Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (05)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 05).

Franklim Costa Braga - Viagens de um GlobeTrotter - Capeia Arraiana

Franklim Costa Braga – Viagens de um GlobeTrotter – Capeia Arraiana

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1966

>> 3.ª viagem – De 4.7.1966 a 13.8.1966 <<

Conselhos

No tipo de viagens como as feitas por mim, à boleia e sem guias, convém levar mapas de todos os países que vamos visitar, dinheiro suficiente para comer e dormir, ainda que nos Albergues da Juventude, saber os câmbios dos países visitados para comprar qualquer coisa, conhecer um pouco a história do que vamos ver e desconfiar de guias e outros que nos querem chupar ou roubar. O saco-cama, pijama, apetrechos da barba e uma toalha são peças essenciais para nos acompanhar. Convém transportar uma capa de plástico, que a chuva, por vezes, surpreende, mesmo no Verão. Umas conservas fazem jeito aquando de imprevistos. Uma garrafa para encher de água dá muito jeito, sobretudo no Verão. Um kit de agulha, linhas e um ou outro botão, do tipo que se encontra nos hotéis, também dá jeito.

Eu preferia comprar bilhetes postais por me ficarem mais baratos que tirar fotos e eram de melhor qualidade. De um modo geral, só usava a máquina para fotografias em que eu figurasse. Aconselho a que datem as fotos, coisa que eu não fiz e agora me poderiam ajudar a recuperar o passado. Felizmente, coloquei o ano em muitas delas. Colocar o ano nos bilhetes postais será também aconselhável. Não descrevi os lugares fotografados ou de que adquiri bilhetes postais e agora tenho dificuldade em reconhecer muitos deles nas fotos e as datas em que adquiri os postais.

Lembranças

Tendo gosto por obter certas lembranças dos países por onde passamos, não havendo muito dinheiro para as comprar, algumas são de fácil aquisição, sem gastar dinheiro ou gastar pouco. Eu coleccionava copos, sobretudo de marcas de cervejas, e bases de copos, instrumentos musicais, bonecas, sabonetes, frascos de champô e kits de agulha, linhas e botões. Pedia copos nos cafés e hotéis. Nunca tirei nenhum sem autorização. Quando viajei de avião ficava com talheres de metal, algum copo mais bonito e mantas, objectos que, por vezes, até pedia às hospedeiras e que me apercebi que não se importavam que ficasse com a manta. Instrumentos musicais, sobretudo flautas, e bonecas comprava-os baratos. Só gastava um pouco mais dinheiro em quadros ou objectos que apreciava verdadeiramente, como o Livro da Medicina Tibetana, uns jarros de clausonné, máquina de filmar, pinturas nepalesas do Buda ou algum prato grande de cobre. Assim adquiri muitas lembranças que ainda guardo e que ornam as minhas paredes ou prateleiras de estantes. Outras lembranças foram-me oferecidas quando fazia de guia. Quando passei a dormir em hotéis, guardava sabonetes e frascos de champô que sobravam. Guardei muitos bilhetes de avião, bording passes, bilhetes de visitas a museus e monumentos, bilhetes de autocarros, facturas de compras e de comida e bebida em restaurantes e bares, etc. São pequenas coisas que me fazem lembrar dos países por onde passei ao olhar para elas. Um bom treino da memória para evitar a Alzheimer!

Carta de Estudante - Capeia Arraiana

Carta de Estudante

No Verão de 1966, de 8 a 29 de Julho, segundo o Certificat d’Assiduité, embora a Carte d’Étudiant Étranger diga que a bolsa iria de 1 a 31.7.66, fui frequentar um Curso de Verão em Strasbourg pago pelo governo Francês (na altura, De Gaule)(ver carta).

Carta de Estudante - Capeia Arraiana

Carta de Estudante

4.7.1966 – Partida de Quadrazais com o Rui Lourenço na sua Peugeot 404. Entrada em Fuentes. Andámos todo o dia e encostámos umas duas horas já perto de Irun, até porque a Alfândega fechava de noite.

5.7.66 – Tenho um carimbo no passaporte de entrada em França. Entrámos por Irun. Seguimos para Paris, onde dormi na barraca do Rui duas noites, em Saint Denis. Mas, claro, aproveitou-se de mim para levar cestos de presuntos, queijos, chouriços e várias garrafas de vinho do Porto para venda aos portugueses em Paris. Boa parte dos queijos tinham sido comprados em Alcains, onde fui com ele. Na Alfândega francesa em Handaye eu disse à polícia que era tudo para mim, para levar para Strasbourg, tendo-lhe mostrado o documento de frequência da Universidade. Passou tudo sem problemas. O único problema foi com uma ou duas garrafas de anis, que ficaram apreendidas.

6.7.66 – Na manhã do dia 6 de Julho, à porta da barraca, encontrei o ti C’stantino e a nora Maria Luísa. Em Saint Denis vivia grande parte dos quadrazenhos. E, conhecida a minha presença ali, muitos vieram ver-me. De tarde fui a Courbevoie visitar a Françoise que fazia parte do grupo de 65. Já regressei tarde, de noite. Encontrei o Silvério Rabeco no autocarro e ele é que me indicou onde devia sair. Errei pelas ruelas lamacentas de Saint Denis e não foi fácil encontrar a barraca.

Encontrei um argelino e perguntei-lhe se conhecia o Julinho, a quem tratavam por regedor de Saint Denis, e lá me indicou onde morava. Dali foi fácil ir para a barraca do Rui. Era quase meia-noite e já estavam preocupados comigo. Assim, conheci como viviam os quadrazenhos em França. A partir daí, quando os encontrava em Quadrazais nunca mais ousavam gabar-se de trabalhos leves, mostrando as mãos sem calos.

Daí eu fui para Strasbourg, talvez de comboio, já que me lembro de ter passado pela gare de l’Est a pedir informações.

Em Strasbourg fiquei hospedado no Foyer des Étudiants, onde estava também o norueguês Fred e o italiano Cláudio. Na universidade conheci a Renata, bonita polaca, loura, alta, com quem troquei umas carícias.

Este curso de Verão era leccionado por vários professores, consoante as matérias a dar. Havia dois franceses residentes, mas também um que era leitor de Francês em Valhadolid. Com ele fomos visitar uma cidade, Saverne, creio, onde assistimos à noite a um espectáculo de «Son et lumière». Colmar e Parlamento Europeu foram outras visitas, para além da parte velha de Strasbourg com suas casas com madeiras cruzadas por fora e a catedral (ver postal). Recordo que nos pequenos canais que ladeavam as avenidas nadavam patinhos.

Catedral de Estrasburgo em França - Capeia Arraiana

Catedral de Estrasburgo em França

Lembro-me dum episódio num café, em 23 de Julho, onde assistia pela televisão ao jogo «Portugal-Coreia do Norte» para o Mundial de 1966 com italianos, que haviam perdido com a mesma Coreia, a gozarem comigo por Portugal estar a perder por 3-0 ao intervalo. Quando Eusébio meteu 3 golos e acabámos por ganhar o jogo por 5-3, fui eu a exultar e a gozá-los. Interveio, então, um africano para dizer que o Eusébio não era português, mas sim moçambicano.

Em 27 de Julho de 66 obtive o visto da Jugoslávia no seu consulado em Strasbourg, com a intenção de visitar esse país com um grupo de Brest, que me havia convidado para tal.

Em 29.7 recebi o diploma de frequência do curso. Nesse mesmo dia parti à boleia para Brest.

Percorri uns 160 quilómetros até uma aldeia – Le Corroy-Naugis –, perto de Nancy. Aí, já quase noite, não consegui boleia, ainda que me tivesse colocado junto dum candeeiro público, para me verem bem. Procurei uma pensão para dormir, mas não havia. Um rapaz, o Maurice, levou-me para sua casa, onde dormi, e sua mãe ofereceu-me o jantar. No dia seguinte fui facilmente para Paris e depois para Brest. Mais uma vez encontrei gente boa.

31.7 – Fui com um grupo de Brest que ia para a Bulgária, a convite deles, já que neste grupo iam muitos do grupo de 1965 que guiei em Portugal. Saímos de Brest com uma guia italiana. O itinerário seguido foi: Brest – Rennes – Le Mans – Tours – Lyon – Grenoble. Devemos ter dormido num parque de campismo entre Tours e Lyon, percorridos uns 700 quilómetros.

1.8 – Entrámos em Itália não sei se por Aosta – Novara – Milão – Pádova – Veneza, ou se descemos a Nice e seguimos por Turim – Padova – Veneza. Andámos bem uns 700 quilómetros ou mais. Não consigo reconhecer o local junto à fronteira onde foi tirada a foto que apresento. Talvez tenha sido tirada em Ventimiglia.

Grupo na fronteira da França com a Itália - Capeia Arraiana

Grupo na fronteira da França com a Itália

Tenho uma vaga lembrança de ter dormido com o grupo num parque de campismo de Veneza, ainda longe da cidade. Tenho um postal assinado pelo grupo em Veneza (ver foto), como sinal de despedida em breve. Em Veneza visitei a ponte dos suspiros, o palácio do Duce, a igreja de São Marcos, subi a torre do relógio com seu sino onde batem as horas dois mouros, a praça de São Marcos e seus músicos e o movimento desta. Vi gôndolas e canais.

Assinaturas do grupo - Capeia Arraiana

Assinaturas do grupo

2.8 – Entrei na Yugoslávia com eles. Tinha tirado um visto para a Yugoslávia no consulado deste país em Strasbourg no dia 27 de Julho, como referi atrás. O polícia, mal viu o meu passaporte, exclamou desdenhosamente: «Eh! Salazar!» Ia apor o carimbo no meu passaporte, mas eu pedi-lhe que o colocasse num papel à parte, já que não tinha autorização de Portugal para ir à Yugoslávia. Creio que não o pôs em lado nenhum e deixou-me passar. Não me recordo do itinerário que o grupo ia seguir. É provável que eles tenham ido pela Hungria e Roménia. É, pois, natural que tenham seguido um itinerário que não era o que eu pretendia, já que não tinha visto para a Hungria e Roménia, por onde eles devem ter seguido.

Visa no Passaporte na fronteira da Jugoslávia - Capeia Arraiana

Visa no Passaporte na fronteira da Yugoslávia

Deixei-os em Postojna. Eu continuei à boleia por cima duns montes tentando tocar a minha flauta de madeira trabalhada, que acabara de comprar em Rijeka ou Postoina, e que ainda conservo, tendo regressado para Trieste, Milão, Turim, onde visitei a igreja do Santo Sudário e o centro da cidade e onde dormi.

Carimbos na fronteira de Itália - Capeia Arraiana

Carimbos na fronteira de Itália

3.8 – Segui para Como, onde passeei ao longo do lago e dormi. Entre França, Suíça, Áustria, Bélgica e Alemanha não tenho carimbos no passaporte porque nessas fronteiras já não se usavam.

4.8 – Deixando Como, entrei na Suíça. Fui por Lugano em direcção a S. Moritz e dormi em Zurique no albergue da juventude. Lembro-me de contornar montanhas na zona de fala italiana e olhar cá para baixo. Apanhei um eléctrico à noite, certamente para ir para o albergue. Vi o lago e dei uma olhadela pela cidade na manhã seguinte.

5.8 – No dia seguinte fui para Berna, onde dormi. Lembro-me da Cova dos Ursos (ver postal), do rio Aar, a correr ao lado, e do centro da cidade com casas diferentes nos tectos, janelas e torres aguçadas e estátuas com bandeiras coloridas.

Bilhete Postal de Berna - Capeia Arraiana

Bilhete Postal de Berna

6.8 – Dormi em Genêve ou algures em França, pois tenho um carimbo em Francês no cartão dos albergues, sem data nem local.

7.8 – Lembro-me de ter apanhado uma boleia em Bourg ou Dijon com um rapaz francês, o Robert Bloch, que vinha de Istambul e me levou mais de 600 quilómetros numa 4L ou 2 chevaux até Paris, creio, na esperança que eu pudesse conduzir.

8.8 – Dormi algures. Continuei à boleia para Brest, onde fui visitar os amigos de 1965.

Em 9 de Agosto estava em Brest, em cujo Albergue da Juventude dormi. Visitei o Charly e mãe e outros amigos da excursão de 1965.

10.8 – Saí para Pouliguen, perto de Saint Nazaire, onde dormi.

11.8 – Rumei até Bayonne, onde dormi.

Durante os dias 12 e 13 de Agosto atravessei a Espanha em boleia por S. Sebastian, Vitória, Burgos e Salamanca, lugares já meus bem conhecidos, e entrei em Vilar Formoso no dia 13 de Agosto.

Segui para Portugal nalguma boleia de longa distância, já que em 13.8.66 saía de Espanha e entrava em Portugal por Vilar Formoso. Não sei se dormi no caminho.

O polícia-pide que viu o meu passaporte na fronteira devia ser pouco inteligente, já que viu no visto da Jugoslávia o da Suíça. E vá de me dizer:
– Não pode sair mais de Portugal, porque esteve muito tempo na Suíça!

Não lhe respondi.

Uns dias depois estava eu a sair por Badajoz. O pide aí era mais esperto e disse-me que não poderia saír por ter estado na Jugoslávia sem autorização. Como já o conhecia de tantas vezes ali passar, respondi-lhe:
– O seu colega em Vilar Formoso já me chateou pelo mesmo motivo.
– Bem, vá lá embora! – acabou por me dizer.

E lá fui eu estrada fora pedindo boleia.

Desta vez não sei se continuei à boleia para Lisboa ou se fui até à minha aldeia.

(Fim da Etapa 05.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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