A esperteza de um doido

Certo domingo, ao sair da missa das onze, padre Zacarias atravessava o adro por entre os seus fregueses descobertos, quando um homem, por todos considerado alienado, lhe tomou o passo e lhe disparou uma pergunta.

Todos os Domingos são Santos?

– Senhor padre vigário, todos os Domingos são santos?
– São filho – disse-lhe o padre condescendente – a Igreja os declarou como tais, não há que duvidar.
– Mas, senhor padre – torna-lhe o doido – é verdade que vossa paternidade é muito entendido, mas nisso parece-me que está enganado.
– Não filho – tornou-lhe o sacerdote com paciência – tão santos são os domingos que até neles nada mais se deveria fazer do que consagrá-los a Deus por meio de orações e obras piedosas.
– Pois nunca pensei que o senhor padre se enganasse com tanta facilidade.
– Oh, filho, adeus, adeus. Que S. José seja o teu advogado, para que te dê juízo na vida e na hora da morte – disse-lhe o padre, que estugou o passo para se livrar da companhia.
– Ó senhor padre, diga-me, pelas chagas de Cristo, se acredita que o Manuel Domingos, o Inácio Domingos e o Domingos Teixeira, lavradores cá da terra, sejam santos?
– Ó filho, que Deus te abençoe, apesar de doudo, tens mais esperteza do que eu supunha!
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Histórias de Almanaque, por Paulo Leitão Batista

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