O Adeus Português!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Muitos de nós já se esqueceram do flagelo dos compatriotas que apressadamente regressaram de Angola, Moçambique e Guiné, mas também de Timor, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Hoje sinceramente ainda não entendi esta retirada de grande parte dos portugueses, uma vez que estes novos países precisavam de quadros e, como se constatou, a saída de uns abriu as portas à entrada de outros, pese embora as províncias almejassem a tão desejada independência. Embora cada situação seja um caso particular, porque o próprio país não conseguiu igualmente exercer a sua influência política e cultural nestes territórios, o facto é que nunca se entendeu a «pressa» desta retirada deixando muitas famílias numa situação complicada do ponto de vista financeiro. Mesmo o Estado tendo conseguido «montar» uma verdadeira operação de resgate e de apoio aos designados «retornados», minimizando os «estragos», o facto é que a sensação que ficou foi de um abandono total destes territórios, fazendo lembrar a expressão popular: «Tudo ou nada!»

Caixotes dos Retornados junto ao Padrão dos Descobrimentos - Capeia Arraiana

Caixotes dos «Retornados» junto ao Padrão dos Descobrimentos em Lisboa (Foto: D.R.)

Ainda me lembro em garoto, no tempo da ditadura, ver na RTP publicidade a «convidar» os portugueses a emigrar para Moçambique. Deduzo que a grande maioria ia para França, conseguindo assim fugir à guerra, mas o facto é que o governo de então incentivava Moçambique, apenas Moçambique.

Curiosamente ainda hoje uma viajem a Moçambique é cara comparativamente a outros destinos. E também é estranho que Moçambique se conduza como nos países de influência britânica, em face da forte relação comercial com a África do Sul, pelo que entendi.

Relativamente às outras províncias, tanto quanto sei, haviam diferenças, nomeadamente religiosas, e do ponto de vista político Timor (e Macau) nunca tiveram uma oposição política forte contra a nossa administração.

No entanto, em África todas as ex-províncias tinham uma organização inter-movimentos de libertação, onde se incluía também São Tomé e Príncipe. A estratégia era atuar nos meios de comunicação social do «ocidente» e em condenações no Conselho de Segurança da ONU, com o objetivo de criar uma imagem negativa e prejudicar a ação da nossa política externa. Pessoalmente acho que estas ações foram mais eficazes que o conflito armado.

Esta iniciativa teve inicio na década de 50, baseada essencialmente em jovens estudantes universitários com apoio local de populações que não desejavam, de todo, a presença dos portugueses. Como na vida havia quem apoiava, mas também o contrário, e no caso africano, havia uma consonância das diversas etnias de cada país, ou províncias se recuarmos para a altura do conflito armado.

Para além das revoltas locais contra alguns abusos por parte de proprietários portugueses, muita de influência revolucionária veio dos movimentos de libertação que lutavam contra a presença francesa em África. Gostaria, no entanto, de salientar que a política colonial francesa era muito diferente, nomeadamente ao ponto de hoje ainda ter influência política forte em alguns territórios entretanto libertados. A França tem uma escola de formação onde as questões de defesa e política externa têm uma visão muito diferente da nossa.

Mas passado é passado e olhemos para o futuro. Felizmente os expatriados foram integrados na nossa sociedade, com muitos naturais africanos, facto que devo salientar, e com o tempo a pacificação nalguns dos novos países, como Angola, Moçambique e Timor, tem aberto «portas» para a cooperação bilateral, suportada financeiramente por organismos internacionais como o Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, União Europeia, etc. Mesmo com a concorrência de outros países, o facto é que Portugal mesmo assim tem conseguido provar a sua competência nestes projetos, em parte graças ao conhecimento do terreno e da proximidade cultural. Nalguns países o entendimento acaba por ser uma vantagem em relação à «concorrência».

Para muitos que viveram e nasceram nestes países, surge a possibilidade de regresso, havendo nalguns casos preferências nítidas por pessoas com naturalidade de terras africanas ou timorenses. Mesmo deixando o «conforto» das políticas socais europeias, nomeadamente educação, saúde e justiça, julgo que existem oportunidades que são de ponderar.

Ajudar o desenvolvimento de quem mais precisa - Capeia Arraiana

Ajudar o desenvolvimento de quem mais precisa (Foto: D.R.)

O facto é que enquanto houver esta globalização, o trabalho está em qualquer parte do mundo e hoje existem projetos interessantes, e importantes, principalmente nas áreas técnicas ligadas ao desenvolvimento.

E como na vida tudo é um ciclo, talvez seja adequado pensar que o «Adeus Português» seja uma eterna saudade que se vai «matando» com encontros, ou desencontros, por onde fomos criando raízes.
E por vezes não é meramente o aspeto do sustento e carreira da vida profissional. Há um lado humanitário importante que podemos contribuir através de ações de voluntariado, porque, nestes territórios, «tempo» ainda não é uma das principais preocupações e há muito para fazer!

Enganem-se, pois, que um regresso é uma perda de tempo, de qualidade de vida ou até de «proteção social».

A saudade, a amizade e o entendimento são o melhor do «Made in Portugal».

Cais de Alcântara (Lisboa), 1 de janeiro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to O Adeus Português!

  1. José Geraldes diz:

    Com amizade, em Angola costuma dizer-se “tamos juntos”

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