Casteleiro – A Serra da Pena

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

A Serra da Pena é um assunto atraente e inesgotável. Tenho a certeza de que os leitores vão apreciar mais uma vez estas referências a uma das iniciativas mais interessantes dos anos 20 do século passado na nossa região…

Hotel Serra da Pena - Hotel Águas Radium - Casteleiro - Capeia Arraiana

Hotel Serra da Pena – Hotel Águas Radium – Casteleiro (Foto: Maria Serra e Moura)

Ando a hesitar há que tempos se devo ou não trazer aqui um artigo que me veio parar às mãos e em que sou largamente citado – digo-o com modéstia mas com verdade.
Foi publicado no site «NIT.PT», na rubrica de «Fim de semana». Era o dia 21 de Julho de 2016 às 17:47. O texto é de Marta Gonçalves Miranda e as fotos são de Maria Serra e Moura, autora da colecção «Lugares Abandonados».

Mais: hoje, além de trazer de volta ao «Capeia» o texto tratado por Marta G. Miranda, trago ainda algumas fotos da Fundação Gulbenkian mas com as legendas na altura escritas pela autora do texto. Tudo com grande destaque naquele site, devo dizer. Vamos então ao assunto…

Hotel Serra da Pena - Hotel Águas Radium - Casteleiro - Capeia Arraiana

Hotel Serra da Pena – Hotel Águas Radium – Casteleiro (Foto: Maria Serra e Moura)

Edifícios abandonados: o hotel que nasceu (e morreu) por causa da radioatividade

«Numa altura em que se acreditava que os materiais radioativos tinham poderes curativos, nasceu em Sortelha um hotel e umas termas. Conheça o Hotel Serra da Pena, também conhecido como Águas de Radium».

uem passa pela estrada que liga Caria à aldeia histórica de Sortelha, distrito da Guarda, pode achar que avistou ao longe um dos muitos castelos de Portugal. A arquitetura é de facto semelhante, mas a sua história nada tem a ver com a monarquia. Aquelas são as ruínas das Termas de Água de Radium e do Hotel Serra da Pena, onde durante muitos anos se produziu água radioativa engarrafada (na altura achava-se que fazia bem) e se receberam hóspedes num hotel termal. Sim, aquele foi um local importante no País — até que se descobriram os malefícios da radioatividade e ninguém quis saber mais das termas ou do hotel. Quando abriu falência, o gerente do espaço levou tudo o que era de metal para vender — nem as tubagens escaparam.

Mas, recuemos um pouco…

Junto à aldeia de Quarta-feira, a cerca de 30 quilómetros da Covilhã, desde 1910 que se exploravam minas de urânio. Porque é que isto é relevante? Porque era a partir deste elemento que era extraído o rádio, uma substância altamente radioativa que no início da década de 20 se acreditava ter poderes milagrosos. Pois é, muito antes do desastre de Chernobyl e da palavra radioatividade causar calafrios, esta substância era incrivelmente popular. Fabricou-se quase tudo com rádio: cosméticos, tónicos, sais de banho, até chocolates. Acreditava-se que curava uma série de problemas físicos e mentais, desde o cancro à impotência sexual.

Como em qualquer boa história, nas Termas de Água de Radium também há um mito. E surge precisamente nesta altura, quando dizem que um conde espanhol veio para esta zona com a filha, que sofria uma grave doença. As águas curaram-na, e o conde — chamavam-lhe D. Rodrigo, mas supostamente tinha um nome diferente — mandou construir um hotel termal.

Ninguém sabe ao certo em que ano abriu o Hotel da Serra da Pena

… mas em 1922 foi obtido o alvará para a exploração de três nascentes junto às minas, onde foi atestada a presença de elementos radioativos. Quatro anos depois, o jornal regional “A Serra” falou pela primeira vez no hotel, que teria capacidade para 150 pessoas.

Nos anos seguintes, chegaram muitos hóspedes ao edifício de granito com cerca de 90 quartos. Os tratamentos nunca mais acabavam: compressas elétricas radioativas, aplicação de lamas também com rádio, e até a utilização de um aparelho para lavagem do cólon, que recorria à utilização de 35 litros de água mineral. Em 1927, num congresso de Lyon, França, as Águas de Radium foram consideradas das mais radioativas do mundo. Por esta altura já se comercializava água engarrafada, e há quem diga que era um sucesso de vendas na Europa. «Água Radium dá saúde, vigor e força», lia-se na publicidade da altura.

Fotos e legendas dignas de nota

Hotel Serra da Pena - Hotel Águas Radium - Casteleiro - Capeia Arraiana

Hotel Serra da Pena – Hotel Águas Radium – Casteleiro (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)

«Com cerca de 90 quartos e capacidade para 150 hóspedes, o hotel termal nasceu com o intuito de aproveitar os supostos poderes curativos das Águas de Radium. As águas provinham de três nascentes: Chão da Pena, Favacal e Malhada, também denominadas Curie 1, 2 e 3. O nome foi uma homenagem a Marie Curie, que conduziu pesquisas pioneiras no ramo da radioatividade. Há quem diga que esteve quatro meses nas Águas de Radium, no entanto não há provas concretas que a cientista tenha estado alguma vez sequer em Portugal».

Hotel Serra da Pena - Hotel Águas Radium - Casteleiro - Capeia Arraiana

Hotel Serra da Pena – Hotel Águas Radium – Casteleiro (Foto: Fundação Calouste Gulbenkian)

A lista de tratamentos nunca mais acabava

Havia mais tratamentos para além da balneoterapia: as lamas radioativas, as compressas radioativas e o aparelho Studa Chair. Quem descreve os tratamentos (e atesta a sua eficácia) é o engenheiro-chefe da Inspecção de Águas, Luiz Acciaiuoli, que publicou o relatório «Águas de Portugal em 1940».

«O tratamento metódico por lamas radioativas (…) a aplicação de lamas radioativas em artrites e artroses mono ou poli-articulares é sem dúvida uma ótima aquisição da Águas de Radium com rendimento terapêutico, bem comprovado (…). A aplicação de compressas elétricas radioativas G. Ray nas artrites, ciáticas, dores ováricas — provocam redução das dores. O aparelho Studa Chair para lavagem do cólon, com 35 litros de água mineral, produz uma boa desinfeção mecânica.»

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

4 Responses to Casteleiro – A Serra da Pena

  1. José Carlos Mendes diz:

    Vamos aclarar uma notinha, por favor:
    – hoje, a Serra da Pena pertence à Fregueisa de Sortelha.
    – Mas no passado era do Casteleiro.
    Porquê?
    Porque aquilo a que chamamos «Serra» da Pena era de facto «Chão da Pena» até o conde espanhol a ter comprado…
    Comprou a quem?
    Ao dono da Quinta de Santo Amaro (o Morgado, o Doutor de Santo Amaro, como queiram) – quinta esta que sempre foi e ainda é da Freguesia do Casteleiro.
    Portanto… está explicado…
    Também já escrevi um dia que aundo eu era pequeno, para as pessoas do Casteleiro, a Serra da Pena era quase uma filha adoptiva do Casteleiro, ainda…
    Violências da História?
    Talvez esta seja mais uma, sim, talvez…

  2. Lewis Rumbol diz:

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