Passam os anos fica a saudade… (21)

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

A matança do porco é uma das festas familiares que mais lembro e de que tenho mais saudades.

Matança do porco tradicional - Capeia Arraiana

Matança do porco tradicional (Foto: D.R.)

As pessoas reuniam-se em casa dos meus avós. Os meus pais, a minha irmã, a minha tia Judite, e mais tarde o meu tio Fausto, os meus tios-avós Zé Patalaia e Prazeres e a sua filha e minha madrinha Maria Adelaide. Vinha também o Ti Zé Paca, o matador de serviço.

Na sala grande a mesa era posta bem cedo com pão, presunto, enchidos do ano anterior, figos com nozes, «bolacha da matança» que era mandada fazer na padaria do sr. Pires e, para aquecer, o chá preto com aguardente, a que sempre ouvi chamar «ponche».

Comidos e bebidos lá íamos em romaria até à palheira do meu avô onde estava o porco e a banca onde seria morto.

A primeira «batalha» era a de agarrar o porco, quase sempre com peripécias que nos faziam rir até às lágrimas.

Agarrado o porco e deitado de lado na banqueta, cada um agarrava sua pata, cabendo-me a mim, quase sempre, o rabo.

Bem seguro o bicho, aproximavam-se duas figuras «bíblicas»: o Ti Zé Paca com o seu facalhão e a minha avó com o alguidar com sal para onde jorraria o sangue.

Atado o focinho do bicho para que não mordesse e avisados os «pegadores» das patas e rabo, o momento de enterrar a faca era de silêncio e respeito, pois uma faca mal espetada significava menos sangue e mais carne ensanguentada.

O sangue jorrava ao ritmo do bater do coração e a minha avó, com as mãos ia misturando o sal com o sangue para não coalhar.

Os gritos do animal e os coices que tentava dar eram aterradores, mas entusiasmantes, e iam pouco a pouco decrescendo de intensidade.

Quando tudo parava e a faca já saia, era altura de coser a ferida e de, com palha torcida queimar o pelo do porco. O cheiro era acre e bom.

Passava-se então à fase de «barbear» o porco o que se fazia com navalhas de barba e facas velhas. Era também a altura de o lavar com água quente e sabão e pedras de granito para o esfregar.
E estava pronto o animal!

Em procissão seguíamos com ele pela rua D. Dinis, entre a palheira e a casa do meu avô. Chegados a esta, faziam-se cortes nas patas traseiras e enfiava-se o chambaril, após o que o porco era pendurado de cabeça para baixo e pesado.

O porco tinha cumprido o seu destino. Chegara ao chambaril!

(Há um ditado muito antigo que mostra a importância deste ato. Diz o povo de alguém que não trabalha ou que anda por maus caminhos que «Por esse andar nunca mais chega ao chambaril»!)

Na próxima semana continuarei a descrição das matanças em casa do meu avô.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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