Realidades que se vão despindo

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

No tempo em que, assiduamente, habitava a aldeia que me habita, os aldeões desafiavam o inverno em casas de paredes maciças que hoje pouco mais recolhem que silêncios.

Havia casas de baixos e casas de altos

As habitações eram de duas feituras – casas de baixos e casas de altos. As de baixos eram térreas, amplas e de pouco aconchego. O dia a dia misturava o espaço interno com refeições e dormidas. Ferramentas e utensílios decoravam paredes interiores lembrando autenticas áreas museológicas onde alguns animais domésticos gozavam de livre transito. As casas de altos apresentavam-se no topo de escadarias. Eram de maior conforto e pertença dos mais abastados. Nos dias que correm, umas e outras, só já quase abrem portas aos corredores da minha alma.
As friúras inverniças eram suavizadas em noites de longos serões nutridos de muitas estórias, perante acesas fogueiras que, flamejando, estalavam em pedaços. Moços e moças apresentavam-se aos pares, provavam vinhos, deliciavam-se com jeropigas e saboreavam receitas que as gerações cuidaram no tempo por forma a trazê-las aos nossos dias. As noites davam em manhãs na altura em que a serra colhia intimidades entre as árvores. Ao mesmo tempo, as pedras combinavam com as águas o emendar dos leitos das ribeiras.
Vivia-se, sim, uma beleza difícil de dissuadir.
Trabalhava-se a terra com temperança e sensibilidade e a aldeia constituía um lugar de ação sendo sítio onde o povo, dedicado, desenrolava os seus dias como se aplicasse esmeradas estratégias. Mas, na verdade, tudo estava apenas prescrito na tradição.
Não se falava de ecologia mas preservavam-se espaços verdes. Não se conheciam sociedades protetoras mas cuidavam-se os animais.
Todos os habitantes eram trabalhadores da terra mas também gente de acertadas palavras pelos ditos que lançavam.
Hoje, a saudade vai-se desenhando em cada rua, em cada recanto.
A minha rememoração continua a mostrar-me o caminho térreo para o coração da aldeia que seguia entre montes subindo e descendo. No centro do povoado, a minha lembrança continua a oferecer-me o murmúrio das árvores que o vento embalava e os sons das águas correntes que rodeavam as pedras, trazendo á memória noites de tempestade.
Confesso que a aldeia me embriagava, sobretudo enquanto criança, com tons e sons dos seus espaços idílicos, regados por dias pluviosos ou humedecidos por chuva miudinha que, fazendo com o sol, braço de ferro, pintavam o céu em cores do arco-íris.
Coabitava-se, pois, com os anjos e demónios da natureza, criadores de perfeitas e naturais aguarelas a encher distâncias em mares de encanto.
Ficar-nos-ia, então, a alma oca se não tentássemos realçar tamanhas realidades que se vão despindo, fazendo-as constar em folhas de papel mesmo sabendo que, um dia, também ele se deixará amarelecer pelo toque do tempo.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Realidades que se vão despindo

  1. Palha diz:

    Gostei, do que li.
    Um abraço.

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