Natal

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Ontem, foi dia de Natal; para a maioria das pessoas o dia terá sido feliz, no regresso à família e ao espírito de união e de partilha. Mas, muitos têm razões para estar tristes e o dia não foi de felicidade: perderam alguém de família, descobriram que sofrem de uma doença grave, encontram-se desempregados, estão sozinhos ou por outro qualquer motivo que só cada um sabe.

Nem sempre o dia de Natal é partilhar alegrias - Capeia Arraiana

Nem sempre o dia de Natal é um momento para partilhar alegrias

O Natal é uma data muito especial: a alegria nunca parece desmedida, como se, sempre, faltasse alguém à mesa; os sentimentos estão à flor da pele, facilmente as pessoas se emocionam, mostrando gestos pouco habituais; a música é suave, enternece, conduzindo-nos para um estado de paz e de harmonia; as luzes não ferem a vista, mesmo que sejam aos milhares, contagiando-nos com o seu brilho; e o presépio continua lá, onde sempre esteve, na igreja, nas casas ou em lugares públicos, cada vez menos, mas, para quem o faz, com o mesmo significado.

Quase tudo está naquele presépio: o sentido da religião; o sentido da família, o Menino Jesus, a mãe e o pai; o sentido da comunidade, a aldeia à volta, onde não falta nada – o rio, o campo, o moinho, as casas, as lavadeiras, os pastores, os artesãos…; o sentido do reconhecimento, da solidariedade, nas prendas que o Menino recebe, das pessoas mais humildes aos reis mais poderosos; o sentido da esperança, do contínuo recomeço, sem o qual a vida seria muito mais difícil; e o sentido do tempo, das gerações e da cultura.

Mas, também, em certos aspetos, podemos dizer que, para muitas pessoas, já pouco resta desse presépio, substituído, há muito, por árvores de Natal carregadas de presentes. O espírito do Natal, por via do exagero das compras, para o jantar da consoada e para o almoço de Natal, e por via de alguma hipocrisia, nas relações familiares, profissionais e sociais, em que há quase uma obrigação de fazer de conta de que tudo está bem, têm-se desvirtuado um pouco.

:: ::
«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

Deixar uma resposta