Passam os anos fica a saudade… (25)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

As férias de Verão nunca estariam completas sem uma semana em Vale de Espinho.

Cantareira e arca salgadeira das casas raianas - Capeia Arraiana

Chambaril, Cantareira e arca salgadeira das casas raianas

Metade da minha família, isto é. A família da minha mãe, incluindo a minha mãe, era de Vale de Espinho.

Ali conheci ainda a minha bisavó e ali moravam as minhas tias avós Gina e Rita, para além de muitos primos e primas.

Ir passar uma semana a Vale de Espinho era uma aventura com que sonhava durante todo o ano.

As minhas tias tinham um comércio que era como que um mundo maravilhoso onde me sentia um mágico.

Havia duas casas, uma em frente da outra. Numa delas ficava a cozinha com a lareira onde se cozinhava, a cantareira onde ficavam os cântaros com a água que íamos buscar à fonte, e a mesa e os bancos onde comíamos. Havia também um armário com portas em rede onde ficavam o queijo, o presunto e os enchidos.

Era também nesta casa que ficava o compartimento do sal, e quantos quilos de sal eu pesava nesses dias!

Hoje muitos já nem sabem esta questão do sal grosso, elemento fundamental para a preservação das carnes de porco, mas na altura (há 60 anos) a venda de sal era um negócio que tinha, normalmente, uma espécie de concessionário que, neste caso, era o meu tio Belmiro no Sabugal e as suas irmãs e minhas tias em Vale de Espinho.

Não havia luz elétrica e alumiávamo-nos com candeeiros a petróleo. A petróleo era também o fogão a que recorriam algumas vezes.

Era ali também que se amassava o pão, aquele maravilhoso pão centeio negro, como só comia em casa da minha avó!

Normalmente as refeições limitavam-se a um caldo e a pão com azeitonas, queijo, chouriça ou presunto. Às vezes batatas cozidas com «tomatada» ou em tortilha com ovos.

Se calhava estar lá na semana de cozer o pão, as minhas tias matavam um coelho que era assado no forno da aldeia ao mesmo tempo que o pão. Abençoado coelho, manjar dos deuses!

A casa em frente era, essencialmente, o comércio, mas deixemos isso para a próxima semana…

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ps. Esta semana viu partir uma figura que fazia parte da história do Sabugal dos últimos 60 anos. Falo da Milita, filha do dr. Adalberto.
Vou deixar de a ver no bar do Tó, quando ali ia tomar café. Vou deixar de ouvir a sua voz grossa «Atão sr. engenheiro, mais uma vez por cá?»
À sua irmã Lalita, à sua cunhada Manuela e a toda a restante família os meus sinceros pêsames.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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