Um Primeiro de Maio inesquecível

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Decorria o ano de 1975, concretamente o dia primeiro de maio, e eu, juntamente com um colega escuteiro, decidimos fazer uma caminhada para obtermos a especialidade de «andarilho». O objetivo era no mínimo fazer vinte quilómetros de marcha. A aldeia de Águas de Moura dista 10 quilómetros de Setúbal, sendo por isso o destino ideal para a conquista de mais esta proeza. Mas digo-vos com sinceridade: ter feito esta atividade neste primeiro de maio foi bem mais difícil do que imaginámos!

Um Primeiro de Maio inesquecível - Capeia Arraiana

Um Primeiro de Maio inesquecível

Estava um dia quente. Na altura não era necessária autorização escrita dos pais para estas atividades de escuteiros. Bastava apenas que o Chefe tivesse conhecimento. Ambos tínhamos nesse dia 15 anos de idade. A minha mãe foi a um funeral de uma tia que hoje ainda me penitencio de não ter ido, mas o escutismo estava-me no sangue.

A partida estava agendada para depois do almoço, tendo ficado alojado em casa dos meus amigos de sempre por ausência dos meus pais que tinham ido para o Alentejo por causa das cerimónias fúnebres da Tia Luz.

A partida decorreu à hora prevista e calculámos o tempo que poderia demorar a atividade. Em média fazíamos 5 quilómetros por hora o que dentro de quatro a cinco horas estaríamos no ponto de partida: a sede do Agrupamento 62 da Ordem Terceira, em Setúbal. Como era maio ainda chegávamos com o lusco fusco do fim da tarde. Nessa altura não se usava coletes refletores. A regra de segurança era andar no sentido contrário ao do trânsito.

Mesmo com o calor e a subida difícil da rua que entroncava nos quatro caminhos, a vontade era de vencer e a experiência que tínhamos, neste tipo de caminhadas, dava-nos a consciência que o regresso seria mais difícil por nos aproximarmos do objetivo. A ansiedade de querer chegar ao fim era sempre a «dor» destes «sacrifícios».

A caminho... - Capeia Arraiana

A caminho…


Já em plena Estrada Nacional 10 reparámos num movimento anormal de viaturas, principalmente de caixa aberta, fossem ligeiros e pesados, e cheias de gente dando vivas à liberdade, ao 25 de abril e, obviamente, ao primeiro de maio. O transito era infernal, fosse no sentido de Águas de Moura como no inverso para Setúbal. O que era mesmo importante era gozar aquele dia com o grito de revolta de tanto tempo sem liberdade.

Na época o fardamento do Corpo Nacional de Escutas, Escutismo Católico Português, tinha uma camisa verde igual à dos militares e uma boina negra também idêntica ao fardamento do exército. Apenas os calções eram azuis e as meias cinzentas, mas no meio de tanta euforia, seguramente ninguém reparou. Na realidade a maioria dos populares eram camponeses que trabalhavam nas herdades entre a Gâmbia e Alcácer do Sal e na provavelmente nunca devem ter visto escuteiros.

E a questão foi essa! Julgavam que eramos militares em serviço.

Subitamente para uma camioneta, depois uma carinha, depois uma «pick up» e por aí fora à medida que íamos caminhando para Águas de Moura. Todos numa euforia queriam dar-nos boleia: «Venham, subam a guerra já acabou! Não precisam de ir a pé. Hoje é dia de celebrar!»

Nós bem tentávamos explicar, que eramos escuteiros e não militares. Tínhamos a missão de ir até Águas de Moura… nem consegui dizer mais nada: «Venham damos boleia. As missões acabaram com a queda do regime, vamos todos comemorar!»

A muito custo lá fomos convencendo as viaturas que paravam e insistiam em nos levar ao destino e que era preciso ir a pé até Águas de Moura, mas eram imensas as viaturas a parar que vontade não nos faltava em fazer a especialidade de «andarilho» à boleia.

Mas o «festival» não ficou por aqui. Quase todas as viaturas que circulavam, num ou noutro sentido, buzinavam alegremente com a nossa passagem havendo muitos a gritarem «Obrigado» seguido de um «Viva à liberdade!»

A muito custo conseguimos chegar a Águas de Moura, com um atraso considerável, devido às paragens.

Quando regressámos o «apoio» popular continuava e a vontade de aproveitar mesmo uma boleia começava a crescer.

Quando passamos a Estação de Caminho de Ferro de Águas de Moura, uma centena de metros mais à frente, pára um grande camião. Todo engalanado com bandeiras nacionais e de centrais sindicais, e com a caixa de carga com muitos manifestantes.

Abraçam-nos, agradecem o 25 de abril, e insistem imenso para que lhes dessemos boleia. Os argumentos eram os mesmos: não há guerra e o primeiro de maio é dia de festa!

Olhámos um para o outro. Era melhor aproveitar! Senão nunca mais chegávamos a casa.

Durante a viagem (impensável nos dias de hoje por causa da segurança, com pessoas sentadas na cabine, nas laterais da caixa de carga, a pular e dançar com o veículo em andamento) um deles perguntou-me que tipo de soldado era.

Sabendo que «escuteiro» era algo que nunca tinha ouvido falar, e que com o barulho das buzinas, gritaria e do próprio motor, respondi-lhe a gritar:
– Infantaria!

Covilhã, 5 de fevereiro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

One Response to Um Primeiro de Maio inesquecível

  1. António Alves Fernandes diz:

    Talvez alguém escreva histórias de nascença da “democracia”, no distrito de Setúbal, igual ou mais ridículas que esta, tem muita graça… e algumas com desgraças.

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