1971-74 – Os dias da Tropa (19)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

O meu plano é trazer aqui um resumo dos 38 meses e 11 dias da minha tropa: desde 21 de Julho de 1971 (entrada no Curso de Oficiais Milicianos da Escola Prática de Infantaria de Mafra) até 2 de Outubro de 1974 (aterragem no aeroporto militar de Lisboa, vindos de Luanda). Trarei apenas episódios marcantes, nunca esquecidos, que dormem acordados nos recantos da minha memória.

Crianças na sanzala em Cabinda - Capeia Arraiana

Crianças na sanzala em Cabinda (Foto: D.R.)

Tenho dado algumas informações um pouco técnicas, para fugir ao habitual em crónicas deste tipo. Ou seja: para não estar para aqui a lamuriar-me do quanto todos sofremos naqueles degredos da guerra colonial.

Claro que o meu caso é igual a muitos. Mas é do meu que sei falar. Das marcas, dos traumas, das dores de espírito eternas e fundas. Tão fundas que ainda duram e durarão em mim e em todos nós.

Elefantes em liberdade na selva - Capeia Arraiana

Elefantes em liberdade na selva

Buco Zau – O buraco do elefante

Como já escrevi antes, no meu caso, o destino foi uma vilória no meio da floresta virgem do Maiombe, em Cabinda, a 14 quilómetros do Congo Brazzaville e a 21 do Congo Kinshasa.

Maiombe, não esqueça: a terra dos elefantes… Buco Zau: o buraco do elefante!

Mas repito:
– Não vou contar desgraças da guerra. Isso, já está tudo espremido. Foram dias do diabo. 27 meses. Sempre a pensar que podia ser o último segundo. G3, granadas, bazookas, HK 21, lança-granadas-foguete… de tudo. E sempre tudo a rebentar, a disparar, a lembrar que não era treino mas coisa séria. Tudo marcadinho na memória até agora.

Aquartelamento em Buco Zau - Capeia Arraiana

Aquartelamento em Buco Zau

Traumas e mais traumas

Conto apenas um caso que mostra bem quanto os traumas nos afectaram a todos – e ainda cá andam…

No primeiro Verão que passei na minha aldeia depois da guerra (em 1975), quando a rapaziada às 6 da matina (como sempre se fez) desatou a largar foguetes… saltei da cama e escondi-me debaixo dela.

E confesso que ainda hoje reajo com stress a algumas circunstâncias como ruídos metálicos, motores de héli, barulhos fortes e bruscos próximo de mim.

Pancas e mais pancas

Há uns anitos, escrevi assim no blogue do Batalhão, dirigido aos meus soldados e a cada um deles: «O Maiombe é, como saberás, ou era um dos últimos locais onde os gorilas estavam bem na Natureza. E alguns de nós tivemos a felicidade de os ver em liberdade. Mas, com o desbaste de árvores ao ritmo de milhares por ano, esse paraíso tem vindo a ser posto em causa.»

Um grande amigo meu e grande jornalista, Carlos Narciso de seu nome, que já foi um grande repórter da SIC e que hoje está na França a dirigir um canal de TV de língua portuguesa, escreveu há sete anos na malograda revista «Em foco», um belo artigo sobre gorilas. Melhor, sobre o mal que os homens fazem aos gorilas por pura ganância.

Transcrevi-o para um blogue meu. Gostava que o lesses.

Às tantas, diz ele: «Os nossos parentes mais chegados – De todos os grandes macacos, o gorila é o mais difícil de observar, porque vive em pequenos grupos familiares e porque há cada vez menos. O gorila está em vias de extinção, não há mais do que alguns milhares em liberdade. A extinção desta espécie deve-se ao abate das florestas e à caça. Além de serem poucos, os gorilas vivem normalmente em florestas densas, onde o homem tem grandes dificuldades em se deslocar. O gorila é tímido e pode passar a vida inteira escondido do olhar dos curiosos.»

Como te lembrarás, naquele cenário digno dos tais filmes do National Geographic, havia gorilas à vista. Repara: há milhões e milhões de cidadãos que, mesmo tendo estado lá, nunca viram um gorila – o animal mais parecido connosco.

Por isso, considero-me feliz: eu vi.

E a minha paranóia, já cá, durante anos, era ir até ao Jardim Zoológico e ficar ali a olhar para o gorila que lá havia… e ele para mim, sem me ligar nenhuma.

Pancas, meu! O que é que se há-de fazer?

Mari Rose

Meus amigos! Gosto de contar as histórias laterais, que vivemos por causa da guerra, mas que nada têm a ver com a guerra…

Aí vão mais algumas dessas lindas memórias…

Lembram-se de já lhes ter dito aqui que os nativos de Cabinda falavam fiote? Bom. Parece que estávamos errados.

Isso era o que nós costumávamos dizer, mas parece que fiote é o nome que se deve dar à cultura de todo aquele território que era o antigo reino do Congo. Parece que kikongo / kikongue era a denominação geral desse território. E parece que a lígua que os kikongues falavam tem diversas entoações e dialectos, inclusive no território que hoje é Cabinda propriamente dita, onde a língua e a cultura fiote tiveram como é natural adaptações diversas ao longo dos séculos.

Mas por que é que me veio esta à tola?

Por uma razão muito simples: é que a palavra fiote para alguns de nós significava tudo o que fosse local: um pano, uma comida, uma pessoas, a língua.

Eles, os da terra, tinham hábitos delicadíssimos de que quase não dávamos conta, no meio da nossa guerra contra o medo de morrer. Comigo era assim. Mas imaginem qual não é a surpresa quando um dia chego a casa e me é contada a seguinte história:

A senhora que fazia limpeza lá em casa, um belo dia apareceu com um ovinho na mão com todo o cuidado, ofereceu-o e disse:
– Min’ senhor (queria dizer: Minha senhora), Mari Rose manda esta ovo pa mim senhor.

Maria Rosa (ou talvez mesmo Marie Rose, dada a influência do francês da República Democrática do Congo naquelas paragens) era a bébé de meses que transportava sempre no pano às costas.
Coisa mais encantadora – já viram? Era a maneira de a mãe agradecer o facto de trabalhar lá em casa e ganhar com isso uns angolares.

O ovo era uma coisa muito importante.

Vicente Doutor

O médico de uma das Companhias, num encontro do Batalhão nas Caldas da Rainha, em 2008, se não estou em erro, contou outra história real com a mesma piada ou mais ainda.

Ele assistiu lá ao primeiro parto da sua vida de médico: não havia tempo para irem até Cabinda e ele mesmo «fez» o parto ali, no Buco Zau. Passados uns tempos, viu os pais na rua, parou o Land Rover que era a ambulância e perguntou-lhes se estava tudo bem. Estava. Ia arrancar mas lembrou-se de perguntar o nome do miúdo. Resposta:
Vicente Doutor! – Era assim mesmo o nome do miúdo: Vicente Doutor, em homenagem ao médico.

Depois foram também buscar um ovo e ofereceram-lho…

Por onde andarão hoje a Mari Rose e seus pais e o Vicente Doutor e seus pais? Hoje terão 43 ou 44 anos, penso…

(Continua.)

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