A face oculta da emigração

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Sentindo-se como que encurralados entre o isolamento e a miséria, apesar de muito trabalho, raramente conseguiam angariar o seu sustento e da família. Para vencer esta verdadeira luta pela sobrevivência, de norte a sul, o país assistiu a grande debandada de portugueses procurando na emigração a resposta às muitas privações do dia a dia e poder sonhar por uma vida melhor.

Caixas de correio dos emigrantes portugueses num bairro de lata de Paris, nos anos 60. (Foto: Gérald Bloncour)

Numa das tardes chuvosas, parecendo replicar o inverno de antigamente, António, narrador na primeira pessoa desta e de muitas história da emigração portuguesa retratou-nos algumas das “fanfarronices” que coloriam as primeiras notícias que chegavam de França. Os francos em abundância que alguns diziam ganhar não correspondiam à verdade, pois quem quisesse ser sincero tinha que admitir que, no início, a miséria e as dificuldades eram tantas que muitas vezes até o pão escasseava… Felizmente esse tempo de amarguras foi passando e melhores dias vieram!

Ultrapassadas as horríveis condições físicas da epopeia desta viagem a “salto”, uma nova tormenta, em que o desconhecimento da língua e o elevado nível de analfabetismo dos nossos emigrantes, se afirmavam como os primeiros obstáculos a vencer.

Para estes portugueses acabados de chegar a um país em que tudo era desconhecido, viam-se em plena rua, sem documentos e sem uma mão amiga que não fosse, por vezes, os companheiros de infortúnio. Trabalho não faltava mas arranjar documentos não era tarefa fácil…

Havia ocasiões em que eram aceites mesmo indocumentados desde que tivessem a confirmação de um lugar certo de trabalho, noutras eram mesmo postos fora do país, e outros, ainda, eram aguardados ou guiados por portugueses ou espanhóis que os levavam às autoridades francesas. Aqui era atribuído um salvo-conduto até chegarem ao local de trabalho que muitas vezes era arranjado previamente por intermediários a troco de mais uns milhares de escudos ou francos e assim eram levados ao desejado destino.

A situação era de facto muito má pois, a ausência de documentos impedia-os de fazer um simples contrato de arrendamento, o que acrescia a dificuldade de arranjar uma habitação condigna.

Tal facto obrigava muitos portugueses a viver em barracas, bairros de lata – bidonvilles – em plena cidade de Paris. Faziam o seu próprio comer, lavavam a roupa e dormiam em cima de paletes e quando chovia tinham que se levantar.

Neste contexto, facilmente percebemos que para os emigrantes portugueses e outros, apenas restava o serviço que os franceses não queriam: os saneamentos, as infraestruturas da construção, a construção civil ou obras públicas, como pontes, túneis, estradas, caminhos de ferro e agricultura, levava-os a trabalhar horas sem fim, a troco de baixos salários que, graças à conversão da moeda (De francos para escudos), representava uma pequena fortuna, quando se comparava com Portugal onde nada se ganhava.

Para aqueles a quem a sorte estava ausente e um trabalho certo teimava em não aparecer, no início para conseguirem amealhar algum dinheiro, tinham de se sujeitar ao mínimo dos mínimos e, se hoje ficamos indignados por ver que há quem procure bens no lixo, é porque deixamos que a memória curta nos atraiçoe, porque os emigrantes portugueses também tiveram de o fazer, nas célebres pubelas, como nos lembrou, mais uma vez, António. Na altura, a França estava a recuperar da guerra e havia incentivo ao consumo e ao desenvolvimento da indústria e do comércio, sendo fácil encontrar no lixo coisas de valor que os portugueses aproveitavam para ajudar a compor a sua casinha ou, quem sabe, para um dia trazer para Portugal.

Por tudo isto e muito mais, é de toda a justiça homenagear os primeiros emigrantes que foram até terras de França por terem desbravado este tenebroso caminho, que tão promissor veio a ser para as gerações seguintes, para o engrandecimento desta grande nação… França e com reflexo positivo na economia portuguesa.

Em novembro de 2018 morreu Gérald Bloncourt, o fotógrafo que revelou ao mundo a pobreza em que viviam milhares de emigrantes portugueses em França, nos anos 60 e 70, nos bidonvilles.

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«Viver Casteleiro», de Joaquim Luís Gouveia

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