A cor e a voz do vento

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Se a vida for um sopro nós existimos no veemente brotar do vento ante a sucinta fluência do tempo. Partem e volvem os nossos dias nos sussurros da ventosidade. Enegrecem e aclaram as nossas noites na sua flutuação. No seu seio sonhamos os nossos sonhos e advogamos os nossos arbítrios.

As cores e as vozes do vento transmutam no contínuo escoar do tempo

O vento nasce, indefinidamente, nas repentinas reviravoltas do tempo, verte-se nos montes e flui nos vales. Às vezes transporta nuvens escuras desenhando-lhes as sombras em montanhas e planícies, quase transformando os dias em noites.

Por alturas de temporal, rosna e abraça subitamente as casas surgindo em golpes violentos. Se a tempestade aumenta, entra em fúria, uiva e cumpre o que dele se espera. Devassa todas as frestas, depõe árvores, arranca galhos, remove telhados, cria enxurradas.

Em ocasiões de calmaria surge doce e refrescante assobiando melodias sob os azuis claros do céu. Calar-se-á, aquentado, quando se diluir ou alourar em cálidos raios de sol.

De quando em quando, suspira entre os odores da chuva sem qualquer pronúncio de tempestade.

Mas há ventos coloridos que nos decoram a sequência da vida. Tingem as noites de negro ou adornam-nas de luar. Trazem-no as manhãs e empurram-nos para rotas diárias e multicolores.

As cores e as vozes do vento transmutam no contínuo escoar do tempo.
Em meados do outono, o vento é cinzento quando embala e deixa partir os pássaros rumo ao sul. Escurece quando empurra as árvores e lhes rouba as folhas. Fica negro quando limpa os lixos das ruas e traz as chuvas. Imacula-se de branco quando faz voar flocos de neve. Mas, no inverno, ele é sobretudo vozeirão e de cor escura quando os dias minguam em consequência do prematuro cair do breu.

Logo que os dias propiciam crescimento, aclaram-se, livram-se de frios e o sol começa a dourar as paisagens verdes. É então que o vento assume cor azul/esverdeada e recebe, de novo, os pássaros foragidos.

Depois amansa, torna-se morno e vai beijando as flores, acariciando as árvores, bafejando altos e baixos, afagando as casas e trocando de cor para ouro/amarelado. Assim permanecerá até ao regresso do outono quando se voltar a embaciar.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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