O vinho e a religião

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

O fruto da vinha ocupa, desde os primórdios da humanidade, um lugar-chave na vida social. Pode dizer-se que o vinho está em tudo presente: na alimentação, nos rituais, no trabalho e na convivência. Como o vinho provém do trabalho na vinha, tarefa dura e exigente, ele emana da virtude.

O vinho faz parte do ritual litúrgico

A ingestão do precioso néctar é, na sua essência, um acto social, onde nem sempre foi cultivada a ideia da moderação. Ora, o perigo do vinho está precisamente na sua ingestão exagerada, para além da medida que o organismo requer. Em excesso, o vinho conduz à embriaguez e, consequentemente, ao descontrolo individual, daí se gerando, bastas vezes, nefastas consequências na reputação social do exacerbado bebedor. Na taberna o desavisado beberrão, a quem solenemente se flanquearam as portas, deve conter-se, impondo freio quando chega ao limite.

A Sagrada Escritura, no didáctico livro Eclesiástico, do Antigo Testamento, alerta acerca dos vícios da embriaguez: «O trabalhador dado ao vinho não enriquecerá». Mas logo acrescenta, variando: «Aquele que despreza o pouco (vinho) que tem cairá na miséria». Ou seja, o vinho é para alguns perdição mas para outros pode ser fortuna.

Do mesmo livro sagrado: «com o vinho não sejas fanfarrão, porque o vinho tem perdido muitos». Mas, de novo, se emenda a mão: «que vida é a do homem a quem falta o vinho, que desde o princípio foi criado para dar alegria?».

O ritual cristão deu mesmo ao vinho um papel primordial, em especial na Eucaristia, onde representa o sangue de Cristo. Os cânones impõem mesmo regras claras para o vinho que vai ao altar, que se distinguirá pela qualidade, não servindo para esse efeito qualquer zurrapa: deve provir de uvas maduras, não pode ser corrompido nem deve estar azedo ou apresentar mistura que o faça perder qualidade. Convém que seja preparado em casa do sacerdote ou por pessoa recomendada pela sua virtude ou piedade.

O mesmo não se passa com o Islão, religião que abomina o vinho e qualquer bebida alcoólica, por serem substâncias que levam os homens à perdição. E o Alcorão avisa os desprevenidos: «Ó vós que credes! Não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes ébrios, até que saibais o que estais a dizer».

Isto porque uma vez, um dos companheiros do Profeta conduziu as orações quando estava bêbado, misturando os versículos. Ora, como as orações diárias dos muçulmanos são cinco, já se vê ser difícil ter algum momento para beber, sem que o efeito do álcool se reflicta nas rezas. E assim se impôs a sua total proibição, declarando-se que «as bebidas alcoólicas são a mãe dos pecados».

Na cultura muçulmana não faz sentido o cultivo da vinha e a consequente existência de adegas e tabernas, ao contrário daquilo que acontece por entre os cristãos, autorizados e até incentivados a beberricar, ainda que moderadamente, para atingirem o dom da alegria e da convivência.
:: ::
«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

Deixar uma resposta