Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (01)

Franklim Costa Braga - Colaborador - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. Até há camionagens portuguesas e espanholas que organizam viagens regulares aos mais diversos recantos de Portugal e Espanha, ou até mesmo França, baratinhas, com oferta de um presunto, garrafas de vinho ou algo mais, com o intuito de propagandearem determinados produtos, como cadeiras eléctricas para massagens, panelas especiais, chás e produtos farmacêuticos para os pés ou outras partes do corpo, etc. Também fui numa delas visitar Cáceres e Mérida e até comprei a tal cadeira eléctrica, que ainda conservo. Parece que o lucro deles era venderem coisas sem factura, não pagando, pois, Iva e IRC. A acompanhar clubes de futebol é um sem número de viajantes, cá e lá fora. Associações de toda a espécie organizam viagens para tudo quanto é sítio. (Etapa 01).

Globetrotter - Franklim Costa Braga no Parque Eduardo VII em Lisboa - Capeia Arraiana

Viagens de um Globetrotter – Franklim Costa Braga no Parque Eduardo VII em Lisboa

PREFÁCIO

Não era assim há 50 ou 60 anos. Poucos eram os que viajavam para longes terras. Havia ainda muita gente que nunca vira o mar ou um comboio.

Mas, o espírito aventureiro do português, que o levou a Brasis, Índias e outras partes longínquas, permanecia em muitos, esperando a ocasião para o pôr em prática.

Eu sou um desses aventureiros. O longe sempre me atraiu. As aventuras foram sempre o meu sonho. Sempre desejei imitar Marco Polo ou Fernão Mendes Pinto.

Cartão de Estudante para viajar na Transportadora Setubalense - Capeia Arraiana

Cartão de Estudante no Seminário Maior de Évora para viajar na Transportadora Setubalense

Já no seminário de Vila Viçosa e Évora, que frequentei durante sete anos, revelei o meu espírito de aventura ao combinar com o Baleizão, um rapaz que viera de Moçambique, onde tirara o brevet de piloto aviador e que fazia uma ou outra viagem anual para manter o brevet, ir com ele numa das suas viagens no primeiro dia de férias de Verão. Nem me passou pela cabeça ter de pedir autorização ao Reitor, pois seria já em férias. Não entendeu assim o Reitor que, avisado por um meu colega mais velho, também do concelho do Sabugal (há sempre pides!), resolveu dizer na «sala das carapuças», onde semanalmente ouvíamos o que de errado havíamos feito na semana, que ninguém poderia ir para Lisboa passar férias sem sua autorização.

Lisboa era a perdição! Como eu não ia passar férias a Lisboa, mas tão-só passar por Lisboa para viajar com o Baleizão e ficar lá, talvez, um dia com meu irmão, que aí trabalhava num banco, claro que não pedi autorização nenhuma. Por isso, na última noite, a seguir ao jantar e oração na capela da Senhora da Purificação ou das Candeias, o Reitor chamou-me e andou comigo à volta dos claustros, dizendo-me que já havia falado com o Baleizão para não me levar com ele. Fiquei fulo. Não fui com o Baleizão, mas decidi não mais voltar para o seminário. Porque não fui ao encontro que tínhamos no meio das férias em determinados lugares do país (Fátima, convento de Singeverga, etc.), ainda me escreveu para voltar para o seminário. Mas eu, que não admitia que se metessem na minha vida, não voltei mais.

O Baleizão andava muito depressa. Nos passeios semanais eu acompanhava-o. Aproveitava a ausência dos superiores para meter no marco do correio alguma carta para meus pais, pois tínhamos de as entregar abertas ao prefeito que, depois de as ler ou não, as encaminhava para o correio. Não tinha nada a esconder e até escrevia pouco para casa, mas nunca admiti que me lessem as cartas.
Fazia, talvez, parte da educação deles vergarem-nos as vontades. Eu gostava de jogar hóquei em patins, tendo comprado os patins usados do meu primo e arranjado um stick na terra, feito de um ramo de carvalho. Pois o Reitor, ou o prefeito, entendeu que eu teria de jogar vólei. E um dia, a seguir à capela, mal me levantei, ele aguardou-me à porta. Fintei-o e saí pela outra porta. Pois teve a lata de me mandar chamar ao ringue e fazer-me a costumada palestra. Já estava farto de tanto me contrariarem. Era a rebeldia dos 17 anos!

As viagens que vos vou contar são todas verdadeiras, em todos os pormenores, por mais rocambolescas ou Fernão Mendes Pintanas que pareçam. Acreditem, se quiserem, no que vos vou narrar. Não são obrigados a acreditar nelas. Mas, podem ter a certeza que assim aconteceram. Tratarei de fazer acompanhar os textos de documentos que provem o que digo.

Foram milhares de quilómetros que fiz à boleia. Andar sempre limpo e barbeado era a minha vantagem sobre outros que encontrava nas estradas, sujos e rotos, sobretudo hippies ingleses. Por isso, não me juntava a eles e evitava que se pusessem a meu lado a pedir boleia. Outros milhares de quilómetros fiz depois de casado em avião.

O vício de viajar era tal que partia em viagens no Natal, na Páscoa, no Carnaval, Verão e até no intervalo escolar nos últimos dias de Outubro e primeiros de Novembro que, aliados aos fins de semana, totalizavam uns dez dias. Era tal a confiança em apanhar boleia que, uma ou outra vez, ainda eu ia num carro e já estava a pedir boleia ao que vinha atrás. E levavam-me!

Cheguei a apanhar boleias de milhares de quilómetros. Uma vez, um rapaz francês trouxe-me de Istambul para Paris. Apenas pretendia que eu conduzisse. Outra vez, na Lapónia sueca, apanhei uma boleia com um casal jovem (um sueco, seu irmão e uma francesa leitora ali numa escola, com quem o primeiro vivia) que me queriam levar uns 4.000 ou 5.000 quilómetros até Israel. Apenas aceitei boleia de uns mil quilómetros até Estocolmo. A minha rota era outra. Mas também tive dias aziagos, em que não conseguia sair do mesmo lugar e tive de dormir no campo onde me haviam deixado. Aconteceu-me isso no mesmo sítio na Turquia por duas vezes.

A técnica da boleia, que fui apurando, levou-me a aprender certas normas, que outros não seguiam. Evitar sítios onde os automobilistas não pudessem parar; colocar-me à saída das povoações, sobretudo numa rampa a subir, jamais pedir boleia na auto-estrada, mas sim antes da entrada nelas; andar sempre limpo e barbeado, nem que tivesse de me pôr em tronco nu numa praia ou povoação junto dum fontanário, para me lavar e barbear; ter sempre uma toalha para limpar o rosto; dormisse em praias, no campo, em jardins, debaixo de camiões ou em albergues da juventude, vestir sempre o pijama e meter-me no saco-cama; levar dinheiro suficiente para poder meter-me num comboio de volta, se houvesse algum contratempo; ter cartão dos albergues da juventude e cartão internacional de estudante; levar um mapa dos países que ia visitar ou de toda a Europa e planear a viagem para não andar à deriva, embora alterasse percursos, conforme as circunstâncias o exigissem.

Claro que os meus pais nem sonhavam que eu andava em viagens e à boleia! Para eles, eu estava em Lisboa. Ai, se os meus pais soubessem metade disto! Mas nunca pratiquei actos que os envergonhassem nem lhes pedi dinheiro para viajar.

Também é verdade que deles não recebia um tostão. Nunca quis estar dependente deles, quando eu podia trabalhar. Não acontecia o mesmo com os meus irmãos e, por isso, sempre meu pai dizia que eu era quem menos dinheiro lhe gastara. Para poder encontrar emprego, tirar licença de porte de arma de caça e outros fins, meu pai emancipou-me aos 18 anos.

Comer? Levava sempre comigo dinheiro suficiente para comer e, se necessário, apanhar um comboio de regresso. Claro que tudo fazia por gastar o mínimo possível. Uma garrafa de leite e pão faziam-me sempre companhia, apesar de não ser amigo de leite. Este era substituído por uma cerveja quando atravessava uma povoação em horas de calor.

Cartão de Professor de Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Cartão de Professor do Ensino Primário

Como arranjava o dinheiro? Fui sempre independente dos meus pais. Em Lisboa dava explicações de Português, Francês ou Latim em casa dos alunos ou no sindicato dos professores, na Rua do Salitre, pelo que tive de pedir o diploma de professor primário, já que ainda não tinha acabado o curso de Filologia Românica. Quantas molhas apanhei no Inverno! Lembro-me duma vez ter chegado que nem um pinto a casa dum aluno. Lá me deram uns jornais para meter nos sapatos e ensopar a água. Honestidade acima de tudo. Cumpria horários à risca, mesmo dependendo de transportes públicos. E assim ganhava para poder levar uns trinta contos comigo, bem escondidos. Cheguei a dar aulas no Liceu Passos Manuel, no Colégio Clenardo e no Moderno à noite e ainda explicações,ocupando mais de 60 horas semanais, só para arranjar dinheiro para as férias.

Cartão da Federação Portuguesa de Atletismo - Capeia Arraiana

Cartão da Federação Portuguesa de Atletismo

Mesmo assim, não deixava de treinar atletismo todos os dias no Estádio Universitário, inscrito no CDUL, clube que representei em diversas corridas e corta-matos. Foi por não ter tempo para ir às aulas diurnas na Faculdade de Medicina, onde era obrigatória a presença, que tive de abandonar este curso no fim do 1.º ano. Ainda fui colega da filha do Manel Zé Ginjo, a já falecida Lilita. Decidi ir então para o ISCEF, ao Quelhas, onde não era obrigatório assistir a todas as aulas. E aí obtive a 2.ª licenciatura, em Finanças, que me deu acesso ao exame para Revisor Oficial de Contas, profissão que exerci em acumulação com professor e que ainda exerço, reformado já de professor há uns 14 anos.

Conheci praticamente toda a Europa à boleia. Só não fui à boleia às ilhas: Irlanda, Islândia, Malta, Chipre e Reino Unido, país onde fui mais tarde, em 1875, de avião. Conheci todas as cidades da Espanha, menos Bilbao, da França e da Alemanha. Na Rússia obrigaram-me a escolher entre o comboio e o avião. À boleia não. Parte da Turquia, Israel e norte de Marrocos também os conheci à boleia. E de avião, conheci boa parte do mundo: Egipto, a maior parte da Turquia, Tunísia, Paquistão, Índia (três vezes), Nepal (duas vezes), Tailândia (duas vezes), Myan Mar, Tibete, China, Tóquio, Vietname, Cambodja, Laos, Filipinas (duas vezes), Sri Lanka, Malásia, Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Ilhas do Tahiti, Perú, México, Brasil (três vezes), parte das cataratas de Iguaçú na Argentina, Venezuela (três ou quatro vezes), Cuba (43 vezes), Punta Cana em Santo Domingo, Miaimi nos USA e Ancorage no Alasca.

O que vos conto é, em parte, produto da memória, que ainda tem vivas todas essas aventuras. Alguns auxiliares, como relatos sucintos de muitas viagens, fotografias, carimbos nos passaportes usados e que então não eram devolvidos aquando da renovação, carimbos dos albergues da juventude no respectivo cartão e algumas anotações que tomei ajudam-me a não confundir as viagens. Farei ilustrar os relatos por algumas destas provas.

Sinto um imenso prazer em recordar as minhas peripécias enquanto escrevo estas linhas. É como se estivesse a vivê-las de novo! Recordar é viver! Mais, sinto que ainda era capaz de fazer o mesmo hoje, apesar de já contar com 75 anos. A juventude não se perde! E muito menos o sonho dela! Era para mim um prazer contar as minhas peripécias de viagem aos meus colegas. Muitos diziam que me acompanhariam na próxima viagem, eles e elas. Chegada a altura de partir, arranjavam mil desculpas para não me seguirem. Faltava-lhes o que sobrava em mim -o espírito de aventura!

Dado já ter passado tanto tempo, foi-me difícil reconstituir todas as viagens, sobretudo as suas datas. Porque fui mais que uma vez a alguns países, foi-me difícil separar cada uma das viagens a esses países, como é o caso da Turquia e Grécia. Nem sempre fiz relatos das viagens ou, se os fiz, não os encontro. O período em que estive na tropa não me permitiu o controlo dos meus papéis e fotografias e é possível que alguns tivessem desaparecido.

Conservo os passaportes de 1965 (válido até ao início de 1967); 1969 (de Maio de 1969 a Maio de 1970), 1970 (de Maio de 1970 a Maio de 1975); 1975 (de Maio de 1975 a Maio de 1980), 1980 (de Junho de 1980 a Junho de 1985) e 1986 (de Fevereiro de 1986 a Fevereiro de 1991) e fotocópia do de 1991 (válido até 2001), renovado em 1996 por ter mudado de estado. De 2001 em diante não tirei fotocópia e desde os anos 90 passaram a ficar com o antigo quando se renovava. Através dos carimbos nos diversos passaportes e nos cartões dos Albergues da Juventude consegui refazer muitas das viagens. Para aquelas em que viajei de avião, serviram-me para o efeito os talões de embarque e os bilhetes, muitos dos quais ainda guardo. As inscrições em muitas fotografias, e foi pena não o ter feito em todas, também foram um auxiliar precioso. Mas, tive de conciliar determinados factos para poder chegar a algumas conclusões.

(Fim da Primeira Etapa.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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Aqui ficamos a aguardar as memórias das viagens de Franklim Costa Braga. Serão etapas que ficarão para sempre partilhadas com todos nós.
jcl e plb

One Response to Viagens dum globetrotter desde os anos 60 (01)

  1. Augusto Simão Salada diz:

    Bom ano 2019 um abraço !

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