1971-74 – Os dias da Tropa (22)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Rio Luali em Buco Zau - Capeia Arraiana

Rio Luali em Buco Zau

A enorme quantidade de recordações, seja de situações de aflição seja de momentos com piada obriga-me a ser curto e grosso, como se costuma dizer. Ou seja: de vez em quando é preciso poupar nos pormenores e ir logo directo ao assunto. Não é disso que gosto. Mas tem de ser, caso contrário corro o risco de me tornar um «chato» repetitivo…

Assim, hoje decidi trazer algumas «curtas», como se diz na gíria da comunicação.

Luali, o Rio do Ouro

Já referi o Rio Luali, cujo nome significa Rio do Ouro, o que indicia que nas suas águas podem existir ou ter existido vestígios da presença de ouro.

E parece que assim era.

Pelo menos a história corria no «bas-fond» da tropa.

Contava-se entre os milicianos, de facto, mas apenas à socapa pois não havia provas nem certezas, que alguns dos militares profissionais (concretamente um sargento era sempre referido nesta narrativa) fariam negócio clandestino com pepitas de ouro do Luali.

Não sei.

A coisa era contada como correndo assim. garrafas de cerveja vazias seriam fornecidas pelos referidos militares a nativos locais para que estes as enchessem das pedrinhas do rio que tinham incrustado algum vestígio de ouro.

Em troca, por cada garrafa ganhariam 10 angolares dados pelo militar em causa.

Não sei, repito.

Mas lá que a coisa corria, isso garanto…

O café sempre foi muito, e bom, em Cabinda - Capeia Arraiana

O café sempre foi muito, e bom, em Cabinda

O café da Fazenda Alzira

Um adas maiores, se não mesmo a maior fazenda de café de Cabinda, ficava ali mesmo, no Buco Zau. A Fazenda começava logo à saída da Vila e estendia-se por muitos hectares. Toda ela, plantada de cafézeiros. O café era uma das maiores riquezas locais, de facto.

O café da Fazenda Alzira tinha muita fama.

A Fazenda era dirigida por um gestor oriundo de uma das nossas terras: Penamacor. Era o Sr. Viriato (assim era tratado por todos nós).

Para lá do café, na Fazenda havia uma sala de cinema e era lá que se ia de quando em vez ver um filme ou outro.

Os nativos trabalhavam no café e tinham acesso a comidas e bebidas na Fazenda, ao que nos diziam. E também iam ver os filmes. Por outro lado, a Fazenda Alzira, por ser enorme, serviria de ponto de refúgio e de fuga camuflada de alguns procurados pela então PIDE-DGS – lembram-se???

As nossas casas... já degradadas, claro... - Capeia Arraiana

As nossas casas… já degradadas, claro…

Um bairro para militares

À saída de Buco Zau havia agora um novo bairro, depois da nossa chegada: foi construído pela Fazenda Alzira e nós pagávamos renda ao Sr. Viriato. Estas casinhas eram ocupadas por oficias e um sargento que tinham consigo as companheiras (eu incluído). Dois capitães, um do Quadro e outro miliciano, dois médicos, três alferes milicianos operacionais e técnicos. Um grupo de amigos que ali aprofundou a sua relação e que se tornou em boa parte num substituto das nossas famílias e dos amigos que cá tínhamos deixado. Excepção feita para os dois militares do Quadro (capitão e sargento), que nunca se entrosaram connosco, efectivamente.

Xikuala puro, diz a legenda... - Capeia Arraiana

Xikuala puro, diz a legenda…

Cabinda, 1972: Xikuala, Xikuala

Trago-lhe hoje também uma transcrição de algo que escrevi há uns 14 ou 15 anos e que já publiquei num blogue meu.

É um descritivo de situação muito semelhante a outros momentos e outras cenas mais ou menos interessantes e por vezes até engraçadas que nos aconteciam no meio daquela permanente crise de vida ou morte…

Leia que vai gostar…

«Hoje, ao passear à beira-mar, e perante um grupo de andinos que por ali têm negócio de fim de tarde e noite montado no paredão da praia, lembrei-me, palavra puxa palavra, a propósito de estaturas, milénios de alimentação, plantas especiais e outros «discorreres» das palavras, daquele guia que nos levava floresta virgem adentro em segurança e pelos fiotes (veredas estreitíssimas que só eles, de lá, conheciam). E lembrei-me da sua «pastilha elástica» preferida que andava sempre a mascar: xikuala. Muita xikuala. Uma simples casca de árvore que há a rodos na floresta: vulgo, pau de Cabinda.

À chegada, nenhum de nós sabia do que se tratava. Mas depois fomos percebendo. Era, nem mais nem menos, do que «pau-de-cabinda» mesmo. Dito de outro modo: excitante sexual. Sexual e não só. Claro que, para o velho guia (mais de 70 anos, segundo dava para perceber), ali no meio da floresta com 30 jovens, era uma fonte de energia e nada mais.

…Conversa de hoje, à beira-mar

Palavra puxa palavra e eis-nos a divagar sobre os usos e abusos, por transformação química, de outras plantas: desde logo a papoila (certas papoilas, claro), o cânhamo, canabis, coca… Plantas que, afinal, o Homem usa há milénios – mas sem o efeito reforçado pela indústria química e sem os excessos reforçados pelo negócio que injecta, insiste, facilita e até oferece oportunidades…

Nota final

Bato-te a pala, velho guia. Levaste-nos sempre para bem longe do MPLA, como te pedíamos de cada vez que saíamos do Bata-Sano (o morro onde estava o quartel)…».

Fim, por hoje: para a semana há mais. Volte: é sempre bem-vindo.

(Continua.)

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