Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (09)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 09).

Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1968

>> Viagem no Carnaval – De 25 de Fevereiro a 3 de Março de 1968 <<

Mais uma vez foi ver a Annie a Parthenay. Desta vez fui de comboio por causa da chuva e do frio, que tornariam a boleia difícil e dormir ao ar livre seria impossível. Por isso não tenho carimbos no cartão dos albergues.

24.2.68 – Saí de Lisboa à tardinha do dia 24.2.68, um Sábado, de comboio. Entrei em Vilar Formoso na madrugada de 25 de Fevereiro. Passei o dia no comboio, atravessando a Espanha, com transbordo em Medina del Campo. Devo ter saído do comboio em Poitiers, em 26 de Fevereiro, e ter ido de boleia até Parthenay a 53 quilómetros. Aí, certamente, fiquei na pensão habitual. Passei os dias com a Annie e recebi dela os habituais carinhos e ela os meus.

27.2.68 – Era Terça-feira de Carnaval. Fomos a um baile de Carnaval em Poitiers, juntamente com uma colega dela, filha dos donos das caves de cognac em Niort, que nos levou no seu Renault vermelho a alta velocidade. Levado pelo ciúme e para defesa da honra, envolvi-me numa ligeira cena de pugilato com um francês que ousou beijar a Annie. Regressámos a Parthenay já tarde.

28.2, 29.2 e 1.3 – Passei-os com a Annie.

2.3.68 – Fui de boleia para Poitiers e aí devo ter apanhado o Sudexpresso. Passei a noite no comboio. Lembro-me que era noite quando fiz transbordo em Medina del Campo.

3.3.68 – Domingo. Entrei em Fuentes de Oñoro-Vilar Formoso e segui para Lisboa.
Foi a última vez que vi a Annie. Terminámos o namoro. Soube por um colega dela que frequentava um curso de Verão em Lisboa que ela se tinha envolvido com um grego.

>> Verão de 1968 (2.7 a 23.9) – A mãe de todas as viagens e aventuras à boleia <<

Lisboa – Espanha – França – Bélgica – Holanda – Alemanha – Dinamarca – Suécia –
– Noruega (até ao Cabo Norte) – Finlândia – Rússia – Polónia – Checoslováquia –
– Alemanha Oriental e Ocidental – França – Espanha – Quadrazais

De 2.7 a 23.9.68 – Não sei ao certo quantos milhares de quilómetros terei feito, mas percorri, seguramente, uns catorze mil quilómetros ou mais. Por ser tão longa no espaço e no tempo – de 2 de Julho a 23 de Setembro de 1968 – preparei-a ao pormenor, munido de mapas de todos os países por onde viajei. Ainda os conservo, alguns já meio desfeitos de tanto uso. No entanto, a realidade nem sempre corresponde ao planeado. Basta não apanhar uma boleia para o local planeado ou desviar-me um pouco da rota forçado pelas circunstâncias para tudo ficar alterado. No caso da Noruega, os fiordes com as suas complicações de falta de ferry-boats mudam todos os planeamentos. O tempo perdido na Finlândia a aguardar vistos para a Rússia foi outro factor de grandes alterações. A invasão da Checoslováquia em 20 de Agosto complicou-me os planos.

Nos mapas surgem estradas como sendo parecidas às da Europa do sul. A realidade é que, a partir de certa altura, as estradas passam a ser de terra batida, muitas vezes lamacenta, sem possibilidade de alcançar velocidades semelhantes às das boas estradas.

1.ª parte – de Lisboa ao Círculo Polar Ártico

Em 3.7.68 – Após ter acabado o meu curso de Românicas, saí de Portugal por Vilar Formoso, vindo talvez da minha aldeia, e entrei em Espanha por Fuentes de Oñoro. Não tenho mais carimbos no passaporte para entrar em França. Segui, certamente, por Salamanca, Valladolid, Burgos, Vitória, San Sebastian, Irun e entrei em Hendaye. Não devo ter apanhado boleias de longos percursos, já que demorei quatro a cinco dias a atravessar a Espanha, numa distância de 590 quilómetros, fazendo, pois, uma média de cento e poucos quilómetros por dia. Nem sempre as coisas correm como desejamos.

O facto de não colocarem carimbos no passaporte não ajuda a refazer a viagem. As únicas ajudas são os carimbos no cartão dos albergues, o meu livro dos albergues da juventude, onde fazia raras anotações, os meus mapas já velhinhos e a minha memória ainda muito boa. Que Deus ma conserve!

8.7.68 – Seguia num carro de emigrantes portugueses, talvez desde Handaye, que iam ficar em Bordeaux. Estava uma bicha enorme. Parece-me que chuviscava. Como eu ia para Paris, vi que o carro que vinha atrás tinha o n.º 75 na matrícula, n.º de Paris, e fiz-lhe sinal de boleia de dentro do carro onde ia. E não é que parou e me levou para Paris! Dormi no albergue da juventude da Av. Kellermann.

9.7.68 – Devo ter continuado em Paris, onde visitei partes da cidade que ainda não conhecia.

10.7.68 – Segui em direcção a Lille, à distância de 225 quilómetros, por Rouen e Amiens, cidades que visitei, e dormi em Lille no albergue. Visitei certamente a cidade, embora pouco me lembre dela.

11.7.68 – Cruzei a Bélgica, onde entrei pela cidade francesa de Roubaix, continuei para Gent e Antuérpia, entrando na Holanda por Breda e rumei a Roterdam, onde dormi no albergue, depois de visitar o porto e a cidade.

Árvore florida, de Van Gogh

Árvore florida, de Van Gogh


Ronda de Noite, de Rembrandt

Ronda de Noite, de Rembrandt


Moínho perto de Wijk, de Jacob Isaacksz

Moínho perto de Wijk, de Jacob Isaacksz


12.7.68 – Continuei por Gravenhage, Leiden e Haarlem para Amsterdam, a pouca distância de Roterdam, onde dormi no albergue. Visitei os canais, o Rijksmuseum, onde apreciei quadros deVan Gogh, Rembrandt, Jacob Isaacksz, Van Der Helst e outros pintores holandeses e o museu de arte moderna Stedelijk. Lembro-me de um quadro com a noção de profundidade no museu Stedelijk, de que tenho um postal e que me impressionou muito (ver postais).

Palácio Real na Praça Dam, em Amsterdam

Palácio Real na Praça Dam, em Amsterdam


13.7.68 – Segui por Den Dever, atravessei o Zuider Zee até Lewarden, com um paneleiro que olhava para as minhas pernas e dizia que eram lindas. Eu usava calções. Parou o carro junto de sua casa, convidou-me a entrar. Pensando que ele apenas queria ir a casa e continuar depois viagem comigo, fui com ele. Serviu-me um Martini e começou a atirar-se a mim. Disse-lhe que eu só gostava de mulheres e não avançou mais. Continuei sem ele por Groninguen, tendo apreciado os conhecidos moinhos holandeses e os polders e fui dormir em Schemda (Holanda), no albergue, a uns 30 quilómetros de Groningen.

14.7.68 – Cruzei a fronteira da Alemanha em Leer e segui por Oldenburg para Bremen, onde dormi no albergue, depois de visitar a cidade, de que pouco me recordo. Onde comia? Geralmente comia nos albergues pão com queijo ou fiambre, acompanhado de leite ou água. Por isso levava comigo um punhal, que cortava o pão e serviria de defesa em caso de necessidade. Por vezes ia a um bar beber uma cerveja com um cachorro. Algumas vezes comia em pequenos restaurantes.

15.7.68 – Continuei por Hamburgo, Lubeck, Kiel, Schleswig e Flensburg. Entrei na Dinamarca por Krusa. Segui até Odense em direcção a Copenhaga. Desde Lisboa já havia percorrido 2.950 quilómetros. Em Copenhaga visitei o museu Thorvaldsens (ver postais) e dei uma vista pela cidade. Em ferry-boat atravessei o estreito de Kategat e segui da Dinamarca para Malmo, na Suécia. Continuei para Gotborg, à distância de 272 quilómetros, e, com a chegada da noite sem conseguir boleia, dormi debaixo dum viaduto ao lado da estrada para Estocolmo.

16.7.68 – Segui para Estocolmo, à distância de 471 quilómetros. Devo ter dormido algures.

O Wasa em doca seca - Capeia Arraiana

O Wasa em doca seca

17.7.68 – Continuei rumo a Estocolmo. Dormi no albergue em Nacka, a 2 quilómetros de Estocolmo. O carimbo do albergue contém a palavra vandrarhem que, em sueco, quer dizer albergue da juventude. Visitei a cidade e o seu museu Sjohistoriska, ou museu do Wasa, onde se pode ver o navio de guerra Wasa do início do século XVII, que se afundara na primeira viagem e que foi recuperado em 1961.

Eu devo ter seguido este itinerário: Estocolmo, Oslo (carimbo), Bergen (dormi em casa do Fred), Sogndal (carimbo), More, Molde, Kristiansund, Trondheim (carimbo), Namsos, Majavatn, Mosjoen (carimbo), Mo, Rosvik, Bodo, Forsa, Narvik, Harstad, Bardu, Osborg, Vollan, Tromso, Ollerdalen, Badderen, Kvisvik, Alta, Skaidi, Hamerfest, Skaidi, Russenes, Karigasniemi, na fronteira da Finlândia. De Estocolmo a Russenes fiz 2.820 quilómetros, ou seja, de Lisboa até à fronteira da lapónia finlandesa fiz 6.513 quilómetros à boleia.

18.7.68 – Segui à boleia para Oslo, capital da Noruega, à distância de 530 quilómetros de Estocolmo. Lembro-me de ter passado por um estádio de saltos olímpicos na neve em Holmenkollbakken, perto de Oslo, para o qual me chamou a atenção o condutor que me levava.

Barco viking do museu dos barcos vikings, de Oseberg

Barco viking do museu dos barcos vikings, de Oseberg


Carroça de Oseberg

Carroça de Oseberg


Traje nacional e cafeteira de madeira em Hardanger

Traje nacional e cafeteira de madeira em Hardanger


Igreja de madeira no Norsk Folemuseum

Igreja de madeira no Norsk Folemuseum


19.7.68 – Continuei para Oslo e dormi no albergue em Haraldsheim (Oslo). Em Oslo, mais propriamente em Oseberg, próximo de Oslo, visitei o museu dos barcos Vikings, onde se encontra também a carroça de Oseberg (ver postais), e o museu do Povo (Norsk Folkemuseum) com casas antigas de madeira (ver postais).

Ganymedes no museu Thorvaldsens, em Copenhaga

Ganymedes no museu Thorvaldsens, em Copenhaga


20.7.68 – No caminho para Bergen visitei as quedas de Voringsfossen, com 182 metros, e o vale de Mobaden. Perto fica Hardanger, terra do maior fiorde da Noruega, com 179 quilómetros de comprimento, que dista 100 quilómetros de Bergen, onde visitei o Museu Nacional do Traje e utensílios (foto).

Aquário em Oslo

Aquário em Oslo


Segui para Bergen a 470 quilómetros de Oslo. Em Bergen visitei em sua casa o Fred, colega da Universidade de Strabourg. Ofereci-lhe uma garrafa de vinho do Porto e bebê-mo-lo com suas amigas, acompanhado de pipocas. Visitei o mercado, onde, num grande tanque, o Aquário, (ver postal) havia grande variedade e quantidade de peixes vivos. As pessoas escolhiam o peixe vivo que pretendiam, que era morto na sua presença e lhe era entregue. Dormi em casa do Fred duas noites.

Quedas de água de Majoden

Quedas de água de Majoden


22.7.68 – Continuei em direcção a Trondheim por Kvanndal. Dormi no albergue de Sogndal, aldeia perto de Forde e Floro, a 175 quilómetros de Bergen. Aqui não se conseguia fazer grandes viagens num dia por causa dos fiordes que constantemente interrompiam as estradas. O diabo dos fiordes eram um problema. No mapa as estradas não tinham indicação de interrupções. Por vezes só havia um ferry por dia para os atravessar. Uma vez atravessei um fiorde num ferry. Havia poucos carros no ferry. Pus-me à saída do ferry a pedir boleia e nenhum me levou. Passei longas horas à espera de novo ferry, na esperança de alguém me levar. Felizmente, estava prevenido com leite e pão com algo a acompanhar e isso aconteceu ainda no centro-sul da Noruega, com temperaturas não muito baixas. Se fosse no norte, morria de frio. A minha roupa era um casaco e uma camisola fina de gola alta. Nem sequer tenda eu levava!
Ou se apanhava o barco ou, muitas vezes, tinha de se esperar pelo dia seguinte para apanhar outro (ver foto dum ferry).

23.7.68 – Continuei para norte e dormi algures ou passei boa parte da noite a caminhar. Como praticava atletismo, mesmo federado, estava preparado para grandes caminhadas.

24.7.68 – Segui para Molde a 180 quilómetros de Trondheim.

Catedral de Trondheim

Catedral de Trondheim

Interior da catedral de Trondheim

Interior da catedral de Trondheim


25.7.68 – Rumei a Trondheim, onde dormi no albergue. Visitei a cidade, com as suas casas características e a sua bela catedral (ver postal).

26.7.68 – Dormi em Mosjoen, a 390 quilómetros a norte de Trondheim. Os visitantes desta região não são muitos, mas encontrei num albergue a norte, talvez em Mosjoen ou Tromso, duas canadianas, com quem conversei, duas suíças, um ou outro francês. As restantes pessoas eram turistas noruegueses. No norte os albergues servem para jovens e não jovens, incluindo casais, já que não havia hotéis ou pensões. Em Tromso não me puseram carimbo porque era um desses albergues.

Carimbos dos albergues

Carimbos dos albergues


Segui para Mo e pouco depois estava no círculo polar ártico, acima do qual começa o sol da meia-noite. Tudo árido nessas paragens. Antes tinha visitado uma cabana de esquimós algures (ver foto). Por estas bandas, uma vez uns franceses levaram-me num Citroën e tiveram de me largar pouco depois porque o carro atolava-se e não conseguia andar com tanto peso. Fiquei só na imensidão da neve semelhante à da foto que apresento (ver foto), de noite, embora com a luz nocturna do Verão no Ártico. Fui andando pelo caminho lamacento de terra batida. Não sei quanto tempo andei a pé sozinho. Houvesse ou não lobos ou outros perigos, não havia outro remédio senão continuar sem lamúrias e sem pensar nisso, expondo o peito às balas.

Seriam capazes de aguentar numa situação destas?!

(Fim da Etapa 09.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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