Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (06)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 06).

Viagens de um GlobeTrotter - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Viagens de um GlobeTrotter – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1966

>> 4.ª viagem – De 24.8.1966 a 22.9.1966 <<

Em 24 de Agosto de 1966 saí de Portugal por Elvas e entrei em Badajoz. A partir daí quase não me lembro de nada até chegar a Brest. A boleia deve ter sido difícil. Devo ter seguido em direcção a Mérida. Não tenho carimbos de albergues, pelo que devo ter feito campismo selvagem ou perdi a folha dos carimbos dos albergues da juventude. Mas, em Espanha, em todas as minhas viagens, não me recordo de ter dormido em albergues, salvo em San Sebastian.

25.8.1966 – Continuei por Trujillo e Talavera de la Reina. Lembro-me de beber água numa fonte ao lado da estrada antes de começar uma rampa para Talavera. A boleia continuou a não ser fácil nesta viagem. Devo ter dormido algures.

26.8 – Segui para Madrid. Não sei se foi desta vez que visitei o Museu do Prado, a Puerta d’el Sol, a Av. La Castellana e a Cibeles. Continuei pela estrada que leva a Burgos. Devo ter dormido pelo caminho em qualquer lugar. Não me lembro de nenhum facto relevante.

27.8 – Continuei viagem para Miranda d’el Ebro e Vitória. Mais uma vez terei dormido em qualquer parte. Não tenho carimbos destas datas.

28.8 – Segui dentro do País Basco por Tolosa, em direcção a San Sebastian. Ao anoitecer, um senhor basco deu-me boleia e levou-me para sua casa, onde me ofereceram jantar e dormida. Habitava uma vivenda com a esposa e dois meninos. Mais uma vez encontrei gente boa. Tenho uma foto com os meninos, mas não a encontro.

Carimbos dos albergues de Concarneau, Brest e Rennes - Capeia Arraiana

Carimbos dos albergues de Concarneau, Brest e Rennes

Em 29 de Agosto tenho carimbo de entrada em França por Hendaye. Segui certamente o caminho habitual por Bordeaux – Niort – Nantes – Rennes – Quimper – Brest, visitando o que ainda não conhecia. Em 29 e 30 dormi pelo caminho.

Em 31 de Agosto cheguei a Brest, onde dormi até 2 de Setembro. Visitei mais uma vez os amigos da viagem de 65. Só era permitido dormir três noites no albergue. Por isso, em 3 de Setembro saí para Concarneau, onde dormi no albergue, num castelinho junto ao mar. Aí conheci a Eleanor, moça escocesa bonita e meiga, de quem recebi algumas carícias.

Jardim de Thabor em Rennes - Capeia Arraiana

Jardim de Thabor em Rennes

4.9 – Segui para Rennes. Visitei a cidade e recordo o Jardim do Thabor com o seu lago (foto). Fui a Chation-Bruz visitar a Arlette do grupo de 65, com quem me envolvi de amores. Remámos um barquito numa ribeira por uma hora.

5 e 6.9 – Devo ter estado em Bruxelas na Bélgica. Não sei onde tenha dormido. Saí à noite até à Praça Maior. Aí encontrei um grupo de jovens portugueses. Conversámos sobre Portugal. Eles deviam ser comunistas e eram refractários à tropa. Como não partilhei as ideias deles, começaram a insultar-me, dizendo que era da pide. Enfim, o habitual dos comunistas que só sabem defender-se pelo insulto.

6.9 – Devo ter dormido no Luxembourg, já que tenho um carimbo no cartão, sem data.

Catedral de Colónia e vaso de vidro peça do Museu Romisch-Germanisches de Koln - Capeia Arraiana

Catedral de Colónia e vaso de vidro do Museu Romisch-Germanisches de Koln

Em 7 de Setembro saí do Luxembourg por Steinfort (comuna do Luxemburgo) e paguei taxas em Rosemberg (Autelbas) na fronteira da Bélgica com o Luxemburgo. Entrei na Alemanha. Segui para Koln, onde dormi. Em Koln visitei o Reno, a catedral e o museu, com belíssimas peças de vidro (ver postal).

8.9 – Segui de boleia para Nuremberga no norte do estado da Baviera, onde dormi. Visitei o centro da cidade.

Rathaus de Munchen - Capeia Arraiana

Rathaus de Munchen

9 e 10.9 – Segui para Munchen, onde dormi duas noites. Um senhor apanhou-me à entrada da auto-estrada. Eu disse-lhe que ia para o Jungendheberge, no meu muito fraco alemão. Era já à tardinha. Ele saíu da auto-estrada e levou-me até ao albergue. Percebi que ele deveria ter continuado a sua viagem auto-estrada fora e se desviou para me levar a Munique. Há gente boa em toda a parte, mesmo na Alemanha, onde encontrei pessoas muito amáveis, contrariamente à ideia que tinha dos alemães, como sendo pessoas austeras e de poucas falas. Visitei o centro da cidade, com a Rathaus e a Catedral (ver postal).

11.9 – Saí estrada fora até Garmish-Partenkirchen, à distância de uns 100 quilómetros. Lembro-me de ter subido a pé uma ladeira até ao local dos saltos nos Jogos Olímpicos de Inverno, subindo também a ladeira um senhor com o típico trajo tirolês-calções de cabedal e chapéu com uma pena. Vi o terreno dos saltos na neve, onde decorreram os Jogos Olímpicos de Inverno de 1936 e fui dormir em Insbruck (Áustria), que visitei. Não tenho carimbos no passaporte porque não ligavam nas fronteiras.

12.9 – Fui de Insbruck para Salzburg, onde dormi. Gostei muito desta cidade.

Câmara Municipal de Viena - Capeia Arraiana

Câmara Municipal de Viena

13.9 – Segui para Linz, Viena, Graz, Klagenfurt e Lienz. Visitei Viena, a Ópera, a praça fronteira, a Câmara Municipal (ver postal) e o Bunker da II Grande Guerra. Lembro-me de ter apanhado uma boleia com um austríaco que ia só. Conversámos, mais com as mãos que por boca, deu-me a notícia do incêndio em Sintra a 8 de Setembro, onde haviam morrido 25 soldados e deu-me uma moeda de colecção bonita, com os escudos de todas as cidades da Áustria, que guardo.

14.9 – Entrei na alfândega de Arnbach, Osttirol da Áustria / Pratu Drava de Itália.
Entrei à tardinha na fronteira de Pratu Drava, onde o carabiniero, mal viu que era português, desatou a gritar: Eusébio! Eusébio!
E depois: «Mas tu não és o Eusébio!»
Pedi que me pusessem um carimbo no passaporte para recordação. Teve de procurar um numa gaveta. Parece que há muito não o usava. Acabou por pedir a um italiano que ia entrar de carro que me levasse. E levou até Bolzano, onde ele parou para jantar num pequeno hotel. Acabei por comer e dormir aí, uma vez que a noite tinha chegado.

Carimbos no passaporte na fronteira Áustria, Itália e outros - Capeia Arraiana

Carimbos no passaporte na fronteira Áustria, Itália e outros

15.9 – Parti para Trento, por estrada de contínuas pontes e túneis, visitei novamente Veneza, segui para Pádua, onde visitei a igreja de Santo António e fui dormir a Turim. Visitei a Ponte Victor Emanuel, Torre Palatina, Monumento a Júlio César e outros monumentos (ver postais).
Lembro-me de ter ido à Estação dos Caminhos de Ferro de Turim, onde comi e comprei uma pulseira feita de moedas para oferecer à Palmira.

Vistas de Torino - Capeia Arraiana

Vistas de Torino

16.9 – Segui para França e dormi não sei onde.

17.9 – Não tenho carimbo no cartão no dia 17. Continuei viagem pelo sul de França e dormi em qualquer lado, ou até dentro de algum camião. Lembro-me de ter apanhado uma boleia longa com um casal – ele italiano, ela Jugoslava. Parámos num pequeno parque ao lado da estrada, conversámos e dei uma moeda de cinco tostões à senhora, que a apreciou. Depois continuámos viagem.

18.9 – Segui caminho à boleia até Perpignan, onde dormi no albergue da juventude.

19.9 – Saí de França e entrei em Espanha por La Junquera.
Um médico alemão que ia num Porche para Ibiza deu-me boleia até Barcelona. Como ele não sabia castelhano, fui eu que lhe tratei do bilhete de barco. O carro só pode ir no dia seguinte. Agradecido e porque precisava de alguém que o ajudasse em castelhano, convidou-me a ir com ele para Ibiza. Agradeci-lhe, mas não aceitei porque precisava de ir para Portugal. Como recompensa dos meus serviços, pagou o almoço de paella num restaurante junto do cais e deu-me dinheiro. Com esse dinheiro comprei uma guitarra em Granada.

Mesquita de Córdoba - Capeia Arraiana

Mesquita de Córdoba

Continuei a minha viagem à boleia para Tarragona, Valencia, Granada e Córdoba, percurso feito entre os dias 19 e 21 de Setembro. Onde dormi nos dias 19 e 20? Já não me lembro e não tenho registos. Por vezes alugava um quarto barato em casas particulares. Em Granada visitei a Alhambra e comprei uma guitarra com o dinheiro que o médico alemão me tinha dado. De Granada fui a Córdoba visitar a mesquita-catedral (ver postal). Segui em direcção a Mérida, a uma distância de uns 200 quilómetros. Apanhei boleia numa carripana azul, Citroën ou Fiat. No fim da viagem, saí da carripana, agradeci e ia embora. O dono virou-se para mim e disse-me:
Venga algo! – pedia dinheiro. Respondi-lhe:
No tengo! – Ao que ele contestou:
Venga la guitarra!
Fui-me embora sem lhe ligar. Era o que me faltava! A minha guitarra acabada de comprar ir parar às mãos dum labrego! Há gente boa, mas nem todos são bons!

Em 21 de Setembro continuei para Mérida. Lembro-me de, certa vez, ter apanhado boleia num camião veloz de marca Pegaso, que me deixou numa gasolineira num cruzamento no caminho de Mérida para Badajoz. Já era noite alta e nos campos ardiam os rostolhos, parecendo que Espanha estava toda a arder, tal era a extensão do fogo. Comi um bocadilho con una cerveza no café da gasolineira. Dormi no campo ali ao lado (ver foto do saco e guitarra já publicada na crónica n.º 3), e segui para Portugal na manhã seguinte.

Em 22 de Setembro entrei em Portugal por Elvas e segui para Lisboa. Na fronteira o pide chateou-me por causa da guitarra, mas lá me deixou passar com ela.

(Fim da Etapa 06.)

:: ::
«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

Deixar uma resposta