Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (10)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 10).

Terras por onde andou o Franklim - Capeia Arraiana

Terras por onde andou o Franklim no Verão de 1968 – Mapa da Escandinávia e alguns países da ex-URSS

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

Verão de 1968

>> De 2.7.1968 a 23.9.1968 – A mãe de todas as viagens e aventuras à boleia <<

Lisboa – Espanha – França – Bélgica – Holanda – Alemanha – Dinamarca – Suécia – Noruega (até ao Cabo Norte) – Finlândia – Rússia – Polónia – Checoslováquia
Alemanha Oriental e Ocidental – França – Espanha – Quadrazais

Franklim no marco do Círculo Polar Ártico

Franklim no marco do Círculo Polar Ártico


Franklim numa cabana de esquimós

Franklim numa cabana de esquimós


2.ª parte – Da Lapónia à entrada na Rússia

27.7.1968 – Dormi no albergue de Krakmo, que fica a 360 quilómetros a norte de Mosjoen. Creio que foi neste albergue que encontrei o francês Marcel Berthier, uns dois anos mais novo que eu, de Dijon, nascido na Argélia, que também viajava sozinho rumo ao Cabo Norte e que me acompanhou até Rovaniemi, já de regresso a casa pela Lapónia finlandesa (ver foto). Encontrámos duas suíças, mas elas apanharam boleia logo de seguida dentro dum barco, enquanto nós continuámos a penar. Aqui não havia igualdade de oportunidades para homens e mulheres!

Franklim com o Marcel - Capeia Arraiana

Franklim com o Marcel

Cheguei a Narvik, a 510 quilómetros de Mosjoen e a 230 kms a sul de Tromso, numa carrinha de caixa aberta duns comerciantes de peles de rena.

No cruzamento de Bierkvik, um pouco acima de Narvik, onde nos deixou esse comerciante, que virou à esquerda da nossa rota, talvez para alguma quinta, juntou-se a nós uma moça francesa. Fizemos fogo com tábuas de protecção do caminho de ferro, que estavam caídas. Não demos conta de ter passado nenhum carro, mas a moça desapareceu. Era noite-dia. O Marcel tinha um pequeno tacho, derretemos nele um pedaço de neve e fizemos um chá quente, que ajudou a levantar o ânimo. Esperámos umas duas horas e apareceu a camioneta que nos havia trazido para ali. Tomaram-nos outra vez, mas na carroçaria. O vento provocado pelo andamento era tão frio que tivemos de bater no vidro para pararem. Tiveram pena de nós e lá nos encaixaram dentro do carro. Iam dois, passaram a ir quatro, ao colo uns dos outros. Mais uma vez encontrei gente boa, compreensiva e compassiva. Levaram-nos até Olsborg. Como já não havia ferry para atravessar o fiorde, tivemos de aguardar pela manhã seguinte num parque de campismo. Por não termos tenda, dormimos na cozinha, a pedido do condutor que nos levou. A condição que nos impôs o responsável do campismo foi que teríamos de ser os últimos a deitar-nos e os primeiros a levantar-nos. Cumprimos à risca. Que bem que soube o quentinho da cozinha com as portas encostadas, já que nos haviam proibido de as fechar!

28.7.68 – Continuámos viagem com os comerciantes de peles até Tromso. Dormimos no albergue de Tromso, cidade a 350 quilómetros acima do círculo polar ártico, uns 390 quilómetros a norte de Krakmo.

Marinheiros que nos levaram de Tromso a Skaidi - Capeia Arraiana

Marinheiros que nos levaram de Tromso a Skaidi

29.7.68 – Após o almoço, um grupo de marinheiros já borrachos deu-nos boleia numa 4L até Skaidi (ver foto), a 385 quilómetros de Tromso. Era um grupo que já havia conhecido em Nacka, perto de Estocolmo, ao qual pertencia Gro Larsen e Leif Hansen.

Franklim atravessando um fiorde - Capeia Arraiana

Franklim atravessando um fiorde

30.7.68 – Chegámos de madrugada a SKaidi, junto do Reppardfjord, na província de Finnmark, no cruzamento para Hamerfest. Aí parecia que Íamos morrer de frio. Não levávamos roupa adequada. Fizemos fogo dentro de uma casa em construção. Depois, quando uma pousada em frente abriu de manhã, entrámos, aquecê-mo-nos e dormimos lá. Fomos a Hamerfest a pé por entre lama e neve e receberam-nos num barco, onde o comandante nos ofereceu um chá quente. Regressámos a Skaidi e continuámos a pé para o cruzamento de Russenes. Seguindo pelo caminho à esquerda para Russenes, chegaríamos ao Cabo Norte. Carros, nem vê-los.
O frio era muito e havia neve por todo o lado (ver foto). Mas isso não impedia que houvesse algum degelo e surgissem mosquitos aos milhões, de ferrão comprido, como melgas. Uns franceses que regressavam a casa vindos do Cabo Norte haviam-me avisado no albergue de Oslo que devia comprar um produto para os mosquitos. Tomei aquilo como piada, pois não imaginava mosquitos em locais tão frios e não o comprei. Lastimei não ter seguido o conselho. Eram tantos os mosquitos ou melgas que nos atacavam, que nos vimos obrigados a matá-los nas nossas caras às lambadas um ao outro. Atacavam sobretudo na cara, pescoço, cabeça e pernas, mesmo por cima de jeans. Passados dois meses de estar em Lisboa ainda deitava sangue nas feridas das pernas. Uma vez vi na televisão em Lisboa um jogo de futebol no norte do Canadá e colados ao écran surgiam esses inimigos. Eram iguais aos que me atacaram. Fiquei-lhes com raiva de morte.
O Marcel, com frio e farto de picadas, deitou-se numa cova ao lado do caminho e não queria continuar. Tive de puxar por ele e obrigá-lo a caminhar. Perante estas adversidades, decidimos não ir ao Cabo Norte, cujo caminho era à esquerda da estrada de terra batida em que estávamos. Faltavam uns quatro ou cinco quilómetros, mas decidimos continuar para a Finlândia. Teríamos de ir a pé, pois, de carros, nem cheiro!

Franklim na solidão da neve por todo o lado - Capeia Arraiana

Franklim na solidão da neve por todo o lado

31.7.68 – Andámos mais uns quilómetros a pé. Parámos numa quinta habitada por duas moças perto dos 30 anos, talvez em Lakselv, onde dormimos num armazém de madeira, com 20 peles de rena, umas por baixo e outras por cima, tanto era o frio. Foi um consolo! Como não sabíamos nada de Finlandês, fizemos gestos cómicos a dizer que pedíamos para dormir ali e comprar leite. Indicaram-nos o armazém de madeira onde guardavam as peles de rena. Comprei uma e uns cornitos, já que os bonitos com muitas galhas eram muito largos e não cabiam nos carros. Ainda experimentei uns cornos bonitos de outra quinta no carro que nos levava, mas não cabiam e tive de desistir deles. A pele e os cornitos enviei-os para Paris pelo sueco e a francesa de que falarei mais tarde, para a casa da quadrazenha senhora Marquinhas, amiga da família, que habitava uma barraca decente em Ivry.

Carimbos do passaporte (Karigasniemi Tuli e outros) - Capeia Arraiana

Carimbos do passaporte (Karigasniemi Tuli e outros)

1.8.68 – Atravessámos a fronteira da Noruega para a Finlândia em Karasjok – Karigasniemi Tulli a 100 quilómetros de Inari (ver carimbo). Seguimos caminho para Inari, na Lapónia Finlanesa, onde dormimos no albergue.

2.8.68 – Continuámos para Ivalo. Creio que foi aqui perto que fomos a um baile. Era de dia, apesar de, nos relógios, já ser meia-noite. Por isso, não nos preocupámos em dormir. Continuámos para Rovaniemi, a 326 quilómetros de Inari, onde chegámos por volta das 14 horas. Aqui, já perto de nos separarmos, fomos a um restaurante comer um bife de rena. Continuámos para Haparanda, na fronteira da Suécia e Finlândia. Antes de chegar a Haparanda, o Marcel desceu por Kémi, na Finlândia. Eu entrei na Suécia.

4.8.68 – Tenho um grande carimbo de trânsito no passaporte em Haparanda e um pequeno (ver imagem). Segui para Luleo a 130 quilómetros. Em Luleo, em cima de uma ponte, apanhei boleia com um casal, ele sueco, ela francesa, leitora em Luleo. Levaram-me a casa da mãe dele, a senhora Judite, e depois perguntaram-me se tinha passaporte. Disse-lhes que sim. Arrancaram comigo e mais um irmão dele, mais novo, e levaram-me a um supermercado. Receei que fossem abastecer-se e depois tivesse de ser eu a pagar. Mas tranquilizaram-me. O que queriam era usar o meu passaporte para carregar carrinhos de garrafas de vinho e bebidas brancas. Provavelmente, a rapariga francesa, que também teria passaporte, não o queria usar para esse fim, por decoro. Sabido é que os suecos têm grandes restrições na compra de álcool. Saímos com a carga e fomos para uma casa de madeira na floresta, a poucos quilómetros, propriedade da mãe do sueco. Cozinharam algo e bebemos até mais não querermos. Eu estava habituado a beber e aguentei, embora já com um grão na asa. Eles apanharam uma bebedeira de se lhe tirar o chapéu. Antes de nos deitarmos, o mais novo foi lá fora deitar o lixo e a cinza da lareira num latão. Pelos vistos, na cinza ainda havia lume, pelo que, com o vento, a floresta começou a arder. Vieram os bombeiros e dirigiram-se a mim. Como verificaram que eu não os compreendia, falaram com o sueco. Acabaram por apagar o fogo e ir-se embora. No dia seguinte eles seguiram viagem comigo na sua carrinha Volkswagen em direcção a Estocolmo, onde chegámos ainda de noite. Apenas parámos uma meia hora no caminho para darem de comer a uma gata que os acompanhava e que se ia perdendo. Andámos uns 900 quilómetros. Eles iam para Israel e convidaram-me a ir com eles. Agradeci, mas recusei, já que o meu itinerário era seguir para a Rússia. Seriam mais uns bons 4.000 quilómetros até Israel. Pedi-lhes, apenas, que me levassem a pele de rena e os cornitos para Paris e os entregassem à senhora Marquinhas, uma quadrazenha amiga, que vivia em Ivry, nos arredores de Paris.

6.8.68 – Como já havia visitado Estocolmo na subida para o Cabo Norte, atravessei para Turku de barco e segui para Helsinki. Dormi numa tenda dum grupo de franceses. Não havia lugar no albergue.

7.8.68 – Estive uns 12 dias em Helsinqui à espera que a embaixada da Rússia me desse o visto, com a entrega de 12 fotografias. Até dentro da cidade pedi e apanhei boleia até à embaixada da Rússia. Conheci a Sirkka que me deu dormida em sua casa. A mãe apenas disse «lava os lençóis amanhã», frase que me impressionou pelo contraste com Portugal. Em 1969 haveria de ir a Marrocos com a Sirkka, uns três anos mais velha que eu. Visitei Helsinki e, como tinha de esperar vários dias pelo visto, fui dar uma volta pela Finlândia.

8.8.68 – Fui a Tampere, onde dormi no albergue.

Franklim numa corrida de cavalos com atrelado em Waasa. - Capeia Arraiana

Franklim numa corrida de cavalos com atrelado em Waasa

9.8.68 – Segui para Vaasa, onde assisti a uma corrida de cavalos com atrelado, de que tenho fotos. Eu emprestei a minha Canon ao grupo do Matti. Revelaram o rolo, deram-me um novo e enviaram-me as fotos que já tinha tirado (ou revelaram-nas e deram-mas lá). (Ver foto.)

Continuei para Juvaskyla, onde fiz sauna verdadeiro junto de brasas de carvão. Mal me encostei à porta. Esta queimava. Era necessário ir batendo nas costas com um ramo de loureiro. Quase ia morrendo, se outros dentro do sauna, vendo-me a adormecer, não me tivessem feito sair e atirar-me para uma vala de água gelada. Esta operação repetiu-se umas três vezes. Ao sair do sauna fui ter com uma moça de 16 ou 17 anos, a Mila, muito bonita, que me esperava na escadaria do albergue, e tive amores com ela num campo de erva alta. Tenho carimbo sem data de Jyvaskyla Retkeilymaja (albergue da Juventude).

10.8.68 – Continuei depois para Lahti e Helsinki. Em Helsinki vi o estádio olímpico, o Teatro Nacional e a rua do comércio Aleksanterinkatu. De 10 a 12 de Agosto andei por Helsinki à espera do visa, certamente, dormindo no albergue Stadionin Maja, de que tenho carimbo sem data.

13.8.68 – Obtive visa da Polónia em Helsínquia. O da Checoslováquia já o havia obtido em Paris em 9 de Julho. Em 14 de Agosto continuei em Helsinki.

15.8.68 – A Intourist, agência de viagens estatal russa, deu-me um papel com o itinerário de comboio que deveria seguir: a 21 de Agosto viagem para Leningrad, em carruagem com lugar para dormir; à noite viagem para Moscovo, em carruagem com lugar para dormir; em 22 e 23 de Agosto, hotel Berlin em Moscovo com quarto single; em 23 de Agosto à noite viagem de Moscovo para Kiev em carruagem com lugar para dormir; em 24 de Agosto à noite viagem para Brest em carruagem com lugar para dormir.

Vouchers para hotéis e viagens na Rússia - Capeia Arraiana

Vouchers para hotéis e viagens na Rússia


Factura de pagamento á Agência de Viagens Lomamatka - Capeia Arraiana

Factura de pagamento á Agência de Viagens Lomamatka


16, 17 e 18 de Agosto – Gastei-os em Helsínkia à espera do dia da partida, certamente, no albergue da juventude (stadionin maja), de que tenho carimbo.
No meu programa de viagem rabiscado em Lisboa deveria entrar na Rússia a 16 de Agosto. A realidade da viagem acabou por ser esta:

19.8 – a agência Lomamatka entregou-me os vouchers da viagem à Rússia e hotéis. Paguei 350,20 rublos (creio que foram rublos, ou talvez dólares ou marcos finlandeses). Um dólar valia 8,9 rublos.

20.8 – Parti de comboio para Leninegrad pelas 20:25 horas, saindo da Finlândia por Lahtenyt (Vainikkala) já após a meia noite e, portanto, já em 21.8.

21.8 – Entrada em Viborg, fronteira da Rússia com a Finlândia. Tive de ir de comboio para Leningrad (hoje S. Petersbourg), depois de me darem a escolher-ir de avião ou de comboio. Boleia não era permitida.

(Fim da Etapa 10.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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