Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (03)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 03).

Franklim Costa Braga - As Viagens de um GlobeTrotter - Capeia Arraiana

Franklim Costa Braga – As Viagens de um GlobeTrotter

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1965

>> 1.ª viagem – De 14.8.65 a 17.9.65 <<
(Sem contar com uns 8 dias de viagem em Portugal. Estive uns 20 dias em Brest)

A ocasião de realizar os meus sonhos de aventura surgiu quando, em 1965, andava eu no 2.º ano da Faculdade de Letras de Lisboa, o Centro Universitário (Rádio Universidade), me convidou para acompanhar um grupo de jovens franceses, supostamente estudantes, que haviam solicitado a ajuda de um guia na sua deslocação a Portugal. Pensavam eles e, portanto, também eu tratar-se de universitários, mais ou menos da minha idade. Afinal, tratava-se de cerca duma vintena de trabalhadores da região de Brest, na sua maioria jovens, e outros tantos finalistas liceais franceses e uma ou 2 universitárias de Toulouse e Paris, que dormiam nos albergues da juventude ou faziam campismo, para o que vinham munidos das necessárias tendas.

Encontrei-me com eles em Braga, pela tarde, num largo em frente da Sé. Eles já deviam ter visitado a cidade. Eu ia de fato e gravata. Fartaram-se de rir e convidaram-me logo a mudar de roupa no próprio autocarro. Emprestaram-me uma espécie de biombo que se enfiava pela cabeça e vesti uma camisete. Em breve reconheci que o meu Francês clássico aprendido na Universidade não servia para comunicar com rapaziada que falava praticamente só em calão. E assim aprendi o Francês da rua. Comprados em Lisboa ou algures, provi-me de uma tijela, copo, um prato e respectivo talher para as refeições no campismo. Por vezes fazíamos campismo selvagem, no campo.

O grupo nas Caves do Vinho do Porto Ferreira - Capeia Arraiana

O grupo nas Caves do Vinho do Porto Ferreira

Visitámos o Porto com as suas caves de vinho do Porto Ferreira, onde alguém nos tirou uma foto do grupo. A minha foi assinada por todos no verso (ver foto). Acampámos no antigo campo do Académico, já desactivado. Aprendi nesta visita que ao guia ofereciam sempre algo. Recebi duas garrafas de vinho do Porto porque o grupo gastou uns bons francos na compra de garrafas de vinho. Aprendi que o guia tinha direito a receber prendas das lojas aonde levava o grupo. No Porto recebi ainda um barco rabelo em miniatura. Na Nazaré recebi 2 bonecos representando um elemento masculino e outro feminino do Rancho Tamar. Em Aveiro recebi um barquinho da ria. Para o sul já não havia prendas para o guia. E assim fiquei com algumas recordações que ainda conservo.

Visitámos Aveiro, Coimbra com o seu Portugal dos Pequenitos, Viseu e Guarda. Desviei-os um pouco da rota programada e levei-os à minha aldeia… Quadrazais. Foi uma surpresa para meus pais. Dormiram no curral onde meu pai deitou umas faxas de palha. Pela tardinha levei-os a ver a aldeia. Beberam água da Fonte, mas também uns bons copos de vinho do Porto e doutras bebidas. Parecia festa na aldeia e alguns, que tinham família em França, convidaram-nos a beber, entre eles o Rui Lourenço, que pretendia que lhe levassem para França uns bons pacotes de tabaco.

No dia seguinte continuaram o seu programa, passando pelo Sabugal, Sortelha, Castelo Branco, tendo visitado Alcobaça e a Nazaré, acampando num parque de campismo meio acabado num pinhal à direita da estrada, a uns quatro ou cinco quilómetros da Nazaré. Foi com eles que aprendi a montar tendas, o que me haveria de servir em futuras viagens. Não tenho fotografias porque nessa altura eu ainda não tinha uma máquina fotográfica. Chegámos à tardinha, mas deu tempo para dar uma saltada à Nazaré, a pé. Aquela rapaziada da Bretanha não tinha medo das ondas altas. E vá de cortarem as ondas. Eu, pouco habituado a tais ondas, já que apenas frequentara as praias de Carcavelos, tinha medo delas. Mas não podia ficar em pouco diante deles. E vá de cortar as ondas alterosas, sem problemas. Aprendi a fazer o que hoje provavelmente não faria. Quiseram ir pescar de noite nos barcos dos pescadores locais. As companhas até não disseram que não. Mas era precisa licença da capitania. E lá fui, como guia, solicitar tal autorização, sacada com a condição de nos repartirmos pelos nove barcos que iriam para o mar. Fazia frio no mar. Nós, desprevenidos, não levávamos agasalhos. Os pescadores mandaram-nos lá para baixo para os beliches e emprestaram-nos casacos apropriados. A sardinha surgia nos radares em grande quantidade. Há muito que não apanhavam tanta sardinha, a ponto de, como recompensa pela sorte que lhes demos, nos terem oferecido um cabaz delas. Assámo-las bem cedo na praia, regadas por um bom tinto tirado dum garrafão de 5 litros que alguém nos deu e que bebíamos ao som da cantiga: Ami José, ami José, (ou outro nome de rapaz ou rapariga), lève ton verre! Et, surtout, ne le renverse pas! Et porte-le au frontibus, au mentibus, à l’aquarium-Iglou, iglou, iglou (enquanto bebia). E após ter bebido: Il (ou elle) est des nôtres, il (ou elle) a bu son vin comme les autres.

Foi comer até fartar. Já manhã adiantada, cantámos e dançámos no largo da vila, cuja gente alvoroçada nos aplaudia. Com os meus vinte e dois anos, que desejava eu mais que este tipo de vida divertida?!

Continuámos a viagem para Lisboa. Devemos ter visitado Óbidos. Em Alverca tinha o Centro Universitário planeado uma visita a uma cimenteira e banho na sua piscina. Eu tomei a cimenteira Cimpor pela Cimianto, que visitámos. Apesar de não programada a visita, receberam-nos bem. Quem ficou danado foram os chefões da Rádio Universidade. Chegados a Lisboa, fomos acampar no Parque de Campismo de Monsanto. Suas Excelências da Rádio Universidade tinham programado um baile de recepção aos pseudo-colegas universitários. Estes chegaram atrasadíssimos e ficaram danados comigo, como se fosse eu o culpado de as moças não se despacharem. Enfim, ficaram zangados comigo e uns tantos salazaristas extremos queriam impor-me sanções. Mandei-os à fava e continuei com o grupo por minha conta.

Visitámos o essencial de Lisboa e depois partimos para Évora, minha bem conhecida, que visitámos. Gostaram tanto de mim que me convidaram a ir com eles um mês para Brest, o que eu aceitei de bom grado.

Saíram de Portugal pela fronteira do Caia em 13 de Agosto de 1965. Digo saíram, e não saímos, porque tive um percalço. Tinha-me esquecido em Lisboa do meu documento do Distrito de Recrutamento Militar (DRM) com a permissão de sair de Portugal. Nesse tempo, por causa da guerra colonial, quem aguardava incorporação na tropa necessitava desse documento para viajar para o exterior. Resultado: não me deixaram acompanhar o grupo, que ia para Toledo. Para desgosto do grupo, eles seguiram para Toledo e eu fiquei a dormir em cima dum muro em frente da polícia. Já era tarde. O DRM, onde meu irmão, já regressado de Moçambique, trabalhava como tenente, já estava encerrado a essa hora. Telefonei a meu irmão para sua casa e pedi-lhe que telefonasse à Pide do Caia a dar-lhe o número do meu documento. Ele preferiu tirar novo documento no dia seguinte no DRM. Pelas 9h30 do dia 14.8, a Pide anunciava-me que já podia seguir, que meu irmão já lhes tinha telefonado. Aí vou eu para a estrada à boleia.

Apanhei boleia rumo a Toledo. Como sabia o itinerário do grupo, fui direitinho ao parque de campismo, junto ao Tejo. Foi uma alegria ao verem-me e eu a eles. Fomos à verbena, à noite, e andámos na Montanha Russa. No dia seguinte, na visita a uma fábrica de armas, comprei uma espada dos Reis Católicos, que ainda guardo. Andei com ela por Seca e Meca, no meu regresso a Portugal, atada por fora à mala que eu levava, já que não cabia dentro dela. Mala! Ainda não tinha aprendido a ser prático. Em breve aprendi a usar um saco às costas do tipo da Mocidade e saco-cama dentro dele. Eram verdes (ver foto). Só anos mais tarde deitei fora os sacos guardados na minha casa da Costa. Recordações deitadas ao lixo!(ver foto)

O meu saco-cama e saco de dorso em campismo selvagem - Capeia Arraiana

O meu saco-cama e saco de dorso em campismo selvagem

Seguimos por Madrid, Logroño e o vale do Ebro, Pamplona- Terras vermelhas da República- e S. Sebastian. Tenho um postal das ilhas de S. Sebastian assinado por muitos do grupo: Charly, Anne Yvonne, Nicole, René, Raymond, Michèle, Eliane, Paulette, Marie Paule, Anne Marie, Suzane, Monique, Jacques, Danièle, etc.

Assinaturas do grupo no postal de S. Sebastian - Capeia Arraiana

Assinaturas do grupo no postal de S. Sebastian

A mère-aube (aubergiste) era a Anne Yvonne. Traziam um itinerário muito bem organizado com os endereços dos parques de campismo e muitas informações sobre Portugal, para além dum mapa. Era obedecida por todos. Esta organização só a conheci nos grupos japoneses, ainda num grau mais elevado. A seguir ao jantar juntavam-se todos no autocarro e era escolhido um do grupo para fazer o compte-rendu (relato) do dia por escrito, certamente para depois fazerem um como livro a guardar no Auberge de Jeunesse. Aprendi a fazer o mesmo nas minhas viagens, o que agora me auxilia muito neste meu relato das mesmas. Só tenho pena de o não ter feito sempre ou, se o fiz, terem desaparecido.

Também traziam uma brochura de canções para ocupar os serões ou cantar nas ruas, como fizeram na Nazaré. Ensinaram-me muitas delas e ofereceram-me um exemplar da brochura, que ainda guardo.
Em 19.8 cruzávamos a fronteira de Espanha, entrando em França por Irun-Hendaye. Chegámos ao destino, Brest, no dia 21.8.65. Dormi no Auberge de Jeunesse em Brest, onde adquiri a carta de membro, (ver foto) em 21, 22 e 23.8.65 e depois passei para a casa do chauffeur- o Charly, que me havia convidado a ficar em sua casa, onde vivia com a mãe.

Primeiros carimbos no cartão dos albergues - Capeia Arraiana

Primeiros carimbos no cartão dos albergues

Tinha ele uma oficina de reparações da parte eléctrica dos automóveis. Ajudava-o a limpar os dínamos, bem difíceis de ficar como ele pretendia. Íamos almoçar a um restaurante do tipo routier. No fim do trabalho levava-me a visitar as redondezas, Douarnenez (La Bigoudene), (ver postal com trajes), Concarneau, Plugastel-Daoulas, sós ou com o grupo, que se juntava no albergue aos fins de semana, à praia de Le Trécy e até íamos a algum baile. Em Brest visitei la Rade(o porto), le pont de Recouvrance, igreja de Ste Thérèse e a praça do comércio local, que visitava amiúde aos fins de tarde.

Trajes típicos da Bretanha - Capeia Arraiana

Trajes típicos da Bretanha

A língua, por vezes, prega-nos partidas. Apesar de dominar bem o Francês, uma vez em casa com o Charly e a mãe contei o que havia acontecido num baile. Havia conhecido uma moça a quem tinha dado um beijo. E disse: «J’ai baisé une fille.» Fartaram-se de rir. É que beijar em Francês diz-se baiser. Mas, em calão significa ter cópula com alguém. Só depois é que o Charly me explicou e eu fiquei corado e pedi desculpa.

O grupo ofereceu-me uma boneca de Plougastel, que ainda conservo.

O Charly tinha brevet de piloto aviador. Passado cerca de um ano recebi a notícia que havia caído no mar perto da ilha de Ouessant. É que, «qui voit Ouessant, voit son sang!» – Já dizia o poeta. Eu e o grupo tínhamos ido de barco até Ouessant, onde visitámos o farol de Créach, e passámos junto das ilhas de La Molène. De facto, o mar é terrível, a justificar aquelas palavras de um poeta francês. Recordo que na ilha de Ouessant os coelhos eram a pontapé. Tive desejo de ter ali a minha espingarda e arranjaria comida para todos. Tantos assim só vi no aeroporto Charles de Gaule, uns anos mais tarde.

Já não sei quando saí de Brest, de regresso a Portugal. À boleia visitei Rennes e Kimper, devendo ter apanhado alguma boleia longa, já que em 13.9 dormi em Paris e não tenho mais nenhum carimbo de albergues. Em Paris pernoitei no Albergue da Juventude no Boulevard Kellerman em 13 e 14.9.65, ou talvez até 15.9. Visitei a Tour Eifel, Versailles, o Quartier Latin, a Sorbonne, o Sacré Coeur, l’Arc de Triomphe, Notre Dame, passeei ao longo do Sena e sei lá que mais.

Ao saír de Paris, devo ter apanhado uma boleia directa à fronteira de Espanha, já que não tenho mais carimbos no cartão dos albergues e tenho no passaporte uma entrada em Espanha em 16.9. Quer dizer que não dormi pelo caminho.

Em 16.9, pela tardinha, um advogado basco que me dera boleia até S. Sebastian, enjoado porque eu andava à boleia, levou-me, sem eu o pedir, à estação de combóio de S. Sebastian. Acabei por me meter no combóio. Viajei toda a noite e entrei por Vilar Formoso de comboio já no dia 17.9.65, rumo a Lisboa.

(Fim da Etapa 03.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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