Aldeias do Xisto

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Nos últimos dias de Janeiro fui ao Museu de Arte Popular, em Lisboa, visitar uma exposição sobre as Aldeias do Xisto, patrocinada por diversas entidades. À entrada uma funcionária de Sarnadas (Castelo Branco) recebeu-me com enorme simpatia, atitude igual para todos os outros visitantes.

Aldeias do Xisto no Museu de Arte Popular

Ao percorrer aquele espaço de “Laboratório de novos projectos no território”, deparei-me com as diversas fotografias que o sinalizam. Passa-se para o segundo compartimento e encontramos inúmeras ferramentas agrícolas antigas. Fixei os meus olhos nos vários tipos de enxadas de garganta com lâminas rectangulares, com duas faces. Instrumentos com que os meus saudosos pais lidavam todos os dias, de vez em quando também os toco. No centro da sala, um arado de tracção humana, um raro exemplar em Portugal, usado pelas gentes da Pampilhosa da Serra. Ali li uma frase de Platão: “a força das muralhas não é de pedra, é das pessoas.”

Sigo o meu percurso e observo rostos humanos das Terras do Xisto com apreciações telegráficas às suas amadas aldeias. Filomena dos Santos Martins Latado de Janeiro de Cima (Fundão): “aldeia espetacular”; José de Jesus Martins da mesma freguesia: “Rio de Janeiro…Copacabana”; Carlos Alberto Simão de Fajão (Pampilhosa da Serra): “linda”; David da Silva Sobral de Sobral de São Miguel (Covilhã): “regresso”.

Para estes habitantes residir nestas aldeias é resistir, é estar comprometido com o seu futuro e o da comunidade em geral. “É preciso viver das aldeias e não apenas nas aldeias.”

No espaço reservado às Artes, recordo a frase de Manuel Cargaleiro: “a ARTE é a lembrança que queremos deixar aos outros.” Ali encontramos peças de arte, feitas com diversos materiais por mãos de artesãos, que vão às raízes recolher a inspiração – nos vimes, na transumância, na ceifa, no linho, no vidro, na madeira, no metal… A imagem do Seringador que as gentes da minha terra cantarolavam ou recitavam: “vou andando de mão em mão/E a quem a terra tira o pão/Vou seringando ao ouvido/Para pôr mãos ao trabalho/Como se lida com o milho/Para que seja bem batido.”

A minha atenção centrou-se nas peças de joalharia da artista Patrícia Gorriz Campos, com o título ”CEIFAS”. São dedeiras outrora usadas pelos ceifeiros e ceifeiras para proteger os dedos dos cortes com a foice. Naqueles tempos eram feitos de cana ou em coiro, uma segunda pele adaptando-se aos dedos. Uma das peças foi executada segundo a técnica do repuxado e a outra em prata modelada.

Esta jovem artista e professora tem raízes na Beira Baixa e em Santarém. O pai era natural do Souto da Casa (Fundão) e a mãe é escalabitana. No seu imaginário estão sem dúvida as raízes beirãs dos homens e mulheres que ceifavam os cereais, o centeio e o trigo, e as raízes ribatejanas dos ceifeiros e ceifeiras das lezírias.

Com este tipo de projectos postos em prática e maiores investimentos de todos, estas Aldeias do Xisto vão ter futuro, pois reúnem características únicas – tradição, modernidade, natureza, bom ambiente, cultivo, artesanato, gastronomia, tranquilidade…

Para o seu futuro é fundamental a inovação, como esta extraordinária exposição demonstrou, com o sangue novo dos mais jovens, sem se perder a memória e a experiência dos mais velhos.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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