As rodeiras

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

«Aquele que ignora o seu passado está condenado a revivê-lo.» – Marc Block. Sortelha tem uma dívida histórica para com a rodeira Maria Gonçalves! Isto acreditando que os políticos, Juiz de Fora e os diversos párocos não eram uma cambada de incompetentes e corruptos!

Miradouro dos Quatro Ventos – Sortelha

A rodeira era a mulher responsável pelo serviço da Roda. Tinha a incumbência de recolha dos expostos e a sua distribuição pelas amas.
Lista das rodeiras de Sortelha:
Em 1829 – Roza da Fonseca(1)
Em 1832 – Maria Escolástica(2)
Em 1851 – 1855 – Maria Gonçalves(3)
Em 1855 – Tereza Correia(4)

A penúltima rodeira de Sortelha
Maria Gonçalves: “A mãe dos Expostos ou Enjeitados”.
Como foi possível que uma Aldeia Histórica tenha deixado cair no esquecimento aqueles que, pelos atos de humanidade praticados em vida, deviam servir de exemplo para todos?
Sabemos que nestas paragens santos da terra não fazem milagres! Seria bom que se mudassem as mentalidades e se valorizassem os filhos da terra!
Maria Gonçalves era natural de Sabugal, filha de Ignácio da Costa e de Maria Gonçalves(5), tendo casado com João Barreiros, de Sortelha, filho de Pedro Barreiros e Roza Martins Lopes. Foi nomeada Rodeira da vila de Sortelha, na Sessão da Câmara Municipal de Sortelha, de cinco de Novembro, de 1850,(6) cargo que ocupou até 1855. Enquanto exerceu as referidas funções, foram batizados oito Expostos a “criar pela ama Maria Gonçalves”(7), tendo sido também madrinha de batismo de outros tantos. Imagine-se este quadro num tempo de miséria! Como seria a vida deste casal? Nesta altura foi avó diversas vezes. Existem registos de batismo dos filhos de Felipina(8), António(9), Alexandre(10) e Matilde(11) em que é referido neto materno/paterno de Maria Gonçalves e João Barreiros. Aquela casa mais parecia tratar-se de um Jardim de Infância.
Faleceu em vinte de setembro de 1864.(12)

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

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PS. Em 1823 a rodeira terá sido Roza Lopes. O estado de degradação dos documentos, a desordenação e as consequentes dificuldades de consulta não permitiram a confirmação!
Seria bom que após a divulgação da informação sobre a família de Maria Gonçalves e João Barreiros surgissem novos contributos para a história de Sortelha.
1- A – Arquivo Distrital da Guarda, Fundo da Câmara Municipal de Sortelha, Caixa n.º 001, “Livro dos Expostos – 1828 – 1838”, folha 63.
2- Arquivo Distrital da Guarda, Fundo da Câmara Municipal de Sortelha, Caixa n.º 001, “Livro dos Expostos – 1828 – 1838”, folha 99.
PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0031.TIF
3- Arquivo Distrital da Guarda, Registos Paroquiais de Sortelha – Baptismos, consultável em:
“José filho de pais incógnitos, foi solenemente baptizado no dia dezassete de Agosto de mil outo centos e cinquenta e dois, na Igreja de nossa Senhora das Neves matriz desta freguesia de Sortelha forão padrinhos João Antunes, e Maria Gonçalves, mulher de João Barreiros Rodeira dos Expostos, e ainda de este testemunhas as que abaixo vão assignadas, de que mandei fazer este Termo, que assignei dia mês e ano ut supra. Testemunhas e padre: João Gonçalves, Serafim Leite, Manoel Guimarães. O Vigário Luís Leitão.”

Exposto José


4- Arquivo Distrital da Guarda, Registos Paroquiais de Sortelha – Baptismos, consultável em: PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0072.TIF: “No dia dezassete de Maio de mil outo centos e cincoenta e cinco me foi apresentado na Igreja Matriz desta freguezia hum exposto que tinha sido deitado na Roda desta Villa conduzido pella propria Rodeira Thareza Correa o qul eu baptizei solenemente e lhe puz o nome de Honorato e servi de Padrinho do dito Exposto. Forão testemunhas os abaixo assignados. E por verdade fiz este termo que assigno dia mez e anno ut supra.
Testemunhas: Manoel Leal, João Motta
O vigário Encomendado Joaquim de Sequeira Leal”
É este documento que permite afirmar que Teresa Correia foi a última rodeira de Sortelha, cargo que terá exercido poucos meses.
5- Arquivo Distrital da Guarda – Rolo 0854/260: Livro de Registos de Baptismos, refere-se: Felipina, filha de João Barreiros, de Sortelha, e Maria Gonçalves, de Sabugal; neta paterna: Pedro Barreiros e sua mulher Roza Martins Lopes, de Sortelha; neta materna: Ignácio da Costa e Maria Gonçalves do Sabugal.
6- Arquivo da Câmara Municipal de Sabugal, “Sessões da Câmara de Sortelha 1850-55””: Sessão de 5 de Novembro de 1850 – “Nesta sessão foi determinado o nomearem nova rodeira, visto que a velha por doença se achava impossibilitada para poder continuar a servir à vista do que nomearão para o dito emprego a rodeira Maria Gonçalves desta vila ….”
7- Expressão utilizada nos diversos Registos de Batismos.
8- Arquivo Distrital da Guarda; Sortelha – baptimos 1862, Assento n.º 13, em 09-03-1863 – José, filho natural de Luís Martins, solteiro, e Felipina Gonçalves, solteira; nepto paterno de Silvério Martins e Constança Seixas; materno de João Barreiros e Maria Gonçalves …
9- Arquivo Distrital da Guarda; Cx 82 – Registos Paroquiais de Sortelha – baptimos 1862, Assento n.º 10 ( Assento n.º 10, em 29-05-1862 – Mónica, filha de António Barreiros, lavrador e Francisca Maria, fiadeira, moradores na Rua das Palmeiras, Arrabalde; nepta paterna de João Barreiros e Maria Gonçalves; materna de João Ramos e Agostinha Maria …”
10- Arquivo Nacional da Torre do Tombo: Registos Paroquiais de Sortelha – Livro de Registos Baptismos, ou em PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0004.TIF: “José filho legitimo de Alexandre Barreirros e de sua mulher Luiza Leal, neto paterno de João Barreiros e sua mulher Maria Gonçalves todos desta vila de Sortelha, freguezia de Nossa Senhora das Neves; e materno de José Leal da Assumção natural do lugar da Bendada e de sua mulher Izabel Bairras desta villa de Sortelha ……
11- Arquivo Nacional da Torre do Tombo: Registos Paroquiais de Sortelha – Livro de Registos Baptismos, ou em ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0089. TIF: Francisco filho legítimo do primeiro matrimónio d’ambos de Luiz Leal e Mathilde Gonçalves, neto paterno n(no original está no feminino) de José Leal d’Assumpção e Izabel Bairras e materna (o) de João Barreiros e Maria Gonçalves ….”
12- Arquivo Distrital da Guarda – Livro de Óbitos de Sortelha – Sabugal, Caixa 83, Assento n.º 15 – em 21/09/1864: “Aos vinte e um dias do mez de setembro, do ano de mil oitocentos e sessenta e quatro, às duas horas da manhã, em sua própria, nesta freguesia de Sortelha, concelho de Sabugal, diocese da Guarda, faleceo, tendo recebido os sacramentos da Santa Madre Egreja. Um indivíduo do sexo feminino, por nome Maria Gonçalves, de idade sessenta e seis anos, pouco mais ou menos, viúva de João Barreiros, natural do Sabugal, Bispado de Pinhel, filha legítima de … cujos pães se ignorão, não fez testamento, deixou quatro filhos, e foi sepultado no cemitério público. E para constar lavrei em duplicado este assento, que assigno. Era ut supra. O parocho Manoel da Cunha.”

3 Responses to As rodeiras

  1. José Carlos Mendes diz:

    Bela peça, muito informada, muito combativa – no melhor dos sentidos. Maria Gonçalves devia ter nome de rua em Sortelha, pelo menos. Mas acredito que até hoje ninguém no Poder Local tenha ouvido falar dela. A partir daqui, não há desculpa…
    Agradeço a oportunidade que me deu, António, de tomar conhecimento deste sector da vida em tempos de outrora.
    Não desista: vá até ao fim.
    A malta está a gostar: por exemplo: neste momento, este texto é o mais lodo do «Capeia». Sintomático.
    Obrigado.

    • António Augusto Gonçalves diz:

      Muito obrigado pelo incentivo.
      Há muito trabalho para realizar na recuperação e preservação do património da nossa região.
      Um abraço.
      António Gonçalves

  2. leitaobatista diz:

    Julgo que a CM do Sabugal tem o dever de olhar para esta investigação que o António Gonçalves realizou com todo o interesse. Trata-se da história do nosso concelho (do antigo concelho de Sortelha cujo território hoje integra o do Sabugal).
    Para além do aprofundamento deste estudo, importaria promover o estudo dos demais antigos concelhos que hoje fazem parte do município do Sabugal: Vila do Touro, Vilar Maior, Alfaiates e Sabugal. Não podemos ficar indiferentes a tão importante manancial de informação sobre o nosso passado histórico: qual a dimensão do fenómeno dos enjeitados ou expostos? Quantos meninos foram deixados nas rodas? Qual o futuro deles? Que papel desempenharam realmente as Misericórdias? Quem foram as rodeiras que e as amas? Que apoios as câmaras davam?…
    Sugiro: peçam ao António Gonçalves para aprofundar e alargar estes estudos, mediante um apoio para esse efeito – estas aturadas investigações exigem tempo e muita paciência, mas são fundamentais para conhecermos o nosso passado.
    Reproduzo a citação que ele fez no início deste artigo, por ser mesmo pertinente: «Aquele que ignora o seu passado está condenado a revivê-lo.» – Marc Block.
    paulo leitão batista

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