Crónica ou desabafo?

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Acabei por granjear suficiente arrojo para articular sobre um proeminente meio de comunicação social como a televisão assumindo, desde já, que sustento o presente intento num fastio, profusamente incomodativo, motivado pela estirpe de canais TV a que tenho vindo a ter acesso. Não coloco, evidentemente, tudo no mesmo saco e permito-me salientar, como rara e honrosa exceção, o canal 2 da televisão pública.

A televisão persiste num apelo que desce ao primário das emoções

De resto, julgo poder concluir que premindo um “on” televisivo, valido a imoderada hipótese de obter uma improfícua telenovela. Quando não, poderá surgir algum noticiário contrafeito onde o vermelho intermitente evidencia a casta de uma “última hora” que se repete por dias ou semanas. E, se o horário for “nobre”, são imensas as possibilidades de tropeçar em palradores intelectuais empenhados em pseudodebate propiciando respostas para tudo numa imitação barata da mais provinciana banha da cobra. Tanto asseveram, eles, os motivos da inflação como as razões de míngua ou crescimento da economia como apontam pressupostos de vitória ou derrota de uma qualquer equipa de futebol. Tudo isto pode trazer à mistura assaz e apimentada desinformação solta, amiúde, em vociferações e gestos desenxabidos patenteando enxurradas de locução e mímica, mascarando tentativas de fazer circular informações improvadas, quais publicações “facebookianas” prenhes de falaciosos e demagógicos argumentos. A tagarelice, assim aditada a uma dramatização louca, transforma os respetivos atores em criaturas crentes em deficits de inteligência alheia imaginando os telespectadores como manchas de estupidez humana. Logo, assistindo a este tipo de bate-bocas, é certo obter sabores residuais de quem é tido por burro ou ignorante.

O que verdadeiramente se constata é um persistente apelo que desce ao primário das emoções. A presente sociedade permite-o quando acolhe o sensacionalismo em detrimento da veracidade e do rigor. Consente-o quando outorga a banalização do essencial admitindo a repetição do frívolo até que o inútil pareça relevante. Entretanto, se alguém ousar dizer que o rei vai nu, é porque está desajustado ou é mal intencionado.

Neste contexto, se vêm sofrendo, entre outras carências, a do autêntico jornalismo e a dos sérios e esclarecedores debates.

E soluções? Teremos que esperar por novos tempos? Ou alguém me ajuda a apontá-las?
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Crónica ou desabafo?

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Os meios de comunicação social, principalmente a televisão, tanto em ditadura como em Democracia, são quem difunde a Ideologia Reinante. Vê bem que tipo de Ideologia nos rege ! A mediocridade…

    Um abraço do António Emídio

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