1971-74 – Os dias da Tropa (21)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

A gazela é da família do antílope - Capeia Arraiana

A gazela é da família do antílope (pintura)

Um acidente em zona de guerra

Há uns anitos, para lembrar um episódio bem triste da minha permanência naquela mata do Maiombe, escrevi estas linhas dirigidas aos meus camaradas de Batalhão no blogue adequado. Tudo isto também alusivo às gazelas da pintura que hoje aqui trago também para si…

«Lembram-se deste bicho aqui pintado? (Não é foto: é pintura). Pois bem, a gazela é da família do antílope. E havia lá bastantes. Tantas, que de vez em quando davam para uma refeição. Havia quem fosse à caça delas, mas de (imaginem)… de G3.

No Natal de 73, depois de ter ficado uns dias abandonado ao pé de um rio sem viaturas – a Berliet blindada, aquele monstro, tinha derrapado e enfiou com os Unimogs todos no rio (erro técnico meu: nunca os Unimogs deviam ter ficado atrás da Berliet naquela subida íngreme). Isto passou-se a uns quilómetros do PenKacta.

Mais tarde o Maia (engenheiro mecânico e grande amigão) foi-me buscar, rebocando tudo. Vínhamos com uma fome de cão.

Pois bem: no Quartel a malta já estava numa de jantar de véspera de Natal – e o acepipe era o quê? Gazela guisada. Soube bem com’ ò caraças, meus amigos…»

Duas Berliets Tramagal e cinco Unimog's - Capeia Arraiana

Duas Berliets Tramagal e cinco Unimog’s (Foto: D.R.)

O acidente que podia ter sido fatal

Permitam que lhes conte em meia dúzia de linhas como passámos então a véspera e dia de Natal desse fatídico ano de 1973.

Fui com o meu Grupo de Combate para uma zona chamada Pen’Kacta – território completamente dominado pelos guerrilheiros do MPLA. Fui fazer vigilância e no findo «afirmar» a soberania da tropa naqueles sítios.

Havia uma ladeira muito íngreme e no fundo um rio.

Para baixo, tivemos todo o cuidadinho e tudo correu bem.

Para cima, já na véspera de Natal, pus a Berliet à frente e os Unimogs atrás.

Erro fatal: a Berliet era blindada, muito pesada (muito mais do que vinha preparada de fábrica, claro).

O motorista não conseguiu segurá-la: ela descambou, vem por ali abaixo, dou ordem para toda a gente saltar para o chão… felizmente assim fizeram todos e ninguém morreu no acidente, que podia ter sido uma mortandade horrível.

A Berliet enfiou-se contra o primeiro Unimog da coluna, na subida agora em descida louca, começa a ganhar velocidade, arrasta os unimogs todos: zás: tudo para dentro do rio.

Nem munições nem comida nem nada: tudo dentro de água.

Sorte: o rádio saltou com o homem das Transmissões, e foi o que nos salvou de maiores dramas: conseguimos avisar em código o que tinha acontecido e onde estávamos. Fomos socorridos por camaradas… e ainda chegámos a horas da ceia de Natal – chamemos-lhe assim.

Mas foi horrível e podia ter sido bem pior…

(Continua.)

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