O caminho da esperança era longo e penoso

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

A fome, o frio, o medo e a esperança marcaram aqueles 23 dias e noites, que separaram Vale de Lobo, a terra que um dia viu nascer António e a cidade de Lyon, que numa manhã gélida o recebeu.

Travessia dos Pirenéus

Tudo isto porque António, de tez morena, mãos calejadas e braços musculados, não lhe saía da cabeça que um dia havia de dar uma vida melhor à sua família. Com muito trabalho e sacrifício havia de ganhar o suficiente para matar a fome aos seus três filhos que deixara maternalmente colados à saia preta da sua mulher Estela. Esta, de coração partido, carregava ainda consigo a partida abrupta de sua a mãe. Uma daquelas febres ruins, que não poupou crianças, jovens e velhos, aqueles que apresentavam menos defesas e mais fragilidades.

Os catorze contos, o preço de uma valente junta de vacas, pagos ao passador para o conduzir à terra do “leite e mel”, foram pedidos emprestados, no maior segredo dos deuses, a uma pessoa fora da aldeia a quem já tinha feito umas jornas em trabalhos rurais mas, também, a confidência do sonho de um dia sair do país à procura de uma vida mais folgada e, quem sabe, um dia ter um carro de marca Peugeot. Não quis evidenciar esta fraqueza a alguém da aldeia pois o medo de ser denunciado, mesmo por pessoas da família era enorme. A questão patriótica ou a fuga às obrigações militares na guerra de África constituíam informações extremamente importantes para o poder opressivo de então.
Uma vez garantido o dinheiro pelo seu amigo especial, o momento da partida chegou.

No mais profundo silêncio da noite, o táxi levou o António e mais três companheiros, que não conhecia de lado nenhum, até ás Aranhas, concelho de Penamacor e num ápice deixaram de o ver.

A partir dali, já sem táxi, caminharam a pé durante 4 dias para chegarem à Cidade Rodrigo. Aqui esperaram 2 longos dias por uma camioneta de transporte de gado que os levaria até Vitória, em pleno País Basco.

A travessia dos Pirenéus foi tenebrosa! O frio, a chuva, o vento e a neve que lhes dava pelos joelhos, regelava-os e tornava-os mais frágeis. A tudo isto juntava-se a fome e o medo. Este último nunca não lhes saía da cabeça!

Por mais que viva, o António nunca esquecerá os “3 dias passados numa fedorenta corte onde tábuas e palha apodrecida com a qual aquecemos o corpo”.
António recordou-nos, ainda, com alguma graça, que o maior momento de felicidade “foi quando num destes longos dias viu um rebanho de ovelhas que lhe permitiu e aos demais colegas de grupo beber leite quentinho e aconchegarem-se no calor destes animais.

Hendaia, conhecedora da emigração portuguesa, foi o fim desta penosa viagem. Para António como para muitos outros portugueses, Hendaia representava a fronteira para a Liberdade, para a Paz, e o anseio de uma vida melhor para cerca de 3 milhões de Portugueses.

Finalizo esta crónica com a forma curiosa de pagamento ao passador: Antes de sair de Portugal a fotografia do António foi rasgada em duas partes. Uma parte ficava com a família e, nesse preciso momento, o passador recebia 50% do valor (7 contos). A outra parte da foto levava-a o António. Uma vez já no destino desejado, enviava uma carta à família confirmado a chegada a França, acompanhada da outra parte da fotografia.

Uma vez chegada a carta a Portugal, a família reconhecia a peça que faltava para o puzzle fotográfico ficar completo. Ficava assim confirmada a realização do sonho do António e, finalmente, o passador via a sua tarefa concluída e por isso, recebia os restantes 7 contos.

Para o passador, estas viagens de alto risco, onde o sucesso nem sempre o acompanhava, eram encaradas como um negocio lucrativo de modo a melhorar também a sua própria vida.
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«Viver Casteleiro», de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to O caminho da esperança era longo e penoso

  1. José Antunes Fino diz:

    Perante esta narrativa, será que algum português ainda poderá opor-se à vinda de qualquer imigrante para a Europa ou para o nosso país?

  2. José Santos Fernandes diz:

    Exmo Sr,. por razões profissionais, precisava do contacto de email ou telefone do Sr. João Quelhas Sanches de Aldeia da Ribeira. É urgente. Alguém poderá ajudar-me ? Obrigado

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