No reino do compadrio e das «capelinhas»

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Ainda, na sequência dos incêndios de junho de 2017, quando pensávamos que não havia mais nada para descobrir, em Pedrogão Grande, afinal, por estes dias, reportagens da TVI voltam a surpreender. Há dois armazéns, cheios de produtos doados, incluindo eletrodomésticos e mobílias, mais ou menos abandonados, enquanto muita gente os necessita e os solicita.

Reportagem de Ana Leal da TVI sobre os donativos para Pedrógrão Grande - Capeia Arraiana

Reportagem de Ana Leal da TVI sobre os donativos para Pedrógrão Grande

No caso anterior, das casas reconstruídas indevidamente (são dezenas), o raciocínio, embora doloso, pareceu simples: no meio de tanta confusão e desgraça, quem é que vai dar conta, ou importar-se, se aquela casa foi destruída pelo incêndio ou estava há muito desabitada e em ruínas? Quem é que se vai chatear em saber se aquela casa é de primeira, de segunda ou de terceira habitação…? Ninguém vai querer saber.

Acreditavam que, se todos estivessem comprometidos com o esquema, não haveria denúncias. Por isso, os responsáveis pela instrução dos processos queriam que toda a gente fizesse o mesmo, diziam, positivamente: «Faça assim. Preencha desta maneira, assine aqui.» Mas, há sempre alguém que não pactua com esquemas, que resolve não mudar a morada fiscal, nem dizer que vivia onde não vivia ou que o fogo lhe queimou o que não queimou – e assim se percebeu a existência de mentiras, de contorno da lei, de falta de transparência, de compadrio e de outras irregularidades que a justiça apurará.

No caso dos bens doados, guardados, sem grande preocupação, um bocadinho tudo ao monte, em armazéns da Câmara, é inaceitável o que se passa, sejam da autarquia, da Cruz Vermelha ou de outra qualquer entidade. Exigia-se, no mínimo, uma inventariação, uma seleção e um acondicionamento adequados, para que aquilo que as pessoas doaram, sabe-se lá com que sacrifício, uma parte considerável, não acabe numa lixeira.

Pode ser só desleixo, prepotência do presidente da Câmara, falta de articulação ou de colaboração entre instituições, incapacidade de organização…; mas, seja o que for, a irresponsabilidade está à vista, tal como está à vista a injustiça para com as vítimas e o desrespeito para com todos nós.

:: ::
«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

4 Responses to No reino do compadrio e das «capelinhas»

  1. António Emídio diz:

    Maria Rosa Afonso :

    Mais um pequeno momento de alegria interior ao ler as suas palavras de revolta e denúncia, mas infelizmente leva-as o vento, porque constituem um desafio à ordem moral reinante e ao politicamente correcto que são os triunfadores deste sistema politico e económico, estes querem é que lhes cantemos Hosanas e Aleluias !!!

    António Emídio

  2. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    Parece que a realidade é um pouco diferente! Ou então a justiça mais uma vez falhou …

    • Maria Rosa Afonso diz:

      Obrigada pelo comentário. Penso que a investigação arquivada era sobre uma conta determinada, a dos trezentos e muitos mil euros, que ainda não foi utilizada, se bem percebo. Espero que no final possamos dizer que a justiça, em todos os processos, esteve à altura.

Deixar uma resposta