Palavras com História (II)

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Há alguns anos escrevi uma crónica para o Capeia Arraiana com este título. Regressemos hoje ao mesmo tema, agora com outras palavras e outras expressões «com história». Usamos frequentemente essas palavras sem nos apercebermos muito bem da sua origem ou da sua evolução semântica, ou seja, das alterações de significado que sofreram ao longo dos anos.

Cambistas-banqueiros a trabalhar na sua banca. Pormenor de uma pintura a fresco italiana do séc. XIV - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Cambistas-banqueiros a trabalhar na sua banca. Pormenor de uma pintura a fresco italiana do séc. XIV

Usamos a expressão «erro crasso» com o significado de «erro grosseiro». Marco Licínio Crasso, que integrou o primeiro triunvirato romano com Júlio César e Pompeu, tinha alcançado uma grande vitóría militar contra Spartacus e o seu exército de 70 000 escravos. Todavia, foi derrotado, humilhado e morto numa outra batalha travada contra os Partos, um pequeno povo da Ásia Menor (actual Turquia). Tinha tudo a seu favor, incluindo a superioridade numérica, mas foi traído pela sua arrogância e pelo excesso de confiança, ao aceitar combater num vale apertado e ao desprezar as tácticas militares tradicionais dos exércitos romanos (que, aliás, ele conhecia muito bem). Cometeu um «erro crasso», trágico e fatal: segundo o historiador greco-romano Plutarco, esta derrota custou vinte mil mortos e dez mil prisioneiros.

A origem da palavra «Problema» também é interessante: na democracia ateniense existia uma Assembleia Geral de Cidadãos, a Eclésia, que aprovava as leis; estas eram previamente preparadas por um Conselho chamado Bulê; os projectos de lei submetidos pela Bulê à Eclésia chamavam-se pro-buleumas e consistiam, portanto, numa questão que a Assembleia devia resolver – um problema.

Uma nau a «ir por água abaixo». Livro de Lisuarte de Abreu (1549) - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Uma nau a «ir por água abaixo». Livro de Lisuarte de Abreu (1549)

As palavras «Privilégio» e «Privilegiado» têm também origem semelhante, embora sejam de raiz latina. O privilegiado era aquele que não estava sujeito à lei comum mas sim a uma lei especial, excepcional. Ou seja, era-lhe atribuído um privilégio – privi + legium (lei privada).

Deixando agora a Antiguidade greco-romana, vejamos por exemplo a palavra «Bancarrota», muito utilizada entre nós há poucos anos. Nas feiras medievais existiam negociantes (sobretudo italianos) cujo objecto de negócio era o próprio dinheiro: eram Cambistas, isto é, mercadores que trocavam moeda de uma região ou de um país por outra; e, em alguns casos, efectuavam empréstimos e recebiam dinheiro em depósito, a troco de um juro. Foram, verdadeiramente, os antecessores dos bancos. E faziam todo este tipo de transacções sobre uma Banca, colocada em qualquer local da feira. Todavia, por vezes o negócio corria muito mal e o cambista-banqueiro tinha que declarar falência. Então, num gesto simbólico, partia a banca onde trabalhava. Ora, em italiano, banca partida diz-se banca rota.

Todos conhecemos a palavra «Biscoito» mas poucos nos apercebemos da sua origem: trata-se de um pão ou um bolo seco, rijo, muito desidratado para se conservar melhor, que era originalmente preparado para ser armazenado e consumido nas viagens marítimas. Bis-coctus, em latim, significa cozido duas vezes, daí o biscoito. E, a propósito de viagens marítimas: usamos frequentemente a expressão «ir por água abaixo». Tem que ver com ganância, com a tendência para carregar demasiadamente as naus que vinham do Oriente com especiarias da Índia, sedas e porcelanas da China, tapetes da Pérsia e prata fina do Japão. Quando, numa tempestade, as naus ou os galeões se afundavam, ia tudo por água abaixo.

Um dos seis órgãos da Basílica de Mafra. Primitivamente, os foles de ar que alimentavam os tubos eram enchidos pelo foleiro - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Um dos seis órgãos da Basílica de Mafra. Primitivamente, os foles de ar que alimentavam os tubos eram enchidos pelo foleiro

Aqui há tempos, quando assisti a um concerto de órgão na Basílica de Mafra (onde existem seis órgãos do século XVIII recentemente restaurados, coisa rara no mundo), um dos organistas explicou-me depois o funcionamento moderno e antigo de um órgão de tubos, que necessita de ir enchendo permanentemente os «Foles de ar». Hoje, esse processo é eléctrico, mas, no passado, cada órgão tinha um empregado cuja função era encher os foles – era o «Foleiro». O leitor está familiarizado com esta palavra mas num sentido pejorativo, de alguém rude, com mau aspecto, inculto, por oposição ao organista. Isto é: alguém foleiro.

Uma calhandreira. Gravura francesa do final do século XVIII - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Uma calhandreira. Gravura francesa do final do século XVIII

E isto faz-me lembrar outro tipo de gente também socialmente desconsiderada: as «Calhandreiras». Como sabemos, nas cidades não havia esgotos (em Lisboa, as primeiras ruas a tê-los, desde a época romana, foram as da baixa pombalina). As pessoas iam juntando os dejectos em grandes baldes (os calhandros) que, de madrugada, escravas negras carregavam à cabeça e iam despejar ao rio – eram as calhandreiras, assim chamadas porque madrugavam como as calhandras (uma espécie de cotovias). E, quando se cruzavam umas com as outras, ficavam por algum tempo na conversa, isto é, na calhandrice.

Foi no século XVI, mais exactamente em 1536, que a Inquisição se estabeleceu em Portugal, sobretudo para vigiar os cristãos-novos, os judeus forçados à conversão mas sempre olhados com desconfiança. A expressão «andar com o credo na boca» relaciona-se com a situação de permanente perigo em que os cristãos-novos viviam, sempre assustados, sempre a «rezar o credo», com medo de serem denunciados e acusados de praticarem o judaísmo às escondidas. E os denunciantes eram muitos e secretos (os chamados «familiares» do Santo Ofício). Às vezes era-se denunciado por razões ridículas: por exemplo, por vestir camisa lavada ao sábado, sinal de que se estaria a considerar o sábado como o dia sagrado.

A primeira edição do Dicionário de História Natural, de Domingos Vandelli, o professor da Universidade de Coimbra que está na origem da expressão “não saber patavina” - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

A primeira edição do Dicionário de História Natural, de Domingos Vandelli,
o professor da Universidade de Coimbra que está na origem da expressão «não saber patavina»

Como o leitor habitual destas crónicas sabe, conheço razoavelmente alguns aspectos da História, mas de Física Quântica não sei «Patavina». É curiosa a forma como esta palavra entrou no nosso vocabulário. Em 1772, quando procedeu à reforma da Universidade de Coimbra, o marquês de Pombal convidou o naturalista italiano Domenico Vandelli (que depois aportuguesou o nome para Domingos Vandelli) a vir para Portugal ensinar Química e História Natural. Vandelli era natural de Pádua (Patavium em latim) e falava o dialecto da sua cidade, o patavi. Como os estudantes não entendiam nada do que ele dizia, afirmavam que não percebiam patavina.

Hoje, se uma criança nasce fora do casamento, o Código Civil obriga o pai e a mãe a registá-la com os apelidos dos dois. Mas até há pouco tempo isso não acontecia. Geralmente, no Registo Civil a criança apenas recebia o apelido materno e, no local do nome do progenitor surgia a expressão «Filho de pai incógnito». Era um ferrete depreciativo, uma marca ignominiosa, que deu origem a um verdadeiro insulto: ser «filho da mãe». Como sabemos, o Registo Civil só foi instituído em Portugal pela República, em 1911. Até aí, apenas existiam os registos paroquiais (de baptismo, de casamento e de óbito). E o preconceito dos párocos relativamente às crianças nascidas fora do matrimónio era tal que, quando registavam o baptismo de um «filho de pai incógnito» viravam o livro de registos ao contrário. Quando investiguei a demografia histórica de Aldeia do Bispo também encontrei alguns destes registos.

Vamos concluir com uma expressão mais divertida: «Estar nas suas sete quintas.» Porquê? Os reis de Portugal do final da monarquia possuíam várias propriedades na «outra banda» do Tejo, a norte de Setúbal, onde costumavam caçar e divertir-se (Piedade, Outeiro, Romeira, Alfeite, Quintinha, Antelmo e Bomba). Sobretudo o rei D. Carlos, amante da «boa cama e da boa mesa», fazia aí grandes caçadas para as quais convidava os amigos (e amigas?). E, longe da corte e da rainha, «estava nas suas sete quintas».

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

2 Responses to Palavras com História (II)

  1. José Carlos Mendes diz:

    Obrigado, A. Tavares. Mesmo na «mouche» das coisas que mais me interessam. Conhecia algumas mas aprende-se sempre, quando se quer….
    Bom Ano!

    • Adérito Tavares diz:

      Caro companheiro de escritas, J. C. Mendes
      Obrigado pelas suas palavras de estímulo. Também consigo tenho aprendido a conhecer melhor a nossa região, sobretudo o Casteleiro.
      Bom Ano também para si.
      Adérito Tavares

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