Argumentação engenhosa

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Todo o sistema político, toda a ideologia, ou seja todo o sistema de poder tem um código semântico, uma maneira própria de falar.

Péricles - Oração fúnebre anual sobre os mortos na guerra - Capeia Arraiana

Péricles – Oração fúnebre anual sobre os mortos na guerra

Mas a palavra não serve só para elucidar, serve também para confundir e para mentir, principalmente agora em que a comunicação social já tem mais poder do que o poder político. Vou dar-lhe um pequeno grande exemplo deste poder: Franklin Roosevelt, enquanto Presidente dos Estados Unidos da América foi entrevistado um dia, na Casa Branca, por diversos jornalistas, sentada num sofá a assistir à entrevista esteve a sua amante, ninguém a fotografou ou se referiu a ela na comunicação social da época. Passados uns anos, Bill Clinton esteve quase a perder a Presidência por causa do affaire Monika Lewinsky.

Vamos ao discurso politico dos dias de hoje, ao discurso do poder politico, económico social e cultural do Neoliberalismo, começo por dizer que é um discurso prostituído, a verdade está ausente na maior parte das vezes, tudo não passa de retórica barata, publicidade e propaganda. Vejamos dois pequenos excertos de dois discursos idealizados por mim, numa hipotética campanha eleitoral para a Câmara Municipal do Sabugal:

Candidato A:
«(…) esta nossa amada terra perdeu em trinta anos, e devido principalmente ao grande surto migratório, vinte e cinco mil dos seus filhos, éramos na década de cinquenta do século passado, quarenta e quatro mil! Nos anos oitenta passamos a dezanove mil, e presentemente seremos uns doze mil, mas prometo-vos solenemente, se for eleito, voltar a encher esta terra de gente! Voltaremos a ser os mesmos quarenta mil!!! Ou ainda mais!…(…)»

Candidato B:
«(…) só vos digo a verdade, e a verdade é esta: se for eleito, a vida na nossa terra não mudará substancialmente, sei que vou encontrar situações extremamente complexas, casos irresolúveis como o despovoamento e o êxodo dos mais jovens, interesses instalados já há muitos anos, e outros grandes problemas. O meu opositor diz coisas mirabolantes, coisas em que nem ele acredita (…)»

Querido(a) leitor(a), o vencedor penso que seria o «candidato A» porque presentemente o discurso politico é feito de frases simples, mas de grande efeito, ou seja, transformar a complexidade e dificuldade da governação, em coisas fáceis de concretizar. O «candidato A» é o protótipo desta facilidade, um verdadeiro apologista da retórica barata.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

2 Responses to Argumentação engenhosa

  1. Fernando capelo diz:

    Pois é amigo Nabais! Eu também estou convencido que muitos dos problemas de hoje assentam no “barato” da nossa sociedade.
    Abraço.

  2. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Rege-nos a mediocridade…

    Um abraço do António Emídio

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