Exposição, batismo e matrícula na roda

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

Agora é o momento de começar a dar conta dos resultados. Quais as etapas por que passavam: A exposição, os registos/assentos de batismo (inclui uma abordagem geral) e a matrícula no Livro de Matriculas dos Expostos.

Avós de Sortelha – tiveram papel fundamental na recolha das crianças

(o saber de uma vida colocado ao serviço dos inocentes)

1. A exposição
Na região de Sortelha a maioria foi foram à porta de alguém, na Roda um número muito reduzido, o mesmo acontecendo quanto ao abandono numa povoação. Havia a preocupação em colocar as crianças em locais onde pudessem ser recolhidas, sem que houvesse perigo de vida ou falta de cuidados primários. Em alguns casos que identifiquei, como a rodeira Maria Gonçalves – 1851-1855, a criança é colocada à porta de uma avó, sendo que nessa família existiam mulheres (filhas ou noras) com capacidade para amamentar. Vários registos de batismo confirmam esta situação. Estes comportamentos pressupõem a existência de cumplicidades entre quem expõe e quem recolhe, que depois tinham a anuência das autoridades civis e religiosas.

A pobreza parece ser o motivo principal do abandono! A fundação da Roda dos Expostos veio legalizar uma prática ancestral entre os grupos mais carenciados, a que vem juntar-se a ignorância. Expor um recém-nascido à porta de outrem com maior capacidade económica podia ser uma forma de desejar-lhe uma vida melhor, davam-se com a mesma facilidade com que se tinham. Assim, os encargos com a sua criação e educação eram transferidos, tornando-se um encargo para a sociedade que contribuía com os impostos. Não parece razoável pensar em filhos de relações extraconjugais numa época em que a mulher era totalmente dependente do homem! De filhos ilegítimos encontrei alguns registos, mas de mulheres solteiras e viúvas!

2. O batismo
Após a recolha a primeira preocupação era batizar (o que era comum a todas as crianças), realizando-se o assento do mesmo, atribuía-se o nome (no caso dos expostos, se se fizesse acompanhar com um bilhete que tivesse a informação, confirmava-se). No caso de morrer nos dias seguintes, o que era frequente nesta época, já tinha o passaporte para a vida eterna. A igreja permitia que qualquer pessoa católica o fizesse, ultrapassavam-se, assim, as dificuldades resultantes do isolamento das populações devido às péssimas vias de comunicação existentes. Era matriculado no “Livro de Matrículas dos Expostos”, registado o nome e o número que lhe era atribuído e também a restante informação: Local e data da exposição, quem o apresentava e criava, discriminação do enxoval ou sinais que acompanhavam a criança, o que dizia o bilhete (quando era o caso), nome da ama a quem era entregue para criar e educar. Nos assentos de matrículas passou a fazer-se, em parte, o que antes se fazia nos registos de batismos paroquiais. Estas informações permitiriam a recuperação da criança pelos progenitores ou familiares.

Matricula de Expostos – 1847 – 1850 – folha solta que encontrei no interior do livro e que parece ser referente a outra região

Batismos:
I- «Exposto – Manoel Joaquim – Em dezanove d’Abril de mil oitocentos e cincoenta e sete baptizei solenemente a Manoel Joaquim exposto a crear por Quitéria Soares, desta freguezia de Sortelha, de quem servio de madrinha a menina Anna, e testemunhas Luiz solteiro, filho de João de Mattos, e Jose filho de Antonio Fernandes Mendes. Para constar faço este termo, que assigno. Sortelha dia supra. O Vigário Firmino da Costa Pacheco.» (1)

II- «Jose, filho de João Nunes e sua mulher, Rita da Fonseca; nepto paterno de Manuel Nunes, e sua mulher Maria Mendes e materno de José Gomes Ribeiro e sua mulher Roza da Fonseca, nasceo no dia vinte e sete de Novembro de mil oito centos e cinquenta, e um foi Baptizado particularmente pelo perigo de morte que o ameaçava, e se lhe puseram os Santos Óleos no dia vinte e um, de Dezembro, de que mandei fazer este Termo que asignei dia mês, e anno ut supra. Declaro que todos pais e avós erão todos naturaes e moradores nesta freguesia de Nossa Senhora das Neves da Villa de Sortelha. O Vigário: Luís Leitão.» (2)

III- Quarta Feira:
Assento n.º 5, em 23-02-1862:
«Maria, nasceu em 6 de Janeiro de mil oitocentos e sessenta e dois foi batizada particularmente em perigo de vida por Luiz dos Santos, viúvo, proprietário, desta freguezia, que, segundo informações colhidas, e de Iria Joaquina, recebidos nesta freguezia e da mesma Parochianos, moradores na quinta da Quarta Feira; neta paterna de Joaquim dos Santos e Maria da Cunha, e materna de José Bernardo e Maria Joaquina, serviu de testemunha Eduardo Gonçalves, solteiro e Juiz da Igreja, os quais conheço serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado o presente assento de baptismo, que depois de lido e conferido perante a testemunha, comigo o assignou. Era ut supra.
O presbítero Manoel Martins Fortuna.» (3)

IV- Dirão da Rua:
«João …. (?) que foi exposto na Quinta do Diram da Rua, desta freguezia de Santa Maria das Neves freguezia de Sortelha no dia treze de Maio de mil oitocentos e quinze anos, pelas duas horas pouco mais ou menos, foi por mim abaixo assignado baptizado em caza e para que conste fasso este termo que assigno dia, mez e anno ut supra veio a esta para receber os santos Óleos…
O vigário João Rodrigues das Neves» (4)

V- Casteleiro:
«Estefana filha de pais incógnitos; Exposta neste lugar de Casteleiro aos dois dias de Agosto de mil oito centos e quinze foi baptizada em caza por necessidade por mim o Cura abaixo assignado, lhe forão postos os Santos Óleos de que fiz este que assignei dia Mez e Era ut supra.
O Cura José dos Santos» (5)

VI- Expostos em Pousafoles do Bispo:
«Maria André, enjeitada, que veio da cidade da Guarda e por determinação da Justiça foi entregue, no dia nove de Fevereiro, de mil outocentos e dezasseis a Catharina Nunes, mulher de José Pires da Luzía, e foi sob conditione baptizada e solenemente ungida com os Santos Óleos, por isso que nenhum modo me constava do seu baptismo, por mim João Rebello Corte Real, Prior desta Parochia do Salvador deste lugar de Pousafoles do Bispo, Aro e Bispado da dita cidade, aos vinte e trez dias de Março do dito anno Se he preciso expressar quem a teve nos braços, cabendo como Madrinha, ao subir da Pia Baptismal, ella foi a mesma Catharina Nunes. Por cautela fiz o dito condicional Baptismo, e no dito dia este Assento, que asigno.
Prior João Rebello Corte Real»(6)

«Aos três de Mayo de mil setecentos noventa e hum Eu D. Joze da Costa Cardoso Pacheco Prior desta Igreja batizei solenemente e pus os santos óleos a Cristóvão Enjeitado por me constar por escrito do Doutor Juiz de Fora da Cidade da Guarda, não estar batizado. Forão padrinhos Cristovão de Sá e Mendonça da Costa Cardoso de Trancoso, e Maria Roza natural de Manteigas e para constar faço este dia mez e anno ut supra.
D. Joze da Costa Cardoso Pacheco» (7)

Pousafoles do Bispo, no final do século XVIII e princípio do XIX, pertencia ao concelho da Guarda.

Santa Casa da Misericórdia de Sortelha, ilustração de José Serpa – 2019

3. Matricula
VII– Matrícula de um exposto em 1 de junho de 1829:
«Ao primeiro dia … apareceu a Rodeira dos Expostos Roza da Fonseca … e por ela foi apresentada uma menina que avia sido exposta na noite do dia antecedente; e trazia de enxoval: Duas envoltas azuis velhas; uma camisa de pano de linho velho, com folhas de pano fino bordado, um couro de estopa velho, um lenço rachado de linho sem folhas; vinha apertada com um orelo azul; não trazia mais cousa alguma …». (8)

VIII – «… trazia de enxoval, duas camisas velhas de paninho com folhas de capa, três coeiros, dois de estopa velhos e hum de bastilha de oveiro velha, hum lenço de pontas de pano fino já velho com renda, três envoltas azuis velhas, huma passada com fio de lã branca e outra com chita vermelha, e huma jaqueta de chita azul velho, e hum orelo azul.» (9)

IX- «Raimundo, exposto à porta de António … de Dirão da Rua, trazia de enxoval, duas envoltas de Saragoça velhas, dois coeiros de estopa velhos, uma camisa de pano fino velho com folha, um bocado de liga vermelho.
Foi entregue a sua mãe Sabina Maria de Águas Belas, em 16 de Maio de 1831, recebeu até 1832, teve baixa em Julho de 1832.» (10)

X- «Francisca … trazia de enxoval: Dois pedaços de estopa velhos, duas camisas velhas de paninho com folhas, uma envolta azul.» (11)
Foi entregue à ama Josefa.

Referia-se nome (por vezes era deixado um bilhete a referi-lo), o género, quem o apresentava e criava, o local de exposição, algum sinal que trouxesse o e o enxoval. Estes elementos serviriam para poderem ser resgatados mais tarde pelo progenitor ou outra pessoa, podendo também servir para uma identificação futura da criança.

Em dezanove de junho de 1831, a Rodeira dos Expostos era Maria Escollástica.(12)

XI – Termo n.º 43
Genoveva:
«Aos vinte e seis dias do mês de Setembro de mil oitocentos e cincoenta entrou na Roda deste Concelho uma Exposta recém-nascida, sem signal algum particular, e trazia de enxoval quatro camisas, três coeiros, duas envoltas, um garruço. Foi baptizada na Igreja Paroquial da Bendada pelo Parocho Manoel Coração de Jesus, sendo seo Padrinho, se lhe pôs no acto de baptismo o nome de Genoveva. E para constar lavrei este termo que o respectivo Presidente da Câmara vai assignar. Eu Mendo José de Carvalho Escrivão da Câmara escrevi.
O Presidente: Alexandre José Nunes da Cunha» (13)

Quando li estes nomes não resisti à tentação de transcrever o texto. Curioso o nome do pároco da Bendada! É caso para desconfiar sobre a paternidade! Este documento confirma a existência física da Roda.

XII- Exposto Adrião
Termo d’Assentamento e Matrícula do Exposto N.º 44 – ADRIÃO
«Aos vinte e oito dias do mês de Outubro de mil oitocentos e cincoenta por João António Nicho do lugar da Bendada foi apresentado o exposto supra recemnascido por lho terem ido a pôr à sua porta trazia de enxoval quatro camisas e duas envoltas de felpa, e vinha acompanhado do bilhete do theor seguinte: Este menino hade chamar-se Adrião Rodrigues Preira da Cunha para se saber a todo o tempo onde está para se for preciso mandar-se buscar; foi baptizado na Igreja Parochial desta villa pelo pároco Luís Leitão, foi elle seo padrinho, e Maria Gonçalves desta villa, e lhe pôs neste acto o nome Adrião. E para constar lavrei o presente termo que o respectivo Presidente da Câmara vai assignar eu Mendo José de Carvalho Escrivão da Câmara que escrevi.»
Assinatura do Presidente da Câmara: Alexandre José Nunes da Cunha (14)

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

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1. Arquivo Distrital da Guarda: Registos Paroquiais de Sortelha: Baptismos, podendo ser consultado em:ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0093.tif.

2. Arquivo Distrital da Guarda: Registos Paroquiais de Sortelha: Baptismos, podendo ser consultado em: PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0023. tif. Este caso ilustra bem a preocupação da Igreja e famílias, apesar de não se tratar de um exposto.

3. Arquivo Distrital da Guarda: Cx 82, Registos Paroquiais de Sortelha: Baptismos 1862, folha 2 e 2v (Assento n.º 5). Sempre que havia perigo de vida batizava-se para alcançar o reino dos céus.

4. Arquivo Distrital da Guarda – Rolo 0854/260.

5. Arquivo Distrital da Guarda, Registos Paroquiais de Casteleiro – Baptismos, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG12-001-B8_m0003.tif:

6. Arquivo Distrital da Guarda: Registos Paroquiais de Pousafoles do Bispo – Baptismos; em: P T-ADLSB-PRQ-PSBG22-001-B6_m0013.tif:

7. Arquivo Distrital da Guarda: Registos Paroquiais de Pousafoles do Bispo – Baptismos; em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG22-001-B5_m0171.tif:

8. Arquivo Distrital da Guarda, Caixa 001: Fundo Câmara Municipal de Sortelha, Caixa n.º 001 – “Livros de Matricula dos Expostos – 1828-1838 – folha 99.

9. Idem. Em relação à expressão «orelo», penso tratar-se de uma síncope, o autor deveria escrever ourela. Seria uma fita de pano grosso.

10. Idem, folha 86

11. Idem, folha 93

12. Idem, folha 99

13. Arquivo Distrital da Guarda, Livro de Matrícula de Expostos de Sortelha – 1851 – 1855, folha 2v. Curioso o nome do pároco da Bendada! Este documento confirma a existência física da Roda.

14. Arquivo Distrital da Guarda, Livro de Matrícula de Expostos de Sortelha – 1851 – 1855, folha 3v. O escrivão ca Câmara, Mendo José de Carvalho, suprimiu uma vogal escrevendo Preira, trata-se de uma síncope.

2 Responses to Exposição, batismo e matrícula na roda

  1. José Carlos Mendes diz:

    Estou muito satisfeito pela diversidade de referências resultante da profundidade e esforço de investigação da sua parte, António Gonçalves.
    E registo que a criança do Casteleiro se chamava Estefana (registada em 1815). O nome não poderia dizer-nos nada. Mas tenho esperança de que isso venha a acontecer em futuras referências à minha aldeia… Seria muuuuuito interessante.
    Obrigado, AG.
    Abraço. Força. Não desista.

  2. António Augusto Gonçalves diz:

    Não registei ao pormenor todos os casos que encontrei!
    Só um regresso aos arquivos possibilitaria a transcrição de todos os casos que lhe possam interessar!
    Não permitem cópias e digitalizações só excepcionalmente.
    Neste momento não é possível!
    Infelizmente as surpresas vão continuar!
    Um abraço!
    António Gonçalves

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