Passam os anos fica a saudade… (26)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

As férias de Verão nunca estariam completas sem uma semana em Vale de Espinho.

«Comércio» das aldeias da Beira Alta - Capeia Arraiana

«Comércio» das aldeias da Beira Alta

Mas o que mais me atraia em Vale de Espinho era o «Comércio» das minhas tias.

Entrava-se por uma porta um pouco estreita, desciam-se uns degraus e tinha-se logo à direita a cabine do telefone público.

Isto porque o «Comércio» era também o telefone público. A central telefónica era um dos centros de atração para a minha imaginação de criança.

Meter as cavilhas, dar à manivela para chamar, ou ir, a mando de uma das tias, dizer a alguém para vir atender um familiar longe, tudo era motivo de satisfação e de encanto.

O balcão em madeira maciça corria ao longo do comércio.

Do lado de fora ficava o bidon do petróleo. E quantas garrafas e garrafões enchi daquele líquido avermelhado e mal cheiroso, numa altura em que a iluminação, os fogões e os motores de rega eram essencialmente a petróleo.

Mas do lado de dentro do balcão, e para além da central telefónica, ficavam as tulhas onde se guardava o açúcar, o arroz e mais uns quantos produtos que eram vendidos ao quilo, dentro de uns pacotes de papel pardo.

O «Comércio» tinha de tudo e de tudo vendia e ali aparecia quase toda a aldeia a abastecer-se de quase tudo.

Lembro ainda as noites de televisão, quando muitos vizinhos ali iam para ver aquela caixa mágica que quase ninguém tinha em suas casas.

No interior do comércio havia ainda uma porta misteriosa que, quando aberta, revelava um buraco negro com umas escadas em madeira por onde se subia ao primeiro andar para dormir.

Devo ter brincado muito com os garotos da minha idade, junto à Capela e à Igreja ao domingo, junto à fonte, ou nas eiras, mas infelizmente tenho poucas recordações dessas brincadeiras e dos meus amigos dessa altura, o que lamento.

As minhas tias Gina e Rita já partiram há vários anos. As casas já foram vendidas e transformadas, mas as recordações, essas ficarão para sempre…

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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