O Filho do Alfaiate

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Em garoto nem imaginava vir anos mais tarde conhecer o protagonista desta estória. Manuel da Silva Ramos, um beirão que ama a sua cultura e me ajudou como aspirante a escritor, tendo recentemente celebrado 50 anos do lançamento do seu primeiro livro: «Os três seios de Novélia». Mas o facto é que a vida dá muitas voltas e nos longínquos anos 60 ou setenta, ainda no período do Estado Novo, era «obrigado» a usar fato e um dia memorizei este episódio que hoje vos tenho o prazer de relatar. Seguramente com tantos anos passados até seja possível que alguma ficção se sobreponha à realidade, mas o facto é que a verdadeira essência permanece.

Manuel da Silva Ramos - Capeia Arraiana

Manuel da Silva Ramos

Naqueles tempos, ninguém ousava usar calças de ganga ou mesmo comprar roupa nos designados »pronto a vestir».

Comigo era mesmo impensável usar roupa que não fosse um fato, embora dispensado da gravata sufocante, ou se preferirem, a sufocante gravata, que na realidade não sei para que serve. Até me lembra uma trela ou um arreio.

Decorriam finais dos anos sessenta (ou princípios de setenta) e, de vez em quando, lá tinha de ir ao alfaiate, cumprindo a penitência da prova, do alfinete, de como assentava a manga ou a calça. Era um verdadeiro sacrifício, quando colegas meus já ousavam vestir jeans e rotulavam-me de seminarista porque, segundo o meu saudoso Pai, «na Covilhã só se veste roupa da Covilhã».

A chamada prova era um verdadeiro protocolo. Demorado, enfadonho e o pior: ter de ficar quieto como um soldado na formatura.

E para me distrair ia ouvindo as conversas do meu Pai com o nobre Alfaiate. Numa das vezes senti uma certa pena do artesão. O filho, que estudava em Lisboa, teria fugido para França para não ir à tropa. Obviamente que a condenação de ontem até se pode tornar na absolvição de hoje, e efetivamente o tempo torna-nos permeáveis à razão.

Quando ouvia aquele diálogo, o menino não podia abrir a boca, a conversa era entre homens e não de homenzinhos. No entanto senti que essa atitude era condenável. Não cumprir o serviço militar, servir o País, combater os malvados terroristas era algo reprovável. Nesses tempos sonhava que a guerra colonial, ou de libertação como referem os atuais países independentes, era uma espécie de western à portuguesa, onde os bravos heróis dizimavam sem uma beliscadura os inimigos da nação. Mas também em concreto nunca entendi bem que inimigos eram esses. Nem eram soviéticos, ou nazis, ou peles vermelhas ou outro tipo de malandros que Hollywood nos brindava com as aventuras entre os «bons» e os «maus».

Fiquei com pena do pobre homem. Na época era vergonhoso fugir às obrigações de bom cidadão, como servir a Pátria. E no decorrer da conversa senti necessidade de manter uma postura militar, mexendo apenas os olhos enquanto decorria a prova. O fato tinha de ser um sucesso, nem que fosse para consolo do artesão.

A verdade é que estes fatos duravam e duravam. E com o tempo aguentavam as piores contrariedades tal como eu que fui crescendo e entendendo aspetos da vida que, sem censurar o passado, são bem diferentes. Mas estes fatos eram como coroas reais, ou objetos imateriais, tal era a sua qualidade. E mesmo quando nos deixavam de servir eram doados a quem mais necessitava, normalmente familiares dos empregados ou gente mais necessitada.

Passados todos estes anos, em que sinto falta destes verdadeiros artesões, daquelas conversas durante a prova, que por vezes ainda temos no barbeiro ou com o taxista de Lisboa, pergunto-me se não faria o mesmo que o Filho do Alfaiate, sujeitando-me à vergonha de ser um desertor e um mau português.

O tempo, e o conhecimento, transportam-nos para uma reflexão que nos ilumina a razão.

Chegada triunfal a Paris - Capeia Arraiana

Chegada triunfal a Paris

E o curioso é que muito provavelmente, se entendesse fazer o mesmo, seguramente que usaria o mesmo fato, feito à medida, e a tornar-me num distinto cavalheiro desertor, mas acabando por seguir a rota dos fugitivos e emigrantes pela Raia da liberdade.

E estou certo que chegaria a França com o fato impecável!

E depois ir ter com o Manuel, para lhe dar um abraço de 50 anos como um escritor reconhecido da nossa cultura. Parabéns meu amigo! Continua…

Covilhã, 2 de março de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to O Filho do Alfaiate

  1. António Alves Fernandes diz:

    Parabéns pelo texto e homenagem a esse GRANDE ESCRITOR PORTUGUÊS, filho de um ALFAIATE da Covilhã,um bom Samaritano que se lembrava dos reclusos da Cadeia daquela cidade, entregando ali roupas para os mais pobres.
    .

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