Novela na Raia – Episódio 24

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens.
(Episódio 24. FIM).

Novela na Raia - Episódio 24 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 24 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

IV – Emigrante

E voltaram à festa da Sant’Ofêmia no ano seguinte. Tudo estava na mesma. Apenas alguns «franceses» que, como eles, faziam compras nos mercados sem olhar ao preço. O arraial agora estava iluminado e com enfeites, bem como as ruas por onde passaria a p’cissão. Havia algumas obras pelo arraial, tal como a pista para dançar e o palco para os artistas. Lá se foram os castenheiros do arraial.

Pensaram em comprar uma casa e um ou outro chão. Não tinham ainda esquecido as raízes à terra nem a ideia de que quem tinha chões era rico. O Miguel ainda gostaria de aplicar no campo o que aprendera sobre agricultura: semear, ceifar, sachar e arrancar batatas. Mas já não pretendia cansar o corpo. A reforma –la retraite–, quando a tivesse, chegava p’ás sós necessidades.

Os negócios não sariam istieno. Ficariam p’a otra vez!

Visitaram Quadrazais várias vezes, que a terra que nos viu nascer não se deve esquecer. Viram as novidades: as ruas já calcetadas e iluminadas por candeeiros eléctricos desde o início dos anos sessenta, a água que chegava à Fonte, vinda rua abaixo do Vale, fora metida numa vala subterrânea até desaguar na Cale Fundeira, recebendo ainda a água do pio, e a estrada para o Sabugal fora alargada e alcatroada.

Onde poderiam agora esconder-se os lobesomes? Adeus lapacheiros. Já poderiam ver televisão e usar electrodomésticos.

Iriê à missê no Domingo, com a sua Palmira ao lado, bem vestidos, ele de fato e sapatos, ela com um belo vestido e cordão de oiro ao peito, acompanhados de dois meninos. O sonho de ser rico estava a tornar-se realidade.

Como ele, alguns dos antigos colegas de escola e de caminhadas pela Raia também regressaram à terra. Outros só regressaram em caixão, pois quiseram que fosse a terra de Quadrazais que lhes comesse os ossos. Por isso, o cemitério teve de ser alargado duas ou três vezes. Outros por lá ficaram para sempre.

Planearam comprar um lote de terreno ao Vale, destacado do lameiro que fora do Senhor Zé Jaquim e agora era do Jé Carvalha, que o repartira em lotes. E fizeram a só casa com as comodidades necessárias, para onde vieram morar já reformados, com água canalizada desde o ano de setenta e cinco.

Já era agradável viver em Quadrazais, com telefone, rádio e televisão, com máquina de lavar roupa, fogão a gás e com casa de banho.

Já não se via a fila de pessoas junto à casa do Sr. Zé Simão e depois junto à do Pap’seco, à espera de receber uma carta. O primeiro também emigrara para França e o segundo morrera. Agora era uma carrinha do Sabugal que ia levar e distribuir o pouco correio. Também já não vinha do Sabugal o home dos telegramas, no seu passo apressado, bamboleando uma vara de um lado para o outro. O telefone tudo resolvera.

Adeus ter de ir baixar as calças atrás dos cast’nheiros. Adeus a Palmira ter de ir lavar a roupa, ajoelhada na tacoilê, à Lavandeira ou à Ribeira. No Vale já não podiam entancar a água. O poço do Panto, donde vinha a maior parte da água, tinha sido tapado com grandes troncos de cast’nheiros e pedras de cantariê.

Comiam sentados em cómodas cadeiras e não já em bancos de pinho ou mesinhas de carvalho com três pés, e não já em cima do escano, mas sim numa mesa normal. Longe ia o tempo em que comiê o caldo por uma barranha ou caçoilo. Agora usava bons talheres para comer a sopa, o prato principal e a sobremesa à discrição. Já no p’cisava de ir robar alguma maçã a um quintal. Nem era p’ciso ir à Praça marcá-la ós malcatenhos que ele tantas vezes encontrara bem cedo na serra, ele para Valverde, eles p’a Códrazais. Bastava ir a um comércio da terra ou pegar no sê carro e ir ó Sabugal, onde encontrariê tudo nos supermercados, tal como em França. Os carros enchiam as ruas. Quem teria pensado que algum dia andariam em carros próprios os que iam a pé ó Sabugal, Vale de Espinho ó Soito?

Para seu desgosto, já não havia a festa da inspecção, por falta de rapazes. E, se algum haviê, iê na carreirê. Os cavalos já não eram p’cisos. Já no oviam o tocador nem os foguetes da chegada. E ele que não tivera o prazer de fazer a só festa, já no voltaria a assistir àquele mundo maravilhoso da infância! Não tivera a sorte de calçar uns caturnos feitos pela Palmirê!

Já não se viam cearas de pães, nem ceifadores, nem gadanheiros, nem matanças, nem capadores, nem medes nas Eirês, nem malhadores, nem nagalhos p’a deitar… Mas haviê mais ciganos, que os pocos que visitavam Códrazais transformaram-se em residentes, multiplicando-se como bichos.

Já ninguém levava taleiguês ós munhos. Estes haviam encerrado.

O Códrazais da só infância morrera!

Pelos trilhos da Raia, já apagados pelo crescimento de gestas e otros arbustos, não se viê viv’alma. Já no haviê contrabandistês nem ambulantes. Indê existiriam os comércios da Ti Tomásia, da Concha e do Saturnino?!

Tinham-se acabado p’a sempre p’a éle as idês a Valverde! Mas as saudades desses tempos continuavam, apesar de terem sido tão difíceis.

Quem sabe, talvez lá voltassem a matar saudades!

Agora teriam de viver com os novos tempos. Talvez cultivar um hortito para matar saudades, mas não p’a grandes trabalhos. Indê encontrou em casa da mãe um gancho e uma enxadinhê, que lhe fizeram lembrar a forja do Magildro. Serviriam para sachar e arrancar umas batatitas do horto. Saberiam melhor que as do supermercado.

A forja estava em ruínas. Coitado do Magildro! Por lá ficara em Paris, onde fazia vida de clochard, atropelado por uma moto. O Sr. Mateus, por falta de trabalho, regressara à sua terra, junto de Almeida, com a mulher Belisanda.

Já no haviê quem concertasse uma enxada nem calçasse umas ferraduras num burro. Aliás, já eram raros os animais e os gados. Não se viam galinhês nem marranos nas ruas. Já nem cães se ouviam ladrar. Teve saudades do seu burro, que a mãe vendera para lhe pagar a viagem a salto. Os campos abandonados eram matos para fogos. Até as poucas vinhês, tão apreciadas, acabaram por secar. O mesmo se passava c’os lameiros, outrora tão apreciados pelos criadores de gados, agora abandonados e desvalorizados, como a maioria das terras, passada a fúria de ter chões para parecerem ricos. O mesmo aconteceu com a gleba do Alcambar, irreconhecível nas partilhês. Só os terrenos junto da povoação se haviam valorizado muito, crescendo as casas por todo o lado.

Os sapateiros haviam acabado. Agora tudo se comprava já feito. Já ninguém deitava tombas ós sapatos e os tamancos tinham passado à história, substituídos por botas forradas com pele de ovelha. Ninguém deitava cuedas às calças porque também haviam morrido ou abandonado a profissão os alfaiates e sapateiros e agora só já se usavam calças novas ou quase. O que já não serviê, deitava-se ó lixo. Os barbeiros também haviam desaparecido, tendo de ir ó Soito ou ó sabugal cortar o cabelo.

Contudo, muita gente ainda conservava cântaros e outros objectos caseiros como peças de museu. Sim, que os vendedores da Malhada Sorda deixaram de vir a Codrazais e os cântaros só já serviam para decoração. As torneiras deitariam a áugua que se p’cisasse.

Por isso, também já não se viam as moças bem arranjadas de cântaro à cabeça a caminho da Fonte, onde conheceriam os futuros namorados.

As festas, porém, continuavam a fazer-se, embora os foguetes já não tivessem canas. Contudo, já não se arrematavam as pernas do andor. As velhas tabernas, nem sempre asseadas, haviam dado lugar a cafés.

Por falta de rapazes e moças, os balhos ós Domingos tinham acabado e, com eles, as vendedoras de tremoços, Pitagala e Nunciação do Mata o boi, a quem ele comprava um cartuchinho deles. Nem mirones já haveriê para deitar palpites de casamentos. Até o comércio do Ti Barreiro fechara, que os filhos também haviam deixado Quadrazais. O velho Ford jazia nalgum palheiro meio desfeito.

Agora Quadrazais já tinha um lar para os velhos. Quem trabalhava em França poderia trazer os pais p’ó lar de Quadrazais, onde seriam bem tratados. Não haviê necessidade de deixarem de trabalhar para cuidarem dos pais em França. Longe iam os tempos em que os pais, em idade avançada e já sozinhos, passavam um mês em casa de cada filho.

Neste Quadrazais moderno, com tudo o necessário, passou a viver o Miguel com a sua Palmira e filhos. A estes ensinava as memórias do passado, mas com a satisfação de eles já não virem a passar pelos trabalhos e miséria por que ele passara.

Notas:
– Caçoilo – caneca larga de barro
– Chão – terreno de cultivo
– Istieno – este ano
– Jé – José
– Lapacheiro – lamaçal
– No – não
– Ó – ou, ao
– P’ó – para o
– Só – sua

(FIM.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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Agradecemos, com forte sentimento e emoção, este legado de Franklim Costa Braga publicado durante 24 episódios no Capeia Arraiana. Um documento com a «nossa história recente» para ser lido por todos os sabugalenses e estudado nas escolas da Raia. Bem-haja.
jcl

2 Responses to Novela na Raia – Episódio 24

  1. jclages diz:

    Agradecemos, com forte sentimento e emoção, este legado de Franklim Costa Braga publicado durante 24 episódios no Capeia Arraiana e que hoje termina.

    Um documento com a «nossa história recente» para ser lido por todos os sabugalenses e estudado nas escolas da Raia.

    Bem-haja.

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