Auschwitz

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Dia 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, precisamente, o dia em que o campo de Auschwitz foi libertado, em 1945. Evoca-se a morte de seis milhões de judeus e de um número considerável de ciganos, homossexuais, deficientes… Talvez, um dos lugares, onde essa memória esteja melhor preservada, seja o museu de Auschwitz, nos seus dois núcleos (I e II). Visitei-o há poucos anos e faço aqui um relato.

Pavilhão com sapatos dos prisioneiros na área museológica de Auschwitz - Capeia Arraiana

Pavilhão com sapatos dos prisioneiros na área museológica de Auschwitz

Em Auschwitz I, está instalada a área museológica que corresponderá, dos quarenta e tal pavilhões, a menos de um terço. Nos primeiros, há informação, sobre a guerra, a deportação, a viagem, a chegada, a vida no campo (o trabalho forçado, as intermináveis filas, os prisioneiros, os corpos deformados, os guardas, os fornos…), documentada por escritos, mapas e fotografias. Algumas são tão lancinantes que parece que sentimos a separação, o desespero, o medo, a exaustão, a fome, a humilhação… em cada um daqueles rostos.

Nos pavilhões seguintes, estão expostos objetos encontrados no campo: roupas, sapatos, óculos, próteses, utensílios de cozinha, malas, com nomes e direções, uma enormidade de cabelo (rapavam as pessoas, antes de as gasear, e utilizavam o cabelo para forrar os casacos das tropas, fazer colchões…), e latas de Zyklon-B, o tal gás que matava em 20 minutos. Impressiona a quantidade e a variedade de objetos, há de todos os tamanhos e feitios. Aqui, morreram pessoas de todas as idades.

A visita segue até ao muro dos fuzilamentos, onde, antes do fabrico do gás, eram mortas, diariamente, inúmeras pessoas. Há um memorial, com flores e velas. É um lugar, particularmente, terrífico, em si, e porque fica entre o pavilhão 10, o das janelas entaipadas, pintadas de preto, para que ninguém visse o que lá se passava (esterilização de mulheres e outras experiências macabras, realizadas pelo médico Mengele) e o pavilhão 11, o da prisão, para quem não cumprisse qualquer das regras.

Por fim, o forno crematório, o de oitocentas pessoas. Através de um pequeno corredor, entramos no compartimento, onde as pessoas se despiam, pensando que iam tomar banho (há também um memorial); segue-se a câmara de gás, com o alçapão, por onde era lançado o produto; a seguir, diante de nós, ali, está o forno (algo destruído), com as portas abertas… Para mim, foi o ponto mais impactante, pelo que diz daquela máquina de morte.

Os outros pavilhões ou são de apoio ao museu ou são de países que perderam cidadãos, neste campo (Holanda, Hungria, República Checa, Eslováquia…), com exposições próprias que não fazem parte das visitas normais. Já fora do campo, visita-se a casa do comandante (Rudolf Höss) e também a forca onde foi morto.

Em Auschwitz II (Birkenau, a 4 quilómetros de distância de Auschwitz I) quase tudo foi destruído; restam o edifício da entrada, dois ou três pavilhões, a linha férrea, uma carruagem, na rampa, e placas a assinalar os outros locais. Mas, foi o maior campo de extermínio nazi: 4 fornos grandes, com capacidade para 2000 pessoas cada; 350 barracões de madeira, alinhados de cada lado da linha férrea, por onde todos os dias chegavam milhares de judeus, vindos de toda a Europa. Destes, oitenta por cento eram mortos, nesse mesmo dia; ficavam os que podiam trabalhar, até ao dia em que, já sem forças, seriam também selecionados para morrer. Foi assim, até ao dia em que os russos libertaram o campo.

:: ::
«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

5 Responses to Auschwitz

  1. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    Tive oportunidade de fazer esta mesma visita e ainda hoje guardo o horror que senti. Pela primeira vez percebi como o ser humano pode chegar a níveis de desumanidade impensáveis.
    Mas foi ali também que percebi que não nos devemos calar, nem fingir que não percebemos quando a injustiça e a ignomínia passam ao nosso lado.

  2. Manuel Luís Nunes diz:

    Em finais de Agosto de 2018 tive ocasião de percorrer os dois campos. Embora seja muito complicado fazer a visita, considero ser um excelente momento de reflexão sobre aquilo que o ser humano é capaz de fazer e cometer tão bárbaras e cruéis atrocidades! É não fingindo e divulgando tamanhas desumanidades que nos apercebemos das injustiças que o ser humano pratica e continua a praticar, apesar de tantas e tantas denúncias que são feitas.Nunca serão demais! Calar nunca! Denunciar e divulgar SEMPRE!

  3. Manuel Luís Nunes diz:

    Esqueci de referir que fiz questão de ir acompanhado do minha esposa e do meu filho um jovem de dezoito anos, bem como de um casal português amigo e, ainda de um casal polaco ( Família Chaberka)com os seus quatro filhos, tendo uma das filhas servido de cicerone.
    Bela e real lição de história. Gratos Madzia !

    • Maria Rosa Afonso diz:

      Obrigada, pelos comentários. Sim, somos capazes das maiores atrocidades. Temos de estar alerta e envolver, nessa tomada de consciência, o mais que for possível, os jovens. Percebo bem, porque fez questão de levar o seu filho, apesar da dureza da visita.

Deixar uma resposta