáveis e acharam que o melhor para se certificarem de que tudo estava bem, obrigaram-me a fazer a continência. Foi necessário fazer um contorcionismo de circo para tocar com um dedo na cabeça, tendo logo de imediato colocado o braço ao peito. A gritaria foi atroz!

Talvez pelos pedidos de clemência que fazia ao Divino para que aquele inferno acabasse, surge um capitão médico que passa pelas urgências. Mesmo a uns metros do painel luminoso onde eram colocadas as chapas de radiografias diz prontamente: «Olha, este gajo tem o braço partido!»

Afinal o braço está partido ou não? - Capeia Arraiana

Afinal o braço está partido ou não?

Não podia ter melhor sensação de alívio. Sem saber a gravidade (tal nunca me tinha acontecido) o experiente médico mostrou a racha que tinha no osso que usualmente chamamos de cotovelo. Ainda foram precisos alguns minutos para os seus jovens colegas descobrirem a tal «estaladela» que me provocava dores insuportáveis.

Tive de fazer o resto do curso de braço ao peito. E obviamente havia testes escritos e outros exercícios que não podia fazer, pese embora ainda conseguisse fazer a semana de campo final, sem o gesso, e como fisioterapia deram-me a mala com o detetor de minas que pesava 11 kg que reconheço foi mais eficaz do que ter andado com exercícios inúteis.

Mesmo assim, como recompensa, cumpriram um desejo meu de ser colocado em Lisboa, para estar perto da família. E ainda tive, não um louvor, mas a publicação em «Diário da República» deste acidente ao serviço do país, onde fiquei lesado em termos de incapacidade do braço direito.

As conclusões são evidentes. Quando nos esforçamos, mesmo que aparentemente não valha a pena, acabamos sempre por ter o reconhecimento de quem menos esperamos.

Também é verdade que os tempos eram outros!

Covilhã, 8 de fevereiro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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