Casteleiro – A Serra d’Opa

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Já contei nestas crónicas a lenda das três mouras encantadas que à noite estendem seus alvos lençóis no alto da Serra d’Opa. Mas são tantas as histórias que se contam que vale a pena rememorar algumas delas…

Serra D'Opa - Casteleiro - Capeia Arraiana

Serra D’Opa no Casteleiro

Talvez saiba que o nome da serra (Opa) pode vir de Oppidana, a «capital» destas terras em tempos muito antigos.

Mais: Lancia Oppidana, essa capital regional, poderá ter-se localizado lá para o outro lado da Serra, em paragens onde hoje se encontra o Santuário da Senhora da Póvoa.

Verdade, verdade é que a Serra d’ Opa foi local de muita exploração de minério lá pelos anos 30 e 40 do século XX e que muitas pessoas do Casteleiro conseguiram fazer algum dinheirinho com essa actividade.

Mas vamos lá então a algumas das lendas associadas à Serra que toda a minha infância fez parte do cenário que todos os dias via da minha terra natal – como já aqui contei há uns seis ou sete anitos.

Mula de ouro

As lendas populares falam muto de ouro, moedas de ouro, potes de ouro.

Pois para a Serra d’ Opa também se arranjou no Casteleiro uma história que mete ouro. Reza assim:

«No alto da Serra d’ Opa, há um haver: uma mula de ouro com selim, freio e tudo. E quem a há-de encontrar é rabo de ovelha ou ponta de relha.»

Eu explico.
A mula tem os arreios todos: até selim e freio, portanto está completa e é muito valiosa. E está ali mesmo à superfície.

Reparem: quem a há-de encontrar é rabo de ovelha, ou seja, não é preciso arranhar muito o solo ou ponta de relha (a relha é a parte do arado que rasga a terra – mas a relha não vai muito fundo, anda mais à superfície).

Portanto esta mula de ouro está mesmo ali à mão de semear… É só ir buscá-la!

Mouras encantadas no Casteleiro - Capeia Arraiana

Mouras encantadas no Casteleiro

Mouras encantadas

São mouras encantadas mas de tranças de ouro, estas das lendas da Serra d’Opa.

O Dr. Lopes Dias, que era do Vale, conta a história das mouras encantadas que vivem lá no alto da Serra. Mas esta lenda não mete lençóis e sim tranças de ouro… Mais uma vez e sempre o ouro.
Ouro que, se bem se lembram, o Rei mandou procurar no Casteleiro em 1723: mandou explorar as terras para ver se de facto ali havia ouro ou não. Recordo que, mesmo não havendo tanto ouro assim, a verdade é que não falta lá, nas duas encostas da Serra, volfrâmio, estanho e quejandos minérios bem conhecidos, que na Segunda Guerra deram muito dinheiro a muitas famílias da zona.
Retomo Lopes Dias.

Destas mouras, conta ele que «no sitio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para uma só vez em cada ano — di-lo o povo — na noite de São João, saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e que só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real».

Mas ninguém se atreve.

«E por isso, lá entre penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes, enormes riquezas.»

Serra da Estrela brilhando ao fundo - Capeia Arraiana

Serra da Estrela brilhando ao fundo

Grutas misteriosas e barulhos telúricos

Nem só de histórias vive o mito da Serra d’Opa: os visitantes falam também de minas, grutas profundas, buracos enormes pela rocha abaixo até às profundezas.

Num dos casos, contam-me até que lançavam uma pedra pelo buraco abaixo e que a mesma demorava muuuuito tempo a bater lá em baixo ou nem mesmo se ouvia a tocar no fundo. Sinal de que o buraco não tem fim.

Mais: ouve-se sempre lá no fundo um barulho parecido com o marulhar das ondas do mar. Até há quem diga que ali passa um braço de mar…

Oppidana > Opa

Finalmente, um pouco daquilo que mais adoro: saber qual o percurso das palavras e das situações vividas pelos nossos Povos destas zonas.

De que palavra poderá vir a designação da Serra (Opa)? Já li algures que de «lupa», loba, em latim. Aliás, havia muitos lobos na Serra. E o medo era enorme e quase religioso, naqueles tempos. Contam-se histórias do diabo sobre lobos e medo naquelas bandas.

Opa poderia então vir de loba, em latim.

Mas esta origem que aí vem agrada-me muito mais.

Em 71 antes de Cristo poderá ter havido nas faldas da Serra d’Opa, mas do lado do Vale, uma cidade celta fortificada que lutou contra a ocupação romana. No local onde fica o Santuário da Senhora da Póvoa. Na década de 30 do século XX terão ali sido encontrados vestígios de muralha fortificada.

Essa cidade terá sido Lancia Oppidana. Daí até Opa é um passo no percurso popular das palavras e dos étimos…

:: ::

>> Bom Natal para todos nós e nossos Amigos.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta