Casteleiro – Os anos das mudanças importantes

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há anos que venho defendendo, quer neste «jornal» quer noutros locais de promoção, o seguinte: entre 1950 e 1970 as tecnologias chegadas ao Casteleiro ajudaram a mitigar a vida dura da nossa terra – como de outras, claro. Leia, por favor, e veja do que falo…

Telefonia dos anos 60 - Capeia Arraiana

Telefonia dos anos 60

Falo dos anos 50 e 60. Vida dura no campo. Sem dinheiro. Emigração. Guerra colonial, depois. Naquelas décadas, duras como o diabo, quase tudo melhorou. Numa aldeia como a minha, também era difícil não melhorar, de tão mal que se vivia em geral. Um pouco antes, nos primeiros anos da Grande Guerra, tinha havido um pequeno período de alívio para muita gente: foi quando se explorou o volfrâmio. Algumas pessoas ganharam algum dinheiro nesses tempos. Mas depois da Guerra, isso, sim, vieram alguns melhoramentos assinaláveis. Por exemplo: o telefone. O correio regular. A carreira diária. A telefonia. O alcatroamento da estrada nacional. O táxi da aldeia. A luz eléctrica. A televisão. A possibilidade de frequentar o Colégio do Sabugal.

Jornal O Século - Capeia Arraiana

Jornal O Século


«O Século» e o correio

Mas registo também que chegava à minha terra todos os dias o jornal «O Século».

Já havia jornais na aldeia antes – e o Casteleiro até tinha sido o berço de um dos mais afamados, a «Gazeta do Sabugal», fundado pelo Dr. Mendes Guerra e que eu quis agora homenagear ao criar esta brincadeira séria a que chamei «Serra d’Opa». Mas nada como ter o «O Século» todos os dias na loja do «Tó Pinto» e poder ler ou ouvir as discussões da geração anterior sobre as notícias do dia…

Era na loja do Sr. Tó Pinto, como disse. Todos os dias se podia ler lá o jornal. Foi lá que me ensinaram, muito pequenito, o b-a-bá (aos três ou quatro anitos). Um grupo de adultos passava ali horas a ler ou a comentar. Uma imagem e cenas que me ficaram para toda a vida – e com razão, pois até hoje não encontramos isso com muita frequência nem sequer em ambientes onde tal seria até mais expectável…

De facto, naqueles tempos, lembro-me sempre, uma das minhas distracções passava por presenciar no estabelecimento comercial do Sr. Tó Pinto as conversas entre adultos acerca de notícias de «O Século». Imagem que ficou para sempre agarrada a mim, nesta memória cheia de uma misturada razoável. Coisas bem mais importantes para a Humanidade e até para mim, não as recordo… Mas essas tardes no Sr. Tó Pinto, parece que foram ontem.

Telefonia sem fios dos anos 70 - Capeia Arraiana

Telefonia sem fios dos anos 70

A telefonia

Era na casa de uma tia, Maria de Jesus, mulher do tio António Joaquim Cameira. Lá estava o aparelho numa sala de dentro, entre a cozinha ampla e aos quartos, lá mais junto da estrada. Nessa sala, a telefonia estava quase sempre ligada e a dar música e noticiários, comentários dos apresentadores, sei lá… o normal para a época. Provavelmente também, como em quase todas as casas onde havia telefonia, a Rádio Altitude com o seu mais afamado programa: «Discos Pedidos»…

Móvel com Televisão dos anos 70 - Capeia arraiana

Móvel com Televisão dos anos 70


A televisão

Nada de muito especial. Mas na minha aldeia a Casa do Povo colocou na sua sede uma televisão muito cedo. Meados dos anos 50. Toda a gente que podia ia à noite até lá. Horas e horas a ver de tudo aquilo que a RTP emitia. Fosse noticiário (já era o Telejornal), fossem concursos, fossem teatros ou revistas. Fosse o que fosse, era melhor do que o silêncio de muitas ruas à noite. Ficaram célebres essas noites de televisão na loja que servia de Casa do Povo. E quando avariava, o ti’ João Catana resolvia a coisa à martelada – e resultava!!

Emigração portuguesa para França nos anos 60 - Capeia Arraiana

Emigração portuguesa para França nos anos 60


A emigração

O fenómeno demográfico mais assinalável de toda a história que conheço da minha terra foi a emigração dos anos 60. Não deve haver família onde um ou mais membros não tenham ido para a França (ou, em poucos casos, para a Suíça, o Luxemburgo ou o Canadá).

A emigração: uma revolução sociológica – com as suas causas tristes mas com as suas consequências ao nível da melhoria da qualidade de vida de quase todos. Como não há bela se senão, sabemos que a emigração também trouxe muita doença de ossos, muitos aleijados para o resto da vida, por causa da vida de escravatura a que muitos foram obrigados, Só isso dava outro artigo, evidentemente. Mas, «grosso modo», trouxe benefícios a quase todas as famílias.

Isso, comparado com a escuridão da geração anterior e das que a precederam, é um céu aberto. Hoje, à distância e com os conhecimentos que entretanto me foi dado adquirir, vejo isso com toda a clareza.

De aspectos complexos da emigração fala uma recente crónica da ‘Visão’, que queria aqui partilhar consigo.

Guerra Colonial Portuguesa em África - Capeia Arraiana

Guerra Colonial Portuguesa em África


A guerra colonial

A 6 de Fevereiro de 1961, os jornais dão a notícia do início da guerra colonial – dois dias antes, como se sabe. Eis uma manchete: «Motins em Luanda» – era assim que a Censura queria que se chamasse à guerra colonial que tinha rebentado. Era assim que deixava que os jornalistas se lhe referissem.

Só mais três linhas sobre este tema, um dos mais traumático para mim e para tantos como eu: os anos 60 trouxeram-nos a nós esse flagelo: a guerra colonial. Não podia ser tudo positivo. E então veio a guerra: em Angola, em Moçambique, na Guiné. Um drama para a juventude e familiares. Quase tudo mobilizado. Traumas que duram até hoje em cada cabeça.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta