Sado, Triste Sado!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

No passado dia 8 de dezembro publiquei este artigo no Facebook. Não posso ficar indiferente nesta passagem de ano sem denunciar esta atrocidade. O meu Rio Azul, que caminha de sul para norte, como contrariando a natureza, como uma contracorrente de oposição, de inconformismo, está outra vez nas «mãos» dos interesses económicos e, provavelmente com uma morte anunciada. Quem não se lembra das ostras que a central térmica «convidou-as» a mudar para o Algarve, do tratamento de esgotos que tardou, e, do mais importante, do controlo do estuário, zona fundamental do equilíbrio natural pela alteração do pH da agua, em face da proximidade do mar, onde o sal ajuda à precipitação dos sedimentos e de outros nutrientes essenciais à vida de espécies que escolheram este habitat para sobreviver.

O Estuário do Sado - Capeia Arraiana

Estuário do Sado (Foto: D.R.)

Portugal, sendo um pais vocacionado para o mar, na realidade nunca lhe deu muita importância. Só muito recentemente é que as cidades ribeirinhas começaram a ter espaços de lazer dignos junto aos rios, como em Lisboa e Setúbal. Os portos, sem dúvida importantes para a nossa economia, quase «taparam» por todo o lado a vista ribeirinha que apreciamos, ora com contentores, ou cais, ou navios acostados. Felizmente nesse campo demos passos importantes e presentemente as populações já conseguem ter algum espaço aberto e desafogado para desfrutar a calmaria das aguas que sobem e descem nos estuários com as marés, num balanço quase perfeito.

A vocação marítima dos portugueses fez dos portos o principal entreposto da sua economia e se hoje somos independentes, muito devemos aos nossos antepassados que viraram «costas» à Europa e se lançaram à aventura pelos mares desconhecidos.

Porém com a evolução do conhecimento, principalmente com as preocupações ambientais, as sociedades começaram por descobrir que a atividade comercial nos portos começava a provocar impactes nos ecossistemas, fosse através da pesca, na exploração comercial nas praias, a falta de tratamento dos esgotos urbanos, levando a própria cor azul que tendia a desaparecer. E obviamente estou a ser muito leviano com esta abordagem muito singela.

Quando era garoto muita gente ia para as praias banhadas pelo Sado, na margem esquerda, ainda antes da industrialização, e igualmente via muitos barcos que pescavam taínhas sem o sabor a gasóleo dos dias de hoje.

Tecnicamente falando as zonas dos estuários são muito complexas. Tanto do ponto de vista hidráulico (devido à influência das marés) como ambiental por causa do «encontro» entre a salinidade do mar e a doçura da água do rio. Para além destes aspetos há o estudo do movimento de sedimentos no fundo, efetuada pela hidráulica fluvial, com modelos de grande complexidade devido às variáveis que dificultam a previsão do comportamento do transporte deste material solido que «baila» no fundo dos estuários e dos próprios rios.

Neste cenário é compreensível que as dragagens, ou seja, remover sedimentos das profundezas do estuário é um tema sensível, mesmo para os menos conhecedores da complexidade destes fenómenos naturais, porque na realidade é da natureza, do ambiente, que se está a falar.

Mas mesmo imaginado que a «Baía mais bela do mundo» teria de deixar de o ser porque para a sobrevivência da economia nacional seria preciso construir um porto de aguas profundas e, na realidade, apenas este estuário permitisse a atracagem de grandes navios, resolvendo assim os graves problemas da nossa débil economia, sem dúvida que a fundamentação da dragagem poderia ter algum fundamentando, sem menosprezar a legislação ambiental transposta das diretivas europeias. Pois é!

Pegando num barco à vela, sem motor, e rumando a sul, a umas escassas 40 milhas, sensivelmente, encontramos uma das zonas naturais com melhores características para se fazer um porto de aguas profundas permitindo a acostagem de navios de grande porte. E, julgo, até já está feito: o porto de Sines.

Com certeza que haverão estudos, motivos, ideias de pessoas bem mais conhecedoras do que eu, ainda para mais emigrado nas montanhas, que justificam estas obras e este empreendimento no nosso Rio que voltou a ser Azul, após anos de esforço de entidades publicas e privadas na recuperação ambiental da qualidade da agua no estuário do Sado, tendo, entre outras coisas, possibilitado o regresso dos golfinhos roazes. Provavelmente por isso, nunca vi e senti tanta contestação por gente de Setúbal, minha terra, e que por sinal muitos deles até pautam pela sensatez.

Economia do Estuário do Sado - Capeia Arraiana

Economia do Estuário do Sado (Foto: D.R.)

Mesmo do ponto de vista político (do município, não partidário obviamente) a entidade responsável pela gestão do porto e do estuário é a administração central através do Ministério do Mar, Ministério da Defesa e do Ministério do Ambiente. E por esse motivo, pese embora a liberdade de opinião e de expressão que felizmente usufruímos, a Presidente deveria ter sido mais cautelosa mesmo pensando no eventual crescimento económico da cidade. Deveria ter sido o fiel da balança que faltou nesta teia de atrocidades ao nosso património ambiental.

Setúbal hoje é uma capital de referência e uma cidade aprazível de se estar. Mas Setúbal sem o Rio Sado, mesmo sendo Setúbal, não é a mesma coisa!

Por isso já é tempo de se respeitar o ambiente, os ecossistemas dos estuários (hoje felizmente Parque Natural), evitar a todo o custo a poluição fluvial e também, já agora, o equilíbrio do transporte de sedimentos, que pode ser uma chatice para os navios, mas faz muita falta para a sobrevivência da fauna da ainda «Baía mais bela do mundo».

Setúbal, 25 de dezembro de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

3 Responses to Sado, Triste Sado!

  1. Antonio Alves Fernandes diz:

    Segundo o Presidente da Associação Ambiente, Francisco Ferreira, uma especialista ambientalista de renome internacional, conhecedor profundo do Estuário do Sado, afirmou que “o ecossistema está em perigo com as dragagens, que vão extinguir a comunidade dos golfinhos-roazes, com o grande impacto ambiental.
    A Senhora Presidente da Câmara Municipal de Setúbal estive mais preocupada em colocar os desenhos de Álvaro Cunhal, que nada fez por Setúbal, e colocá-los numa das principais entradas e saídas de uma avenida sadina.

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