Março quer-se marçagão

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Março é auspicioso e é um mês em que pode acontecer de tudo. Aos vinte dias conclui-se o inverno. Aos vinte e um já a primavera nos abraça. O dia oito homenageia as mulheres e o dia dezanove celebra o dia do pai. Às vezes março festeja a Páscoa. Este ano, só último dos seus trinta e um dias é dilatado pela hora legal.

Março mimoseia-nos com dias cálidos ou ventilados mas, uns e outros, prazenteiros

O céu noturno de março, ainda que escurecido pelo pretume da noite, permite visibilidades astrais. Março não é, portanto, um mês irredutível. Os dias tanto podem nascer em manhãs de invernia como desvanecer-se em tardes estivais. É um mês que pactua intimamente com o Interior Beirão e ambos se prestam à descoberta. Os dois nos propiciam contactos francos com a natureza aformoseada e, em conjunto, oferecem-nos silêncios montesinos. Mimoseiam-nos com dias cálidos ou ventilados mas, uns e outros, prazenteiros. Concedem-nos cores que nos enfeitiçam, vistas que nos fascinam e odores que nos seduzem. Disponibilizam-nos ambientes insinuantes e são plurais nas atividades que outorgam.

Pondere-se, numa soalheira tarde de março, a possibilidade de seguir, a pé, por um dos muitos caminhos de terra cor de areia, orlados de valetas viçosas que se adentram nos campos beirões. A meio do percurso, pode adotar-se uma pedra para assento e colher a quentura do sol ou o frescor da brisa enquanto se observa a paisagem cogitando ou relaxando no remanso do tempo. Os verdes encher-nos-ão a alma. Os amarelos cheirar-nos-ão a maias. A formosura refletir-se-á na abreviada mansidão das águas. Se o sítio for alto lucrar-se-á um enorme desafogo lá, de onde, se poderá abraçar o mundo.

Em alternativa, pode optar-se pela visita a um desses pequenos lugarejos que resistem à desertificação pontuando a paisagem com cores de povoado e partilhar espaços, participar nos sorrisos, reconhecer hospitalidade nos rostos, apreciar a adorável simbiose gente/terra.

Mudam-se os tempos, sim, e também as vontades. Mas não muda a beleza que alaga campos e casas num março risonho e beirão. Tão pouco se altera a genuína qualidade da gastronomia tradicional. Ainda é possível degustar sabores intensos e antigos. Ainda se consegue provar comida que evoca tradições, que só fala português e que é um tributo à nossa cultura.

Disfrutemos, então, este mês, aqui pela Beira Interior, enquanto a primavera principia ainda que desabrida ou agreste. É que março também se quer marçagão.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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