Quando comprávamos as prendas na loja do Ti Manel!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

O tempo vai caminhando com o chamado progresso. Coisas melhores, vida diferente, mas também há um sabor de saudade de hábitos que tendem a desaparecer definitivamente. Já não são só as livrarias, todo o comércio de rua, ou tradicional, caminha para um calvário que, nos dias de hoje, nem o Natal lhes salva!

Comércio Tradicional em tempo natalício - Capeia Arraiana

Comércio Tradicional em tempo natalício

Espero que compreendam que este artigo é de opinião! Não pretendo criar conflitos com as grandes superfícies comerciais que têm um peso importante na economia e nos postos de trabalho.
Porem há o reverso da medalha. Hoje quase não se vê gente nas ruas do comercio tradicional principalmente nas terras frias e isoladas. A luz, brilho, diversão, estacionamento, climatização e «tudo à mão» dificultas as lojas da nossa infância a sobreviver. Mas aceitem este meu desabafo: estou cansado de andar num corrupio de prendas sempre nas mesmas lojas e que, para além da venda e de perguntar pelo contribuinte, nada mais de humano nos oferece.

Quando era miúdo andava de calções em pleno Natal com a minha mãe e tias a percorrer as inúmeras lojas da Baixa de Setúbal, onde tentava perceber para quem eram as prendas e o momento de pausa na Capri, ou na Tutilanche, onde se saboreava o café, a doçaria feita na hora e encontrávamos os amigos da escola com a família, igualmente na azafama natalícia.

Nas lojas havia uma relação tão familiar que os comerciantes se apercebiam de nos ver crescer e, mesmo fazendo algum disparate às vezes vinha uma pequena lembrança como um «calmante» para que a mãe pudesse escolher à vontade o produto.

Lembro-me bem na Farmácia Oliveira, onde os donos da altura eram muito amigos da família, e recebia sempre umas pastilhas doces numa caixa metálica como um remédio da época: «Vê lá se te portas bem e dás um pouco de sossego à tua mãe e tuas tias!» Era o preço dos preciosos comprimidos que adorava saborear e que, se calhar nos dias de hoje, estariam na lista de substâncias proibidas pela Comunidade Europeia.

Mas a Baixa era uma roda viva, com gente de todas as classes sociais, onde se perdiam horas a conversar com os amigos que casualmente se encontravam, na expectativa das prendas que iria receber, na alegria que se viam nos rostos, mesmo em pessoas que poucas razões tinham para celebrar.

Mesmo quando vinha à Covilhã as ruas direita, Rui Faleiro, Capitão Alves Roçadas e Joaquim António de Aguiar eram um «mar» de gente que corria de um ou outro lado mantendo igualmente o espírito natalício através das preocupações da mesa farta (às vezes era uma sobremesa por pessoa), a melhor prenda para quem já tinha tudo ou do frio de «rachar» que todos se queixavam sem deixar de sentir uma das melhores épocas do ano.

Lembro-me bem do bolo de azeite que a minha Tia Maria Augusta fazia questão de adquirir para o seu menino que tanto apreciava.

Hoje, quase nas vésperas do natal, resta-me ainda uma casa de doçaria tradicional na parte alta da cidade mas sou «forçado» a calcorrear as lojas do costume, com os produtos iguais aos do ano anterior, e, salvo raras exceções, os lojistas limitam-se a vender (porque têm objetivos para cumprir) sem entender que nós humanos, temos sentimentos, gostamos de conversar e pelo menos, desejaríamos sentir o Natal com um pouco menos de compras, talões de contribuinte, ou até talões de troca. Noutros tempos nem era preciso. O lojista reconhecia o seu produto e, regra geral, procurava agradar o cliente com a troca mais a gosto.

A loja do Ti Manel - Capeia Arraiana

A loja do Ti Manel

Certo é que hoje a economia precisa de muita compra e muita prenda para ajudar o comercio, só que marginaliza o tradicional. As prendas que hoje a criançada recebe é uma ínfima parte do que eu recebia. E muita roupa me era ofertada deixando-me irritado porque preferia um carrinho, uma pistola de cowboy ou um jogo como «A Glória», «O Monopólio» ou outros que juntavam amigos ou família e nos alegrava a passar o dia de Natal sem ligar a televisão.

Mas este ano sinto alguma saudade daquela azafama nas ruas comerciais, cheias de gente, cheias de vida, onde, provavelmente, até ajudava a mística da quadra.

Mas a vida é como tem de ser. E com ou sem Centros Comerciais, ou Grandes Superfícies, se possível, lembrem-se da lojinha onde faziam algumas compras e até podem encontrar a tal prenda que nunca pensariam em adquirir.

Claro, é preciso que essa lojinha ainda exista!

Acima de tudo muita felicidade e alegria nesta quadra!

Covilhã, 15 de dezembro de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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