O vinho do pobre

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Antigamente nas nossas aldeias, o pobre, que não podia passar sem vinho, deborcava toda a zurrapa que lhe viesse aos queixos, fosse ela oferecida ou comprada a baixo preço na taberna.

Bebendo pela borracha (ou bota)

O povo atesta, no seu saber, que a lei do pobre é comer antes que sobre. O adágio dá também para a bebida, principalmente o vinho, que, em tempos idos, escasseava de portas adentro e também faltavam trocos para o beber na tasca.

Isso passava-se com os jornaleiros, os mais pobres das vivências de antigamente nas nossas aldeias. Nada tinham de seu, estes trabalhadores incansáveis das veigas, vinhas e tapadas, que não fosse a força braçal, tão útil para os trabalhos da gente abastada. Ademais, o assalariado era o habitante desditoso da aldeia, tirando o pedinte, que em extrema necessidade andava de porta em porta, e o cigano errante, que não tinha casa nem poiso certo.

Acontecia que o jornaleiro não trabalhava de seco, por não ter posses para preparar, sequer, uma frugal merenda. Comia aquilo que o patrão lhe dispunha em cada ocasião, como era de lei…

Ora, como os ricos são, via de regra, avarentos, o pobre jornaleiro via-se afrontado com a côdea rija, sem conduto, às vezes somente acompanhada por uma malga de água, onde amolecia o pão. Claro que o homem logo reclamava que lhe faltava a pinguinha, para ter forças, lançando, se caso fosse, o ultimato de que, sem vinho, não tocaria mais na enxada nem na rabiça do arado.

E o amo, temente da revolta do cavador, dispunha-lhe o vinho das borras do pipo, ou algum fundo de garrafão já muito avinagrado. Assim tentava conter-lhe a rebelião e dar-lhe o alento necessário para a boa execução dos trabalhos.

Acontece, todavia, que nem sempre o homem do povo era leigo em matéria de vinhos. Jornaleiros havia que exigiam boa pinga durante a jornada de trabalho. E, se o trato não era bom, havia um anexim apropriado a defender a sua fraca produtividade: Pão bolorento, vinho vinagrento, sardinha salgada, cava tu enxada!

Sem o bom trato do físico, o cavador não passava do «pé de pessegueiro», para indignação do amo, que repetidamente o admoestava, sem que, contudo, obtivesse resultados práticos.

Aqui valia a perspicácia da patroa, conhecedora das manhas e artimanhas dos que serviam a casa. Enfiava no bornal do trabalhador uma borracha de vinho tirado do pipo grande, do qual o seu homem se servia. O demais, no que toca à mastiga, continuava igual: um tranqueiro de pão duro e bolorento, meia sardinha, conservada à força de sal, e uma tira amarelada de toucinho, já pegada do ranço.

A mudança era absoluta. A vinha ia sendo cavada, com avanços assinaláveis, com o cavador em constante frémito, cantando que nem um lírio enquanto movimentava a enxada. Doido de alegria, erguia, a espaços, a borracha, cuja barriga apertava com uma das mãos, segurando com a outra o bojo para apontar o jorro à boca escancarada.

Se o bom vinho ressuscita o peregrino, igualmente dá energia ao trabalhador, para que prossiga a sua tarefa, esquecendo o desalento advindo da sua condição de pobre.
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«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

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