Passam os anos fica a saudade… (24)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

A matança do porco é uma das festas familiares que mais lembro e de que tenho mais saudades.

Enchido pendurado nas cozinhas das aldeias raianas - Capeia Arraiana

Enchido pendurado nas cozinhas das aldeias raianas

A manhã do dia seguinte à matança começava cedo, pois era necessário e urgente desmanchar o porco que havia ficado pendurado do chambaril desde a manhã do dia anterior.

E era um corrupio entre a «loja» do meu avô e a cozinha com as carnes e as gorduras necessárias para começar a cortar a carne e a «limpar» os ossos para fazer as massas dos chouriças, bem como cortar as gorduras para os farinheiros e as mioleiras.

Era também dia de fazer a massa para o bucho e a bexiga, mas também para as chouriças de ossos e de bofes.

Começava-se também a preparação dos presuntos e da restante carne gorda que tinha de ir para a salgadeira, lugar para onde iriam também os ossos desossados que faram a delícia de todos durante o ano, quando se fazia um almoço de ossos cozidos.

Os homens da casa já estavam entretanto ao lume assando a focinheira do porco, manjar a que só os homens tinham direito.

O menu do dia já se sabia, febras e entremeada assadas na brasa!

E ainda só se ia no segundo dia, de uma festa que duraria, pelo menos, até ao pendurar de todos os enchidos nos varais da cozinha e ao meter dos presuntos na salgadeira, recordações que deixo para cada um.

Já o disse e repito. A matança não era apenas a resposta a uma necessidade de ter alimento para quase todo o ano, numa altura onde nem todos tinham acesso ao talho.

A matança era também uma festa da família, momentos únicos de unidade, oportunidades de ouro para integrar as crianças na família onde haviam nascido e onde cresceriam.

A matança, assim como a Consoada, a Páscoa ou dia 1 de Novembro eram datas das famílias que a vida foi destruindo pouco a pouco.

Era à volta da lareira, ou ao calor de uma braseira, ou à mesa das refeições coletivas, ou na ida ao cemitério, que aprendi, que aprendemos os da nossa geração, a ser o que sou hoje.

Infelizmente, o porco já foi substituído pelo smartfone ou pelo IPad, os quais, mantendo as crianças sossegadas, as afastam e as privam de uma vida familiar.

E por aqui me fico!…

ps. O Jornal Económico de 22 de fevereiro dá conta daquilo a que chama «o petróleo do futuro» em Portugal, isto é o lítio, mineral essencial para as baterias dos automóveis elétricos e dos telemóveis. Ora entre os locais que identifica como aqueles onde existem mineralizações de lítio, surge o Sabugal e a Bendada.
Será verdade?

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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