Novela na Raia – Episódio 23

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 23).

Novela na Raia - Episódio 23 - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Episódio 23 – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

IV – Emigrante

A mãe via-lhe a alegria nos olhos. Um dia chamou-o.
– Senta-te aqui ó mê lado. Olha lá, já pensaste em ir p’à França? Fulano e Sicrano já foram e já mandaram bô dinheiro ós pais!
– Mas, não vou ter a minha festa?
– Deixa-te de festanças que só te comem o suor do tê corpo. Se ficares apurado, terás de ir uns dois anos p’a longe de mim. Quem vai ajudar-me a manter a casa?

O Miguel ficou cabisbaixo. Pareciam desfazer-se os sonhos da sua festa. Mas, afinal, a mãe tinha uma certa razão. Quem a ajudaria? E, quando regressasse da tropa, o que traria nos bolsos? Dez réis de mel coado. Teria então vinte e dois ou vinte e três anos e nada para poder casar com a Palmira. Quem sabe se esta, ao senti-lo longe, não deitaria os contratos ao vento?!

Falou com ela sobre o que a mãe lhe dissera. Pedira-lhe opinião.

– Tó mãe até tem rezão. São dois ou três anos pardidos. Se queres, peço a mê pai que te ajude a ir p’à França. Ele já lá ‘stá há uns anos, foi dos primeiros a ir, com tê tio Cabral e c’o Finote. Até pode arranjar-te trabalho. Quem sabe se não me vem buscar a mim e a minha mãe ou nos manda ir dentro de alguns meses?!

Remoeu o conselho da mãe durante uns dias. Era difícil esquecer a sua festa. Já ia a Valverde sem prazer. P’a quê tantos trabalhos se já no p’cisava do dinheiro p’à só festa?

A mãe acompanhava este estado de alma do filho.
– Deixemos que ele tome a decisão certa. Ele há-de saber o que é melhor p’a éle.

E ele acabou por seguir o conselho da mãe e da Palmira.
– Bem avisada andava a Palmira. Vou fazer o que ela e minha mãe acham melhor. Nesses dois ó três anos arranjo dinheiro p’à boda e p’a comprar uma casita em Códrazais. Ó, quem sabe?, p’a comprar uma casita em França e viver lá c’o ela.

Era preciso decidir antes de meados de Junho. Já havia dado o número em Janeiro. Haveria problemas com isso? Talvez não. Teria apenas um mês até à inspecção, tempo suficiente para ficar ó ir p’à França. Bebeu um grocho d’áugua p’acalmar.

Todos os dias partia um seu quinto a salto. Dos 37 que deveriam apresentar-se à inspecção, 16 já tinham ultrapassado a Raia de França.

O problema era voltar a Portugal mais tarde. Seria um refractário e não poderia ser polícia ou ter outro emprego do Estado.

– Lá isso é o menos – Dizia-lhe a mãe – Q’ando ganhares dinheiro, pagas a tropa e já podes voltar.

Bô ideia a da mãe. Era isso que iria fazer. Estava decidido. Falou nisto à Palmira. Ela contactou o pai para o ajudar.

Antes de obter resposta do pai, já este a chamava com a mãe para junto de si. Veio dar conta disso à Lucinda, que o transmitiu ao Miguel. No Domingo seguinte falaram à vontade sobre o assunto. Ela prometeu que, mal chegasse, pediria ao pai que lhe arranjasse emprego em França.

O Miguel ainda viu partir os ranchos de ceifadores p’ó Campo e chegar os ceifadores de fora. Mas já não contava ver regressar os ranchos nem partir os últimos. Informou-se sobre quem poderia encaminhá-lo até França. O futuro sogro esperá-lo-ia em Paris. Falou com dois passadores: o Manolo – sócio do Albino Rabeco, que ele conhecia de Valverde – e com o Bola. Decidiu entregar-se ao Manolo. Até Valverde não precisava de esconderijo. Conhecia bem o caminho. O Manolo que o entregasse a quem o transportaria até à raia de França, em carro ou escondido num camião fechado. Aí era preciso subir os Pirinéus. Para quem estava habituado à barreira grande da Marvana não seria difícil o caminho. Para mais, as neves já haviam derretido! O Manolo até lhe fez um desconto por ele ter ido sozinho até Valverde. Pagou parte com as poupanças que havia ajuntado para a sua festa da inspecção e a mãe pôs o burro com dono p’ó resto. P’a que queria a mãe o burro se já não teria o Miguel p’ó levar p’à regada?

Em Paris, no local que haviam combinado, junto às Portas d’Ivry, lá se encontrava o Zé Luís com a Palmira. Cumprimentou o futuro sogro e ficou embaraçado como haveria de cumprimentar a Palmira. Foi ela que o tirou do embaraço, dando-lhe um beijo. Em França era assim! Já não havia que respeitar a lei de Codrazais nem ter medo das más línguas.
– Eh! Rapaz, ‘stás um home! Ainda eras um miúdo q’ando saí de Portugal. Como tu cresceste!

Levaram-no para sua casa, onde ficou, num anexo, até arranjar uma casita, que eles ajudaram a procurar.

Dois dias depois o Miguel estava a trabalhar na construção civil, a deitar goudron sobre as placas dos telhados, ao lado do pai da Palmira. O trabalho era duro. Mas ele estava acostumado a tudo. Ao menos, ganhava dinheiro para poder comprar comida suficiente. Não era mais duro trilhar os caminhos da Raia carregado, sempre com o coração nas mãos, e a ganhar apenas vinte escudos?
Em princípios de Julho já escrevia de França à mãe e até perguntava pelo destino dos quintos. E a mãe respondia-lhe, satisfazendo os seus pedidos, contente por saber que estava bem e ganhava rios de dinheiro. Contava-lhe as novidades da terra: quem morrera, quem nascera, como iam as colheitas, as vacas dos amigos que haviam parido, quem tinha sido apanhado com o contrabando, quem tinha sido nomeado mordomo para os diversos santos e, sobretudo, a estrada para o Sabugal que tinha sido alargada e alcatroada. Tinha-se acabado o atascamento da camionete.

O Miguel prometera-lhe que, em breve, lhe enviaria uns bons francos.

Agora que já tinha alugado um quarto, o Miguel só via a Palmira aos Sábados e Domingos e já haviam falado em casamento. Ela também trabalhava. Depressa arranjariam dinheiro para a boda. Combinaram que casariam pela Páscoa do ano seguinte.

Entretanto arranjou uma casa velha, que reparou, e então mandou ir a Lucinda e depois a mãe e a Janjo.

A Páscoa aproximava-se. Fizeram as compras necessárias, mas não respeitaram os usos de Códrazais. Casaram na igreja de Aubervilliers, nos arredores de Paris, a rigor-ela de vestido branco e ramo de flor de laranjeira e chuva de prata, ele de fato azul, camisa branca e gravata a condizer. A boda não foi como em Códrazais. Não houve caldo de grabanços, nem fofas ou cascoréis. Como já tinham dinheiro e as mães não tinham as panelas e pelas para fazer a comida, fizeram a boda num modesto restaurante em Aubervilliers, para onde iriam viver.

Finalmente teria a sua Palmira.

Quanto à boda, os tempos eram outros. Longe ia o Códrazais de outros tempos! No entanto, comeram e beberam quanto quiseram e do melhor. Só faltavam os cheiros, alguns amigos das idas à Raia e o à vontade de Códrazais. A lua de mel haveria de ser mais tarde em Códrazais.

Haveriam de visitar Códrazais logo que pudessem e ver os colegas de idas a Valverde, mostrando-lhes as mãos limpas, próprias de quem não tem trabalho duro, ainda que tivesse de passar oito dias sem trabalhar antes de visitar a terra. Haveria de comprar um bom carro, talvez uma Peugeot 404, como nova, mas muito mais barata, e mostrar-se em Códrazais como rico. Compraria um Kodak para fazer ver que era rico.

Haveria de ir à taberna do Manal e ser ele a pagar aos presentes vinho ou çarveja q’anta q’sessem, mostrando, com prazer, as notas de galhal na carteira. Ainda não se tinha esquecido da Gíria.

Notas:
– Atascamento – acto de ficar preso na lama.
– Dar o númaro – inscrever-se para a inspecção.
– Galhal – dinheiro em notas.
– Goudron – alcatrão.
– Grocho – gole.
– Pela – frigideira.
– P’ó – para o.
– Só – sua.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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