Cheirinho a Natal!

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Quem um dia passou o Natal na aldeia jamais esquecerá os cheiros e sabores aliados à tradição ancestral, trazidos até aos dias de hoje por gerações sucessivas de gente humilde mas de coração do tamanho do mundo!

Casteleiro – Sabugal

O mês de dezembro caminhava a passos largos, com ele a azáfama da colheita da azeitona ia ganhando força e as histórias contadas por gente boa – vigilantes diários de S. Francisco, que dá o nome ao largo, deixavam antever um bom ano de produção de azeite. Neste, como noutros assuntos, as opiniões nem sempre são concordantes. Enquanto uns contam das suas magras fundas que o lagareiro lhe disponibilizou outros avançam com tamanha abundância que nem os potes disponíveis foram suficientes!… A rematar esta conversa saltaram as sábias palavras do ancião residente, respeitado por todos, «Pois é, mas a verdade verdadinha é que a azeitona dá-a a oliveira mas o azeite quem o dá é o lagareiro!» Como sempre, um simples aceno de cabeça traduziu a concordância geral.

O Natal na aldeia é acompanhado sempre de múltiplas conversas e histórias em que as palavras «azeitona», «lagar», «azeite», «madeiro» e «Menino de Jesus» se repetem ao dia, vezes sem conta, no novo café que agora abriu, no Terreiro (Largo de São Francisco) – local onde tudo se sabe, tudo se ouve e tudo se conta e, claro está, em redor do madeiro naquela que é a noite mais apetecida do ano.

Longe vai o tempo, bem presente na memória dos mais velhos, em que várias pessoas se deslocavam aos lagares em laboração no Casteleiro (um do Sr. Manuelzinho Fortuna e o outro do Sr. Joãozinho Rosa) para aí pedirem emprestadas uma, duas panelas de azeite para que este não faltasse na noite de nascimento do Menino para regar as couvinhas com bacalhau e, claro está, para fritar as tão desejadas filhós. Em troca ficava o compromisso de aí ser moída a azeitona da safra desse ano.

É também esta Noite Mágica que traz à aldeia muitos amantes da terra que, apesar das distâncias que os separam percorrem quilómetros sem fim para respirarem o ar puro da sua terra, arejar as suas casas e sentir o cheiro único do azeite quente emanado da fritura das filhós.

Mas a festa só fica completa com a Missa do dia de Natal e, como manda a tradição, com o beijar do Menino Jesus e o Sr. Padre Eduardo a limpar-Lhe, cuidadosamente, a perninha cada vez que os paroquianos se aproximam em sinal da sua ternura e veneração. Tudo isto envolvido em tradicionais cânticos a preceito.

É bom sentir o Natal assim!

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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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