1971-74 – Os Anos da Tropa (24)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Gorilas de Angola - Incrível - Em família, como os humanos - Capeia Arraiana

Gorilas de Angola – Incrível – Em família, como os humanos

Maiombe, pessoas e gorilas

Há uns anos tive o prazer de falar assim para a malta do meu Batalhão – e peço que aprecie o assunto em causa (gorilas), pois trata-se de uma das realidades mais espantosas daquelas paragens.
Escrevi-lhes assim:

«O Maiombe é ou era um dos últimos locais onde os gorilas estavam bem na Natureza. E alguns de nós tivemos a felicidade de os ver em liberdade. Mas, com o desbaste de árvores ao ritmo de milhares por ano, esse paraíso tem vindo a ser posto em causa.
Como te lembrarás, naquele cenário digno dos tais filmes do National Geographic, havia gorilas à vista. Repara: há milhões e milhões de cidadãos que, mesmo tendo estado lá, nunca viram um gorila – o animal mais parecido connosco. Por isso, considero-me feliz: eu vi. E a minha paranóia, já cá, durante anos, era ir até ao Jardim Zoológico e ficar ali a olhar para o gorila que lá havia… e ele para mim, sem me ligar nenhuma. Pancas, meu! O que é que se há-de fazer?»

Os nossos parentes mais chegados

O jornalista Carlos Narciso, meu amigo de longa data, um dia escreveu uma peça sobre a extinção dos gorilas. Começava assim:

«A ganância da espécie humana está a dar cabo dos habitats dos grandes símios africanos. À medida que a floresta vai caindo, avançam os caçadores de animais selvagens. As guerras feitas pelo homem aceleram o processo: o gorila está em vias de extinção. ”Parece-se mais com um gigante do que com um homem, porque é muito alto, mas tem a cara de um homem, olhos encovados e cabelo comprido…»

E mais adiante: «De todos os grandes macacos, o gorila é o mais difícil de observar, porque vive em pequenos grupos familiares e porque há cada vez menos. O gorila está em vias de extinção, não há mais do que alguns milhares em liberdade. A extinção desta espécie deve-se ao abate das florestas e à caça. Além de serem poucos, os gorilas vivem normalmente em florestas densas, onde o homem tem grandes dificuldades em se deslocar. O gorila é tímido e pode passar a vida inteira escondido do olhar dos curiosos».

Cenários destes só podiam dar em traumas... - Capeia Arraiana

Cenários destes só podiam dar em traumas…

Boas recordações. Más recordações. Espírito positivo

Quando me refiro à tropa, é este o meu resumo de pensamento: Boas recordações. Más recordações. Espírito positivo…

Escrevi-o há onze ou doze anos no blog do Batalhão e repito-o hoje aqui para si. Note que é um texto dirigido aos antigos camaradas de armas, OK? Foi assim:

«Para não se falar só de militarices antigas, e sem obsessões, recordo que muitos de nós voltaram com traumas, como saberás. Cada um à sua maneira, «aquilo» não nos larga. A uns afectará mais e a outros menos. Por mim, há coisas muito giras que não quero esquecer. Mas confesso que, no primeiro Verão que passei na minha aldeia (em 1975), quando a rapaziada às 6 da matina (como sempre se fez) desatou a largar foguetes… saltei da cama e escondi-me debaixo dela. E, como já expliquei aí em baixo, ainda hoje reajo com stress a algumas circunstâncias (ruídos metálicos, motores de heli, barulhos fortes e bruscos próximo de mim…).

Isto surgiu-me hoje quando li no Diário de Notícias um artigo interessantíssimo que fala da descoberta de dois cientistas americanos em matéria de apagamento de más recordações. Um dia, aqueles (confesso que eu não preciso, mas, infelizmente, há muita gente que precisa) que sofrem de stress pós-traumático poderão apagar essas más memórias. Às tantas, lê-se lá o seguinte: «Espera-se que, no futuro, alguns medos e recordações traumáticas possam ser apagados / Apagar memórias de forma selectiva é agora possível. O sofrimento causado pela recordação da perda de alguém, um medo que não se consegue controlar, as lembranças de um conflito podem ser suprimidas, segundo um estudo realizado por uma equipa internacional.»

Podes ler aqui o artigo todo. E proponho-te outras leituras simples: aqui, podes ler umas coisas sobre estes problemas e aqui encontras a descrição de um caso concreto. Aqui, o que se passa nos Estados Unidos. . Eu procuro é lembrar-me de que conheci lá bons companheiros e que dei aulas na Escola Preparatória de Buco Zau quase dois anos e assim pude ajudar muitos daqueles miúdos a aprenderem Português e… outras coisas. E isso, sim, são boas memórias».

(Continua.)

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