Uma «Boca» cheia de «Cena»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Nesta fase em que recupero de um problema de saúde, lembrei-me de um almoço de convívio que tive em tempos, e fiquei a saber que não sou o único que aproveita os tempos livres para a cultura. Um velho amigo descobriu tardiamente o seu gosto para o Teatro. E nem demos pelo tempo passar. A cultura foi o tempero deste repasto, tendo descoberto que neste país ainda existe muita coletividade anónima que convive com as populações, num ambiente impensável nos nossos dias, como é o caso do «Grupo de Teatro Boca de Cena», da Casa do Povo de Minde, uma companhia com cerca de 50 elementos, incluindo encenador, cenógrafo, luminoteca, sonoplasta, aderecista, contra-regra, ponto, caracterizador, ajudante de cena, entre outros.

Grupo de Teatro «Boca de Cena» - Capeia Arraiana

Grupo de Teatro «Boca de Cena»

Durante aquele almoço memorável, enquanto decorria a conversa lembrei-me do TAS (Teatro de Animação de Setúbal), que tantos atores e atrizes lançou para carreiras promissoras, muitos e muitas, aparecendo nos écrans das televisões principalmente em novelas ou até filmes.

No caso concreto para além da sua profissão este meu colega usufruiu os momentos de lazer no «Boca de Cena» encontrando-se semanalmente para os ensaios, mas também em épocas festivas como a passagem de ano, onde a companhia junta as famílias e brindam de forma diferente o novo ano que chega. Minde já tem tradição de teatro amador, pelo menos desde 1952, por iniciativa de Rogério Venancio que acabou por batizar o atual Cine-Teatro.

Telefonei-lhe e pedi-lhe que me enviasse algum «material» para fazer esta crónica, atendendo a que, nos tempos atuais, esta forma já é pouco usual de ocupar os tempos livres. Mas não deixa de ser importante mostrar aos leitores como podemos fugir da rotina da televisão, do futebol ou, no caso dos mais novos, das redes sociais em contínuo.

Normalmente a primeira imagem é a que fica e sem dúvida os cenários, adereços e o guarda roupa, são a designada «imagem de marca» mostrando sem dúvida originalidade e qualidade invulgar.

O reportório já é razoável. Neste último Natal tiveram em cena a peça «Dom João Real – Uma Demanda Medieval». A peça, um original, com texto e encenação da própria companhia destacando, no entanto, o ator Jaime Aguiar e as atrizes Elsa Nogueira e Catarina Almeida, encheram a sala e encantaram a audiência rica em idades e gerações. Mas a festividade natalícia não fica por aqui. Juntam a comunidade mais jovem e infantil, com a contribuição vocal dos pais, e cantam textos inéditos, podendo também ocorrer algumas adaptações de músicas conhecidas.

Peça Dom João Real exibida na passada época natalícia - Capeia Arraiana

Peça «Dom João Real» exibida no Natal de 2018

A participação comunitária com a sociedade local não fica por aqui. A peça de Natal tem uma apresentação especifica para os funcionários do município de Alcanena e outra para as escolas, enriquecendo culturalmente a vida daquela localidade.

Este meu colega falou também noutros «sucessos» que vão efetuando ao longo do ano, função das disponibilidades de cada um. Para além da sala onde habitualmente ensaiam e apresentam os espetáculos, fizeram um trabalho original no Jardim do Museu Roque Gameiro, em Minde, intitulada «Quadros de Museu», onde o grupo ia vagueando com o publico pelo jardim onde decorriam, em determinados locais, as cenas, acabando por fazer um círculo fechado.

Quadros do Museu – peça ao ar livre onde atores e público passeiam no Jardim - Capeia Arraiana

Quadros do Museu – peça ao ar livre onde atores e público passeiam no Jardim

Efetivamente quando há esforço e empenho, mais tarde ou mais cedo, vê-se sempre o reconhecimento. E o «Boca de Cena» participou em dois filmes sobre Minde, estando disponíveis no canal Youtube, projetos que nasceram da cooperação entre o «Boca de Cena» e outras coletividades da terra, nomeadamente o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro, o Conservatório de Música e Dança, o Museu de Aguarela e o CIDLES, a associação que apoia e promove o dialeto «minderico», próprio desta região.

Esta conversa, muito interessante, não deixou de ser um convite à reflexão. Julgo que ninguém contesta que as nossas referências culturais vão desaparecendo em face da vida atual, onde os media são determinantes no nosso pensamento e modo de ação. Talvez os mais antigos ainda se lembrem das companhias de bairro que muito contribuíram mais tarde para o sucesso do Teatro de Revista, ou do lançamento de profissionais que hoje são amplamente reconhecidos.

Obviamente que o «Boca de Cena» tem a missão de dinamizar a cultura da sua terra e animar as suas gentes. E sem dúvida que o consegue em face do esforço coletivo destes voluntários.

Os meus sinceros parabéns e que sejam um exemplo para muitas coletividades!

Já agora quando é o próximo espetáculo?

Basta ir à página do Facebook «Boca de Cena».

Covilhã, 6 de fevereiro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

4 Responses to Uma «Boca» cheia de «Cena»

  1. Catarina Almeida diz:

    Em nome do Grupo Boca de Cena, agradeço as suas palavras e faço-lhe o convite para vir assistir a um espectáculo nosso num futuro próximo.
    Muito obrigada
    Catarina Almeida

  2. José Geraldes diz:

    Bom artigo que regista o passado glorioso de um grupo, que continua a desenvolver-se no apoio cultural da população e de portas abertas para quem quer participar

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