1971-74 – Os dias da Tropa (23)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Eis alguns dos heróis destas crónicas... - Capeia Arraiana

Eis alguns dos heróis destas crónicas…

Na tropa daqueles tempos, sobretudo em zonas de combate, criavam-se laços para toda a vida, como é sabido.

E aconteceu-me outra coisa: dei por mim passados tantos anos, a falar e a escrever para o pessoal do Batalhão como se ainda estivéssemos em campo de guerra.

E eles lêem-me e respondem-me em comentários tal e qual como se relacionavam comigo naqueles dias complicados de 1972-74…

Nestes cenários, a solidariedade cresce por si mesma... - Capeia Arraiana

Nestes cenários, a solidariedade cresce por si mesma…

Recordações que ficam para sempre

O segredo da vivência humana nunca ninguém saberá como explicá-lo. Mas ele existe.

Eis como passados 30 e tal anos retomei o contacto com a minha rapaziada de Cabinda como se tivéssemos ido ali ao Sangamongo e já voltámos…

A si, leitor do «Capeia» quis hoje por curiosidade trazer-lhe uma mensagem que enviei a todos os meus antigos camaradas de armas.

Quis com esta indiscreção relativa que o leitor saiba como é que me dirijo a eles e eles a mim (é exactamente igual).

Escrevi assim (há alguns anos atrás, da primeira vez que retomei o contacto com o Batalhão:

«Meus amigos, deve haver um segredo nisto tudo. Eu explico. Durante estes anos todos, por absoluta entrega à minha profissão – que é desumanamente absorvente -, nenhum de vocês se impôs ao meu pensamento. Quero dizer: nenhum de vocês em especial. O que se me impõe em cada dia, desde aqueles dias, são as paisagens, algumas pessoas que comigo privaram mais por razões objectivas: a proximidade, o dia-a-dia, o Bata Sano, Buco Zau, bairro onde morava, aqueles que, como eu, lá tinham a família, algumas pessoas do meu «grupo de combate»… pouco mais. Pela negativa, sou franco, impuseram-se-me sempre os comandantes, por razões óbvias, porque eles simbolizavam o que de pior me tinha acontecido na vida, e, do resto da tropa, um ou outro sacana reconhecidamente sacana para os soldados – e pouco mais.»

Mas, tenho de confessar: o universo da malta, sim, esse sempre mexeu comigo, mas cada pessoa de per si, isso não: vocês eram uma nebulosa.

Mas agora começa a não ser assim.

Vida dura, momentos difíceis... - Capeia Arraiana

Vida dura, momentos difíceis…

Aqueles dias marcaram-nos a todos

«Retomei a afectividade.
34 anos depois, meu!
E estava a saber-me tão bem.
De repente, bum!
Uma chatice a toldar a coisa.
Vamos ver se isto tem remédio.
Acho que sim: aqueles dias marcaram-nos, mas todos somos inteligentes. A prova é que estamos aqui vivos. Outros não estão. E isso é que é o essencial: nós estamos por aqui.
Gostaria de levar-vos comigo para onde vou: para o meu dia-a-dia de hoje, que é muito bonito, muito pró-activo, muito criativo e muito proveitoso para terceiros. Um dia conto umas coisas e verão que é giro.
Mas, para tanto, têm que me dar oportunidade, meus caros amigos…»

Repito: depois de quase 40 meses juntos e muitos deles passados em cenário de iminência de perigo, em que a cada minuto qualquer de nós poderia ir-se embora e nunca mais aparecer… ficam todos os laços e u ma relação muito difícil de entender por parte de quem nunca esteve nessa situação de perigo de vida minuto a minuto.

Parece mariquice, mas não é: é a real realidade que nos afecta a todos os que por lá passámos.

Desculpem pois o abuso meio sentimentalão, meio realista – mas sempre muito sincero, como espero que saibam.

(Continua.)

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