A determinação do Papa Francisco

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Afrontar o problema da pedofilia na igreja, organizando uma cimeira no Vaticano para discutir o assunto, seria uma coisa impensável. Mas aconteceu, na semana passada, com este Papa, depois de séculos de silêncio. Tal como era impensável a sua visita a um país islâmico, recentemente, ocorrida.

Papa Francisco condena «atrocidades» de casos de pedofilia na Igreja Católica - Capeia Arraiana

Papa Francisco condena «atrocidades» de casos de pedofilia na Igreja Católica (Foto: D.R.)

Em relação ao abuso de «pessoas vulneráveis», percebeu-se que não há intocáveis e que a igreja tem de corrigir os seus erros. Estiveram presentes, nos quatro dias da cimeira, 190 bispos, representantes das Conferências Episcopais de todo o mundo e representantes das Congregações Religiosas. Pede-se-lhes responsabilidade, prestação de contas e transparência, na implementação das medidas definidas. Não pode mais existir, este crime.

Também estiveram, em Roma, muitas das vítimas, não no encontro, mas na praça de São Pedro e noutros locais, dando testemunhos, exigindo justiça e não apenas a condenação dos abusos. A reparação do mal que lhes fizeram, no que for possível, deve ser a meu ver uma das prioridades da igreja.

Outro aspeto a salientar tem sido o esforço do Papa para o diálogo inter-religioso. Foi aos Emirados Árabes Unidos, convidado a uma conferência, sobre o diálogo entre civilizações e o radicalismo religioso. Um acontecimento histórico, pois, nenhum Papa tinha visitado, antes, um país islâmico, onde o catolicismo é perseguido ou, nalguns casos, simplesmente, tolerado.
O Papa, vá a onde for, para lá da agenda, carrega a realidade e as «periferias» de que fala. Leva na bagagem a paz, as igrejas fechadas, os muros que dividem, os pobres, os migrantes, os discriminados…. Fala com uma clareza que desarma, dando exemplos e evitando erudições que só confundem e afastam. O Papa cria uma proximidade comovente.

Apesar disto, muitos, dentro da igreja, resistem, numa oposição que, em vez de ajudar, vai adiando ou dificultando as mudanças. Mas, o Papa continua, com a mesma ou ainda maior determinação; com a mesma ou ainda maior simplicidade, sem ouro, damascos ou veludos nas vestes; com o mínimo de mordomias e uma vontade de ferro. Até quando e com que resultados, não se sabe.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

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