Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (07)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 07).

Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1967
Espanha, França, Itália, Jugoslávia, Grécia, Turquia, Bulgária, Roménia, Hungria, Áustria, Alemanha, França, Espanha, Portugal

>> 5.ª viagem – De 9.7.1967 a 21.9.1967 (1.ª parte) <<

Em 3 de Julho de 1967 obtive do Consulado de Espanha o cartão da Universidade de Valencia para frequentar um curso de Verão para estrangeiros. (Ver cartão.)

Em 9 de Julho de 1967 entrei em Espanha por Alcântara no Lisboa Ter-Express.

10.7.67 – Cheguei à estação de caminho de ferro de Valencia. Fui de comboio para frequentar um curso de Verão com bolsa oferecida pelo governo espanhol por eu ter feito um trabalho sobre um jornalista e escritor espanhol.

Fiquei instalado no Colégio Alejandro Salazar, no Paseo del Mar, n.º 27, em Valencia.

Cartão da Universidade de Valencia - Capeia Arraiana

Cartão da Universidade de Valencia


Assisti a uma desencajonada. Um americano até trouxe para o Colégio um corno ainda a sangrar dum touro, que deitou fora quando começou a ganhar larvas.

Ia a pé para a Universidade, edifício antigo na parte velha da cidade. Comentávamos textos de autores espanhóis e falávamos da cultura espanhola. Recordo uma ou mais aulas em que se falou do flamenco, el cante jondo.

15.7.67 – Assisti à Europeade – festival de grupos de dança de toda a Europa, inclusive Portugal, no Estádio de Mestalla.

Aí conheci a Annie, de Parthenay (Niort) e uma amiga, a Annik. Às tardes tomávamos orchata num café, bebida de que elas gostavam muito, e comíamos torrão de Alicante. Enamorei-me da Annie. As regras de conduta eram muito rígidas. Lembro-me de uma vez a Annie se ter sentado nas minhas pernas no hall de entrada, estando eu sentado num banco corrido, sem mais lugares. Veio o porteiro de imediato a reprovar tal acção, o que me fez corar. Mas isso não impediu que, num fim-de-semana, tenha estado na cama dela em grandes carícias. Um dia fui com ela, a amiga e um holandês a uma praia – Cullera –, a alguns quilómetros de Valencia. Viemos já de noite, quase perdidos. O holandês, que nos levou no seu carro, afastou-se com a Annik e só os encontrámos longe, num café.

5.8.67 – Terminado o curso, aí por 4 de Agosto, parti no dia seguinte à boleia por Perpignan, onde dormi no albergue (tenho carimbo no cartão a 5-8).

6.8.67 – Continuei por Béziers, Avignon (recordo-me de atravessar a longa ponte), Nimes (levava a bandeira de França, que ainda conservo, e outra do Benfica ao peito e um emigrante português benfiquista deu-me boleia longa), Montpellier, Toulon, Marseille, Nice, cuja praia cheia de calhaus deixava muito a desejar à sua fama, Cannes e Vingtimilia. Por aqui apanhei boleia num camião já à noitinha. O condutor parou em Génova para se banhar no mar à meia-noite. Eu segui-o. A água era morna.

7.8.67 – De Génova segui com ele até Florença, cujo centro da cidade visitei. Rumei em direcção a Roma. No albergue da juventude de Roma, no Estádio Olímpico, não havia lugar. Aconselharam-me a dormir num vão largo duma janela, onde outros também dormiam. De manhã servi-me dos lavabos, mas não paguei nada. Por isso não tenho carimbo do albergue.

Capela Sistina - Capeia Arraiana

Capela Sistina


Estátua de Moisés de Miguel Ângelo na Basílica de São Pedro no Vaticano - Capeia Arraiana

Estátua de Moisés de Miguel Ângelo na Basílica de São Pedro no Vaticano


8.8.67 – Visitei a cidade de Roma. Capitólio, Catacumbas na Via Ápia, arco de Trajano e Adriano, Vaticano (ver postais). Segui para norte por Perugia, visitei Assis, Arezzo, Rimini. Dormi por aí.

9.8.67 – Continuei por Ravena e fui dormir a Veneza.

Grutas de Postojna na actual Eslovénia - Capeia Arraiana

Grutas de Postojna na actual Eslovénia


Palheiro em Novo Mesto - Capeia Arraiana

Palheiro em Novo Mesto


Em 10 de Agosto entrei na Jugoslávia e visitei as lindas grutas de Postojna (ver postal), uma maravilha da natureza, muito compridas, a ponto de a visita ser, em parte, feita de comboio, e pretendia seguir para Liubliana. Deixaram-me numa gasolineira na estrada para Liubliana. Era uma moça, a Violeta, que limpava os vidros dos carros. Ajudei-a, na mira de encontrar quem me levasse. Até que um senhor me levou para Novo Mesto, já ao cair da noite. Mais uma pessoa boa no meu caminho. Depois de jantarmos num restaurante com lareira, indicou-me um palheiro cheio de feno ali perto, onde poderia dormir num primeiro andar. Era um casarão feito em madeira trabalhada que dava ares de antigo solar (ver foto).

Igreja de São Marcos em Zagreb - Capeia Arraiana

Igreja de São Marcos em Zagreb


11.8.67 – No dia seguinte continuei para Zagreb, que visitei (ver foto da igreja de São Marcos).

Continuei em direcção a Banja Luca, na Bósnia, num camião. No caminho encontrámos uma prostituta, a quem demos boleia, que começou a mostrar as tetas, mas não quisemos servir-nos dela. Lembro-me de grandes montes barrentos ao longo da estrada. Passámos por Sarajevo e fui dormir a Mostar num albergue da Juventude que acolhia todos, jovens e não jovens, onde cheguei alta noite. Não puseram carimbo no cartão.

Dubrovnik - Capeia Arraiana

Dubrovnik


12.8.67 – Em Mostar, junto da célebre ponte havia um pequeno museu. O guia deste chamou-me para o visitar mas, no fim pediu bastante dinheiro. Serviu-me de exemplo para não aceitar certos convites. Nem o facto de a visita ter sido também para um casal espanhol me confortou. Sempre refartei ter pago esse dinheirão, apenas para ver as calças largas do sultão e pouco mais. Visitei depois a linda cidade medieval de Dubrovnik (ver foto).

13.8.67 – Segui para Titograd, hoje Podgorica, capital do Montenegro, Pec, Pristina, ambas no actual Kosovo.

Por entre montanhas e florestas no Kosovo - Capeia Arraiana

Por entre montanhas e florestas no Kosovo


14.8.67 – Segui por Titovosovo e, por montanhas e estradas em construção, onde era quase impossível circular, em direcção a Skopje, por onde um casal checo me levou num velho Skoda, tendo dormido na tenda deles. Só depois me apercebi da minha loucura aventureira, já que não passava carro nenhum e a estrada em construção corria entre montes e florestas (ver foto). Felizmente estava prevenido com pão e leite. Entrei na Macedónia com eles, de quem me separei em Skopje. Mais uma vez encontrei gente muito boa.

15.8.67 – Assisti aí numa ponte sobre o rio Vardar a um festival de paraquedistas.

Parthénon em Atenas - Capeia Arraiana

Parthénon em Atenas


Cariátidas do Templo de Atena - Capeia Arraiana

Cariátidas do Templo de Atena


Estátua de Poséidon no Museu Nacional de Arqueologia - Capeia Arraiana

Estátua de Poséidon no Museu Nacional de Arqueologia


Em 16 de Agosto (tenho carimbo no passaporte), segui até à fronteira de Gegvelija e entrei na Grécia por Evzonoi, tendo descido até Atenas. Tenho um carimbo do albergue de Atenas sem data. Devo ter ficado duas noites em Atenas, em 17 e 18, onde visitei museus e o Parthénon. O Museu Nacional Arqueológico foi uma das visitas (ver postal da estátua de Poséidon). Já era noite quando fiquei largo tempo no Parthénon a ouvir jovens a tocar guitarra e a cantar. Conheci então uma francesa anafada. Eros apoderou-se de mim e teve amores com ela mesmo nuns penhascos em frente às Cariátides (ver fotos). Acabei por pernoitar, em 19 de Agosto, na camioneta do grupo dela, deitado no chão, dentro do saco-cama. Outras pessoas do grupo dela fizeram o mesmo.

Depois, em 20 de Agosto, subindo por Larisa, Katerini, Tessalónica cheguei a Kavala, onde dormi na praia, mas em pijama e no saco-cama.

21.8.67 – No dia seguinte lavei-me e barbeei-me num fontenário em tronco nu, mesmo com presença de pessoas. Segui por Xanthi, Komotini e entrei na parte europeia da Turquia.

Desfile de tropas turcas junto de Edirn - Capeia Arraiana

Desfile de tropas turcas junto de Edirn


Tenho um carimbo de saída da Grécia e outro de entrada na Turquia em 23 de Agosto por Edirne. Era a primeira vez que ia à Turquia. Em Edirne assisti a um desfile de tropas turcas (ver foto). Na estrada que leva de Edirne a outra cidade passavam muitas carroças carregadas de melancias e sementes de girassol. Deram-me algumas e uma melancia pequena. Serviram para enganar o estômago nessa tardinha.

Chegou a noite e não conseguia boleia. Pus-me debaixo de um candeeiro a pedir boleia. Parou um carro que já levava alguém dentro. Perguntei-lhe se ia para Istambul e, tendo dito que sim, entrei no carro. À chegada a Istambul, já passava da meia-noite, o chauffeur queria dinheiro. Discutimos em plena Praça em frente da Mesquita Azul, argumentando eu que lhe tinha pedido boleia e ele parara, pelo que não teria de lhe pagar. Veio a polícia a quem contei o sucedido-que tinha feito sinal de pedir boleia. Ao verificarem que o carro trouxera outros passageiros, livraram-me de pagar. Passei a saber que os carros amarelos com uma faixa de riscas pretas eram táxis e nunca mais lhes pedi boleia. O albergue era imundo, com lençóis negros de pó. Felizmente tinha comigo o saco-cama. Muitos hippies dormiam no telhado, na Pierre Loti Cadessi. Apesar de ser tarde, eu consegui lugar lá dentro. Não puseram carimbo.

(Fim da Etapa 07.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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