O inquilino

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Não é um inquilino qualquer. E até recebe renda em vez de a pagar. Mas não deixa de ser um inquilino, porque no máximo o contrato só dura oito anos. E a titularidade do prédio pertence ao Governo Federal dos Estados Unidos. O facto é que um belo dia de janeiro este inquilino é surpreendido com um calor tórrido de quase 40 graus.

O inquilino - Capeia Arraiana

O inquilino

Ao princípio ainda pensou que o ar condicionado se teria avariado. Normalmente em janeiro em Washington D.C. neva e faz um frio de rachar o dente. Porém os assessores confirmaram o inacreditável: a comunicação social mencionava em todos os órgãos de informação de que temperatura máxima prevista para aquele dia rondaria os 42ºC.

Perante um cenário dantesco entende chamar os seus conselheiros para discutir o que se passaria. Estava nas vésperas de fazer o Discurso do Estado da União no congresso americano, e seguramente haveria uma interferência dos inimigos externos ou até dos malandros dos democratas.

A sua principal preocupação era o que iria escrever no Twitter. Nem pensar em dar razão a essa malta do ambiente! Agentes da China e da Rússia que só querem dar cabo da economia americana.

Nestas situações a administração americana é célere. Em menos de 10 minutos, logo apos a convocação presidencial, estavam todos na sala oval. Felizmente já estava uma temperatura amena porque rapidamente os técnicos tiveram de reprogramar o ar condicionado para os dias de Verão.

Mas o ambiente era tenso. A frescura que agora soprava não arrefecia a cabeça do inquilino, tendo começado a reunião numa gritaria lírica que queria saber numa hora quem seriam os responsáveis por este atentado à segurança do estado.

O silencio era total. Ninguém pretendia opinar num «clima» daqueles e aparentemente sem qualquer explicação plausível. Até que alguém sugeriu que se falasse com um meteorologista. Um académico que fosse consensual. Decidiu-se que o conselheiro de segurança falasse com a CIA, tendo esta enviado para o Mail do presidente segundos depois um ficheiro com milhares de nomes de vários países. Entretanto surge uma chamada da CIA: pediam desculpa, mas esse ficheiro indicava os videntes referenciados. O solicitado seria já enviado.

Sem dúvida que a lista era bem mais pequena e decidem por um Físico da Universidade de Stanford (Califórnia) especialista em clima. O próprio inquilino presidencial fez a chamada com base no número fornecido pela CIA. Infelizmente era o filho que agora usava o telemóvel do pai, mas este, quase em sentido, forneceu amavelmente o número que todos almejavam.

Anticiclone dos Açores - Capeia Arraiana

Anticiclone dos Açores

O professor foi apanhado de surpresa. Ao princípio julgava tratar-se de uma brincadeira de mau gosto, mas a determinação presidencial acabou por convencê-lo. A explicação foi sucinta, o anticiclone dos Açores deslocalizou-se para a costa leste permitindo que os ventos quentes do Sul alterassem o clima normal para aquela época do ano.

Ficaram todos estupefactos. Que «arma» seria aquela? E os Açores não é território americano? Sem dúvida que a segurança da nação estava em perigo com este «anticiclone».

Gerou-se uma grande discussão até que alguém consultou o Google e viu que os Açores é um território peninsular português e também, via Google, se constatou que o anticiclone não seria uma arma perigosa.

Mas o inquilino não desistia. Seguramente haveria «alguém» por detrás disto. Era uma malvadez! Aquecimento global só no micro-ondas.

Decide então falar com o governo português, visto que o anticiclone lhes pertencia. Era urgente levá-lo de volta!

Os conselheiros sugeriram quebrar o protocolo de estado e falar diretamente com o Presidente português. Alias na última viajem a Washington, para além das selfies, trocaram os números de telemóvel. E todos ficaram surpreendidos com a cultura daquele estadista.

Mal ligou veio resposta em inglês de um caloroso abraço lusitano. Estava a fazer jogging na Trafaria e mostrou toda a disponibilidade em colaborar. Ao ouvir a questão não deixou de ficar perplexo, mas como nunca «desarma» garantiu que ajudaria o amigo americano nesta aflição, pese embora fosse noite em Portugal e, mesmo que não dormisse, só daqui a umas horas conseguiria propor uma solução.

Liga então para o IPMA (Instituto do Mar e da Atmosfera) e atende o funcionário de serviço que já tinha estado com ele e preservava a selfie na secretária ao lado da foto da sua família.
A resposta não pode ser mais conclusiva: uma avaria generalizada nos satélites americanos provocou uma serie de dados errados sobre as previsões do tempo na zona da Costa Leste, incluindo a zona de Washington. Seja como for o nosso Satélite POSAT (mesmo artesanal) confirma que a temperatura média naquela zona do globo subiu podendo dar alguma sensação de calor.

Marcelo prontamente, mesmo a fazer o seu jogging, liga ao velho aliado e questiona se, por acaso, alguém já terá ido à rua e sentir a temperatura. Efetivamente devido às fortes medidas de segurança ninguém daquela administração sente o ar da rua há muito tempo. Mesmo quando vão de carro todas as entradas de ar estão cautelosamente fechadas. Não vá haver um atentado químico ou biológico.

O agradecimento americano não se fez esperar, e mesmo num tom de brincalhão, o inquilino pedisse para que as nossas forças retirassem esse maldito anticiclone.

Bem, nem pensar sair e apanhar esse ar contaminado e perigoso. Talvez perguntar a um jornalista de confiança para confirmar se estava a temperatura normal.

A resposta foi a que se esperava. Todos bem queriam um dia de Verão (já havia gente com manga curta por debaixo dos casacões), mas os termómetros andavam nos zero graus. Mesmo assim melhor que os oitos negativos de ontem! Mas efetivamente os dados oficiais da temperatura máxima para aquele dia eram 40ºC.

Donald não perdeu tempo. Pegou no telemóvel e twitou: Esses amigos do ambiente andam tão desesperados que até já avariam os nossos satélites! Aquecimento só mesmo nas suas cabeças!

Será mesmo Sr. Presidente???

Covilhã, 31 de janeiro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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